Cerca de
metade (2,5 mil milhões de euros) do dinheiro que este Governo tinha à disposição no
QREN (Quadro de Referência Estratégico Nacional) da União Europeia para o desenvolvimento do País até ao final de 2013 foram comprometidos
em apenas oito meses pelos gestores socratinos perenes.
Soado um alerta mais estridente,
o primeiro-ministro teria decidido confiar a gestão dos fundos, que estava no Ministério da Economia, ao Ministério das Finanças. Sentindo-se desautorizado pela perda de competências, o Prof. Álvaro Santos Pereira terá, alegadamente, ameaçado demitir-se num Conselho de Ministros, de 1 de março de 2012, em que Passos Coelho esteve ausente, com a discussão a ser
filtrada para os media: não só a alegada ameaça de demissão de Álvaro Santos Pereira, mas também uma alegada «
intervenção violenta» do ministro Miguel Relvas (de quem,
o filtro i diz, em 5-3-2012, que o secretário de Estado é Almeida Henriques é próximo), contra a decisão de passar a gestão dos fundos para Gaspar, tomada por Passos Coelho. Questionado pela imprensa, em vez do habitual desmentido, o número dois do Governo, Paulo Portas, responde que não comenta o que se passou no Conselho de Ministros e, assim, confirma, por omissão, o caso.
Paulo Portas, que queria, e quer, o ministério da Economia, e a gestão dos fundos europeus, nas mãos do CDS e do seu amigo António Pires de Lima, terá
alegadamente defendido Vítor Gaspar, mas a manobra de apoio frontal e conspiração pela retaguarda levou Passos Coelho a realizar uma
cimeira com Paulo Portas. Chegou-se a um armistício provisório: o ministro
Álvaro Santos Pereira fica e
a gestão dos fundos europeus mantém-se no Ministério da Economia, ainda que com supervisão das Finanças. Para fechar o quadro harmónico desafinado,
Pires de Lima veio declarar o seu
apoio a... Álvaro... Mas o ataque continua o seu curso e o órgão oficioso do CDS, o
i, de 9-3-2012, lembra que o Ministério dos Negócios Estrangeiros tem o relaxante e chorudo lugar de embaixador da OCDE, em Paris, disponível para o ministro se este se demitir ou for demitido.
Por outro lado,
as confederações patronais, com relevo para o presidente da Confederação Empresarial de Portugal, o socialista António Saraiva, preocupados com a «
reprogramação dos verbas», isto é, a suspensão de apoios a empresas já comprometidos pelos gestores socratinos dos programas do QREN,
manifestam o apoio ao statu quo e declaram-se contra a passagem da gestão dos fundos para o somítico Ministério das Finanças. Com desculpa pela elipse, o trágico domínio socialista do País chegou ao nível cómico que vai ser objeto de estudo da história contemporânea: Portugal era um país dominado por um
sistema tão socialista, tão socialista, que até o presidente dos patrões era socialista!...
Devido àquilo que parece ser a
desgraçada posição do governo Passos Coelho-Portas de jamais atacar - criticar, demitir, apurar responsabilidades pessoais e queixar-se judicialmente - os antecessores socratinos, o Ministério da Economia está, como os outros, ainda controlado pelo socialismo, pois os gestores dos programas e muitos dirigentes não foram substituídos. Porém, na eventualidade da pressão das contas públicas e do clamor popular determinarem a limpeza dos cargos no Ministério da Economia e nos organismos dependentes, a
fação férrica, comandada por Vieira da Silva, preparou um Plano B, que, consistia na decisão sobre os fundos passar a ser tomada no... Observatório do QREN: isto é,
o organismo que acompanha e controla a execução do QREN... decidiria quais os projetos e quais as entidades a serem apoiados pelos fundos europeus!...
Se fosse concretizada a transferência da decisão sobre os projetos do Ministério da Economia para o Observatório do QREN, criado pela
Resolução do Conselho de Ministros n.º 24/2008, de 13 de Fevereiro, uma estrutura de missão agora a funcionar no Ministério das Finanças, a
emenda sairia pior do que o soneto: não se põe em causa a supervisão da execução do QREN pelas Finanças, mas seria insólito que quem observa passasse também a... decidir. E a decidir mal, a decidir enviesadamente, pois o Observatório do QREN está infestado pelo socratismo-vieirista. Então, é melhor para o País que a decisão sobre os apoios financeiros do Estado (o quê e a quem) aos projetos de desenvolvimento económico, fique como está, no Ministério da Economia, ainda que a supervisão, e o controlo da execução, sejam realizados nas Finanças. O bom senso parece ter prevalecido e assim consta ter sido sido decidido.
Aliás, conforme me informaram,
o Observatório do QREN precisa de uma reestruturação urgente, que a seguir aponto. A mudança do Observatório do QREN para o Ministério das Finanças, através da
Resolução do Conselho de Ministros n.º 49/2011, de 28 de Novembro, que também lhe atribuíu novas competências, não resolveu o problema de fundo, que é provocado pelas pessoas que o dirigem. E Vítor Gaspar, pese o apoio que aqui tem recebido, devido ao seu perfil técnico não limpou os cargos dirigentes do seu ministério dos socialistas que os ocupam, na presunção ingénua, de que os servos dos senhores anteriores passariam a servir os novos e as suas políticas. Para homem prudentíssimo, como creio que Gaspar é, essa ingenuidade é inadmissível e o País não a pode suportar. Não se trata de pecado original dos socialistas: trata-se de dependências reais, de traições políticas, de boicotes efetivos, que não se podem arriscar.
É que se aproxima rapidamente um
novo ciclo de programação dos Fundos Estruturais e de Coesão (2014-2020) e com a ele a oportunidade única de, depois de quase vinte anos após a montagem do Quadro Comunitário de Apoio II (QCA) 1994-1999, se poder corrigir um passado recente - e presente... - desastroso em termos de aplicação desses fundos em Portugal. De facto, o
QCA III 2000-2006 representou uma tentativa frustrada de, à revelia da vontade manifesta do povo, «regionalizar» Portugal Continental utilizando os fundos comunitários como meio, e não como fim em si mesmo, por via das intervenções
desconcentradas dos programas operacionais (PO) regionais. Já o presente QREN (Quadro de Referência Estratégico Nacional) 2007-2013, caracteriza-se por uma estratégia rígida - incapaz de adaptar o QREN à depressão económica, que se vive desde Dezembro de 2007, e à situação aflitiva das empresas portuguesas -, por um modelo de gestão complexo (com diversas comissões e «centros de (ir)racionalidade») e por Programas Operacionais de dimensão excessiva, «pesados» e pouco flexíveis face à conjuntura difícil que se vive, sobretudo após o acordo estabelecido com a chamada
troika - União Europeia (Comissão Europeia e Banco Central Europeu) e FMI para financiar o Estado Português.
Neste contexto, é importante recordar que desde 2000 (isto é, com a entrada em vigor do QCA III 2000-2006, arquitetado pelos governos de António Guterres, em particular pela Eng.ª Elisa Ferreira e pelo Dr. Paulo Pedroso, o PIB de Portugal tem apresentado uma divergência real face à média europeia. Este facto, habitualmente, e apressadamente, conotado com a entrada em circulação da moeda única em 2000, estará, certamente, mais relacionado com exercícios de planeamento e de desenvolvimento regional (QCA III e QREN) que privilegiaram os interesses partidários e corporativos face aos reais interesses do País. Os reais interesses do País são o desenvolvimento económico e social, com o desiderato da plena integração na União Europeia em termos de nível de vida, que depende muito da acumulação de capital humano e de conhecimento, e a respeitabilidade internacional do País e das suas instituições.
O
QCA II (1994-1999) tem vindo a ser reconhecido como a mais bem sucedida experiência de desenvolvimento regional em Portugal, co-financiada pelos Fundos Comunitários – como estudos internacionais comprovaram - veja-se
Ex-Post Evaluation of Objective 1 - 1994-1999, realizada pela ECOTEC - Research and Consulting, Ltd. (Grupo ECORYS) para a Comissão Europeia -, com a colaboração do Centro Interdisciplinar de Estudos Económicos na componente portuguesa). Para tal, na prática, contribuiu um modelo de gestão mais ligeiro e profissionalizado face ao que se viriam a implementar no QCA III e no QREN, assente em Programas Operacionais especializados que concorriam saudavelmente entre si pelos fundos adicionais (reprogramações e aplicação do deflator), favorecendo elevados níveis de compromisso e execução que o QREN, infelizmente, não regista.
Estando Portugal numa situação complexa, de asfixia financeira e em risco de perder parte dos fundos programados no QREN (e nos paralelos Programas de Desenvolvimento Rural – PDR, co-financiados pelo FEADER), apesar do
favor da União Europeia do cofinanciamento comunitário dos projetos passar para 95%, muito se estranha que o ambicioso
Plano Geral de Avaliação (PGA) do QREN, na sua versão mais recente, revista em Dezembro de 2011 , continue, teimosa e absurdamente, a manter um
conjunto muito elevado e caro de estudos de avaliação, que não se confinam ao requerido pela Comissão Europeia (as avaliações intercalares programadas para 2012, em particular), envolvendo múltiplas «avaliações específicas e transversais» não obrigatórias, em grande parte passíveis de ajustes diretos, facilitados pela respetiva atomização pelo PGA do QREN). Ora, os ajustes diretos, ainda para mais em despesas desnecessárias, são fonte de problemas.
Esta «teimosia» não é, certamente, alheia à
estrutura de coordenação do influente Observatório do QREN (criado pela
Resolução do Conselho de Ministros n.º 24/2008, de 13 de fevereiro), que compila e edita o Plano Global de Avaliação (PGA) no âmbito das suas competências de coordenação da Rede de Avaliação do QREN. É decisivo estudar a proveniência e ligações dos membros deste Observatório do QREN, recorrendo às suas biograqfias oficiais. O Coordenador dessa estrutura de missão, Dr. Paulo Areosa Feio, nomeado pelo
Despacho n.º 9896/2008, de 4 de abril, foi Chefe de Projeto no Observatório do QCA III (que se viria a transformar no atual Observatório do QREN) que tinha como coordenador o «grande arquiteto» do QREN, o Dr. Nuno Vitorino, fundador e
gerente da Ilha de Ideias - Projetos e Serviços, Lda. e Presidente Conselho Estratégico da consultora Augusto Mateus e Associados, apesar de ser o Prof. Rui Nuno Baleiras, o discreto secretário de Estado do Desenvolvimento Regional. O coordenador-adjunto do Observatório do QREN, Dr. Joaquim Bernardo, foi cooperante e membro da direção do IESE, tem um perfil mais político (veja-se o
Despacho n.º 14918/2008, de 29 de Maio, que nomeou os dois coordenadores-adjuntos do Observatório do QREN).
O outro Coordenador-Adjunto do Observatório do QREN, Dr. Duarte Rodrigues, possui um perfil mais técnico, ainda que também tivesse trabalhado na Augusto Mateus e Associados. Na estrutura deste organismo justifica destaque também o Secretário Técnico do Núcleo de Estudos e Avaliação do Observatório do QREN, Prof. Ricardo Paes Mamede, docente do ISCTE e ex-diretor de Serviços de Análise Económica e Previsão do influente Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia, do ministro Manuel Pinho (ver
Despacho n.º 5627/2010, de 29 de março). Os outros dopis secretários-técnicos, parecem ter um perfil mais técnico, especialmente a Dra. Margarida Machado.
É de registar que o Observatório do QCA III, à época dirigido pelo Dr. Nuno Vitorino e tendo como braço direito o Dr. Paulo Areosa Feio, contratou um conjunto muito elevado, e dispendioso, de estudos preparatórios do QREN, frequentemente adjudicados por ajuste direto a
escolas universitárias e/ou a empresas de consultoria que funcionam na órbita do Partido Socialista, incluindo a Augusto Mateus e Associados, a Quaternaire Portugal (presidida pelo Dr. António Figueiredo, destacado socialista do Porto) e o IESE - Instituto de Estudos Sociais e Económicos, C.R.L., presidido pelo Dr. António Oliveira das Neves e que teve como cooperantes, entre outros, o Dr. José António Vieira da Silva e o Dr. Paulo Pedroso. Aliás, o IESE tem sido das principais organizações contratadas para estudos previstos no PGA do QREN já objeto de ajuste direto ou concurso, frequentemente em consórcio com a Quaternaire Portugal. A crescente influência do IESE no negócio da avaliação em Portugal é também evidente no desenvolvimento rural, estando esse gabinete, controlado por destacados socialistas, a realizar a avaliação contínua dos programas co-financiados pelo FEADER do Continente (PRODER) e dos Açores (PRORURAL) - a única exceção o Programa de Desenvolvimento Rural da Região Autónoma da Madeira (PRODERAM).
Note-se que, seguindo a prática da esquerda radical em que a corrente férrica foi educada (e de que Vieira da Silva é mestre), no topo das estruturas é normalmente colocado um técnico e/ou personalidade de low profile e, abaixo na forma mas acima no poder, o controleiro. Como base de recrutamento, a fação férrica (na qual pontificam o Dr. José António Vieira da Silva, o Dr. Paulo Pedroso e o Dr. Luís Capucha, ex-Presidente da Agência Nacional para a Qualificação, que geria o programa Novas Oportunidades), utilizou principalmente o ISCTE e ainda a Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.
Em suma, a
necessária reorientação da estratégia de atuação do Observatório do QREN, quer em matéria de acompanhamento e execução de avaliações, quer de preparação do futuro período de programação dos Fundos Estruturais e de Coesão (2014-2020), cuja data limite se aproxima rapidamente, pois o futuro «QREN» e associados programas operacionais têm que estar prontos para aprovação pela Comissão Europeia em 2013 ou o mais tardar no início de 2014,
não é compatível com a sua direção pela fação férrica-socratina socialista, que tem ideologia, política e interesses diferentes dos preconizados por este Governo e do que o País carece.
De facto, dificilmente esta direção do Observatório do QREN poderia acomodar uma reorientação da política avaliativa e da atuação deste organismo que passasse por:
- Reduzir ao mínimo as avaliações transversais e específicas do QREN, concentrando o esforço nas avaliações intercalares (obrigatórias) que, por seu turno, se deveriam focalizar em aferir o desempenho efetivo, a eficiência e o valor acrescentado do QREN e dos respetivos Programas Operacionais, em detrimento da análise da eficácia (já suficientemente coberta pelos relatórios anuais e semestrais de acompanhamento) e criticando, simultaneamente, o modelo de gestão do QREN (em cuja arquitetura Paulo Areosa Feio e Joaquim Bernardo participaram);
- Reorientar o esforço que seria solicitado às equipas internas e externas ao Observatório – caso o PGA fosse implementado na íntegra – para a preparação do futuro QREN, repensando as prioridades temáticas, dado o atual contexto volátil e de crise, ponderando uma maior ligação entre os Programas Operacionais e os sectores, aproveitando os ensinamentos do QCA II, e simplificando o modelo de gestão, através da minimização das comissões e «centros de racionalidade», também por causa das atuais restrições financeiras que o País enfrenta);
- Assegurar uma maior articulação , face ao passado, entre o Fundo de Coesão, o FEDER e o FSE, por um lado, e o FEADER/IFOP, por outro lado, ou seja, entre as políticas de desenvolvimento regional, de emprego e coesão social e as políticas de desenvolvimento rural e das pescas;
- Minimizar o recurso a empresas de consultoria nacionais, que não têm dado provas de isenção política e de qualidade no trabalho que executam (como a Quaternaire Portugal e, sobretudo, o IESE), endogeneizando o trabalho de avaliação no próprio Observatório e/ou em outras agências públicas «politicamente isentas» e segregadas funcionalmente (nos termos do Artigo 47.º do Regulamento (CE) n.º 1083/2006, de 11 de Julho), e recrutando consultores externos de referência a nível europeu, de modo a facilitar a elevação da qualidade das práticas de planeamento regional e de avaliação a nível nacional.
O estado ruinoso do País não tolera o medo nem a demora. Não votámos na continuação da política socialista, nem elegemos um Governo Sócrates III. O Estado precisa de limpeza e de operacionalidade.
É altura de governar e de aplicar mesmo uma nova política.
* Imagem picada daqui.
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