terça-feira, 22 de Abril de 2014

Abril



Todos os anos é o mesmo fadário de natureza antidemocrática: ergue-se um tumulto de apelo ao derrube antidemocrático dos órgãos de soberania - Governo, Presidente, a própria Assembleia da República!... - em nome de pretensos ideais unânimes da revolução do 25 de abril de 1974. É certo que a revolução do 25 de abril de 1974 tinha motivação diversa para diferentes grupos de oficiais do MFA (Movimento das Forças Armadas):
  • os spinolistas, que a provocaram a médio prazo, queriam tomar o poder do Estado para um cesarismo confederativo;
  • os raros comunistas queriam, por esta ordem, descolonizar para os russos e instaurar no Portugal europeu um Estado comunista (as ilhas dos Açores e da Madeira, apesar de geograficamente separadas do continente, e tão desabitadas antes da chegada dos portugueses como Cabo Verde ou São Tomé e Príncipe, não eram para autodeterminar porque podiam cair na mão dos americanos...);
  • a maioria dos oficiais do quadro do MFA, resolvida a reivindicação da precedência sobre os milicianos, pretendia, como a maioria do povo, a liberdade política e a democracia representativa, bem como o desenvolvimento económico livre.

A dinâmica utópica da revolução propulsionou os capitães, e raros majores, do MFA que para funções administrativas para as quais não tinham preparação técnica e muito menos política ou económica. E, na linha da revolução cubana, o delírio revolucionário comunizou muitos oficiais politicamente neutros envolvidos no PREC (Processo Revolucionário em Curso - era útil fazer uma pesquisa dos jornais da época para conhecer o autor da expressão, tal como o da «descolonização exemplar»).

Resultou dessa politização extremista dos oficiais subalternos graduados em generais e em oficiais superiores e do impulso frentista (de direção comunista) dos média tomados pelas franjas extremistas, a ideia falsa de que a revolução do 25 de abril tinha, não o propósito da liberdade e da democracia representativa e do desenvolvimento económico associado através da economia de empresa, mas a repressão de sinal contrário e a «democracia popular» (ditadura do proletariado), com imposição de uma economia de direção central. Essa ideia tem sido repetida até à sua consolidação mediática, que parece impor-se. Um resultado, reconheça-se, que foi paradoxalmente ajudado pelos nostálgicos do regime anterior que descreveram desde logo a revolução como um golpe de Estado comunista, ignorando também a complexidade dos segmentos de mercado da sua génese e da população.

Assim sendo, fala-se em «Abril» para significar uma revolução marxista, de matriz cripto-comunista. Não era esse o «Abril» que mais de 79,43% da população (PS na altura de um Soares carluccista anticomunista) queria, conforme se provou nas eleições para a Assembelia Constituinte em 20-4-1975, que foi a consolidação do espírito popular de 74. É com esse «Abril», antidemocrático - onde cada cidadão não vale um voto e cada opositor não vale nada - porque desde o início, e mesmo após eleições, não respeitador da maioria da vontade do povo, que as antenas cripto-comunistas trotski-radicais e socialisto-marxistas, que enchem os média, vociferam num crescendo ubíquo, que começa logo depois do Carnaval e se prolonga até ao 1.º de maio. Com que objetivo? A reconquista do poder ao estilo de «o-Alentejo-ainda-há-de-ser-nosso», de um Estado perdido pela debilidade comunista nas mesmas ruas que apregoam ser a ágora do escrutínio.

A constestação do Governo, do Presidente, do próprio regime, são democraticamente legítimas. Mas do que se trata nesta frondice não é de uma tentativa constitucional de substituição do Governo e da Assembleia da República por outros de cor vermelha retinta. Trata-se do apelo à insurreição do povo e agora, descaradamente, das forças armadas e policiais, com o argumento, que falta demonstrar nas urnas de voto, de que o povo quer afinal o regresso do autoritarismo socialista ou do delírio comunista. Mesmo perante uma Europa em fervura irredentista, e, também por isso, atingindo a convição geral de que, apesar do requerido trabalho de casa dos governos empenhados em cobrir o passivo de executivos irresponsáveis existirá uma solução europeia para a dívida, para a qual o escarcéu socialista-comunista de um país com 2% da população da União pouco menos do que nada conta. E perante o contexto favorável a uma saída formalmente limpa da situação de protetorado do programa de socorro financeiro da União Europeia e FMI, possibilitada pela descida da taxa de juro das obrigações do Estado português a 10 anos para valores na casa dos 3,74%, em 21-4-2014..

E por que acontece este apelo à revolução frentista (marxista...), de Mário Soares, Vasco Lourenço (calado durante a ruína socialista e só agora, em 12-4-2014, três anos depois do adeus, denunciando a corrupção do regime socratino - «corrupção pura e dura, crua») e Freitas do Amaral?... Porque aquilo que se lhe opõe é uma direita de interesses, que ninguém quer defender - nem os próprios entretidos nos negócios, no corta-fitismo e na desorientação -, e uma lacuna política de meios de comunicação (jornais digitais) francos. Perante o baldio mediático da direita, a esquerda instala o seu esplendor revolucionário mediático.


* Imagem picada daqui.

segunda-feira, 21 de Abril de 2014

Ecce homo!



Ecce Homo! Eis o Homem! Eis cada um de nós. Postos perante a vileza dos outros, na codícia humana - a outra face. Ter mais e ser mais. Mais riqueza e mais poder. Em vez de mais frugalidade e mails humildade.

Em tempos de relativismo - uma fusão da teoria pós-moderna sobre os costumes do ex-comunista Bauman com o liberalismo económico extremo -, o homem perde-se. Quanto mais possui (coisas e gente), mais lhe falta. Menos é.

O homem precisa de retornar a si e aos outros, ao ponto íntimo onde se depara com Deus. Isso implica uma frugalidade e uma humildade, que hoje são politicamente incorretas. Mas que são virtudes de sempre, e ainda mais necessárias agora. Não por causa da escassez que sofremos, e que se vai agravar pelo previsível regresso das guerras irrredentistas à Europa (e à Ásia). Mas por opção de vida.

O despojamento de bens materiais pelos mais jovens, avessos ao modelo de bibelots e napperons, dos maduros, e ao paradigma de casas e carros, dos boomers, e a sua preferência por experiências, eventos e serviços, não se explica somente pela falta de dinheiro. Resulta também do alheamento do modo de vida das gerações anteriores, virado para a acumulação de bens. Mesmo que, nessa acumulação de bens, existisse - com exceção dos carros - um objetivo último de transmissão de património para os filhos e não só a fruição do que se juntou.

Todavia, ainda estamos aquém do ponto desejado no ciclo de retorno que percorremos. Buscamos - novos e velhos - na euforia a felicidade que o êxtase do instante não nos pode dar. Contudo, o mal de vivre não se resolve com a euforia, nem sequer com a recordação dessa memória. A inquietação há-de resolver-se dentro de nós e no serviço dos outros, quando nos encontramos finalmente com Cristo.


Nota: este poste devia ter sido escrito ontem. Peço desculpa aos leitores. Mas talvez ainda vá em tempo.

quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Guardião



Recebi esta tarde, de minha irmã, uma esplêndida notícia.

O Papa Francisco nomeou hoje, 17-4-2014, como novo bispo auxiliar de Lisboa, o cónego José Augusto Traquina. A Santa Sé já não é o que era: o padre Zé Augusto vai a bispo sem passar por uma universidade romana...

Nascido lá no extremo oeste da minha freguesia de Évora de Alcobaça, quase na ponta norte da diocese de Lisboa, escuteiro que formou gerações de adolescentes e jovens (como este seu amigo discípulo), vocação amadurecida mais do que chamada tardia, o novo bispo José Augusto Traquina, é carismático e popular, homem excecionalmente bom, muito alegre, delicadíssimo no trato, extremamente simples, caloroso, de um discernimento proverbial e de uma capacidade de persuasão notável, de palavra ponderada e de decisão segura. Nascido pobre, manteve-se frugal. Modesto, e sem nunca lhe notar sequer um pingo de vaidade, sempre o previ bispo, e creio que também a maioria dos que o conheceram.

Fiel, firme na doutrina e moderno no estilo e na preocupação prioritária com os mais humildes (assim ao modo do estilo do Papa Francisco) não apenas na assistência social, mas também pastoral (sobre a qual fez uma tese de grande valia), enquanto ouvinte paciente e atento e mediador na resolução de problemas pessoais e institucionais, ao mesmo tempo que disponível para o diálogo com os não crentes e para se mover em território hostil. 

Homem do terreno, mas com traquejo de trato institucional, começa o seu serviço na Igreja após a ordenação com a gestão das vocações nos seminários da diocese, e, depois, finalmente, satisfeito o seu pedido de atribuição de uma paróquia, primeiro no Bombarral e depois em Benfica (Lisboa), ao mesmo tempo que desempenhava outras tarefas vocacionais e administrativas, localmente na direção de centros paroquiais e para a diocese.

Polivalente, músico (viola...) que toca, canta e compõe, interessado pelos média (na escrita e edição de imprensa e autor de programa de rádio em meados da década de 80). Criador de eventos e persistente na sua realização, animador de reuniões, com enorme habilidade na condução de assembleias e dirigente responsável.

Sério - traquina só de nome, o qual que também tem Maria com especial dedicação -, mas com sentido de humor, simpático e gerador de simpatia, e de conversa agradável. Com jeito especial para os mais novos e os mais velhos, trata cada pessoa como única e central.

Excelente evangelizador, foi profeta mesmo nas suas terras de Alcobaça, antes e depois da ordenação sacerdotal, o que demonstra bem a valia da sua bondade e do seu poder de conversão. Generoso, concentrado exclusivamente - e sem descanso... - no serviço dos outros, desligado de honrarias, estou certo que será como bispo auxiliar do Patriarca de Lisboa, senhor D. Manuel Clemente, o que é como padre e homem. 

Diria que o novo bispo José Augusto é tudo quando um bispo de sempre deve ser e tudo o um pastor de hoje beneficia. Quiçá, a concretização do Monumento a São Bernardo, em Alcobaça, no passado sábado, e o poste de ontem que me roubou o título de hoje, fosse já um sinal do que aí vinha: esperam-nos novos tempos e melhores ventos.

A nova missão representará para si um esforço, mas servidor de Deus e da Igreja, há-de desempenhá-lo com a lucidez e o empenhamento que Cristo lhe concedeu. Deus o abençoe!


Pós-Texto (17:18 de 19-4-2014): Também foi designado, nesta ocasião, bispo auxiliar de Braga, o cónego Francisco Senra Coelho, muito bem preparado para a função que agora o papa Francisco lhe confia e Deus requer. Deus o abençoe e auxilie!

quarta-feira, 16 de Abril de 2014

Pastor

A.B.C.. Cajado. 10 de Abril de 2014. Monumento a São Bernardo, Alcobaça.


Passou, sem grande referência nos média, o discurso do Papa Francisco na audiência aos membros do BICE - Gabinete Internacional Católico da Infância, em 11-4-2014.

O que passou aqui, como no se vê no DN é apenas a parte do pedido de perdão pelos abusos praticados por sacerdotes sobre crianças e adolescentes. Um reconhecimento, que se deve louvar, de atos que são crimes, além de pecados. Nas palavras do Papa:
«Sinto-me chamado a assumir a responsabilidade de todo o mal que alguns sacerdotes - muitos, muitos em número, mas não em proporção à totalidade -, a assumir a responsabilidade e a pedir perdão pelo mal que praticaram, pelos abusos sexuais de crianças. A Igreja está consciente deste dano. É um dano pessoal e moral deles, mas de homens de Igreja. E não vamos dar um passo atrás no que se refere ao tratamento destes problemas e das sanções que devem ser impostas. Pelo contrário, creio que devemos ser muito fortes. Com as crianças não se brinca.» (Tradução e sublinhado meus).
Porém, a notoriedade do Papa Francisco nos média dominantes termina no limiar da crítica do arcaísmo do estilo: tudo quando seja a reafirmação da doutrina não interessa.

Mas é fundamental realçar o que o Papa também disse além da referência que fez à violência sobre os menores, o trabalho escravo e o recrutamento de meninos para soldados. Afirmou o Papa:
«Há que reiterar o direito das crianças a crescerem numa família, com uma mãe e um pai capazes de criar um ambiente idóneo ao seu desenvolvimento e à sua maturação afetiva. Continuando a amadurecer na relação, no confronto, com aquilo que é masculinidade e a femininilidade de um pai e de uma mãe, e assim preparando a maturidade afetiva. (...)
A este propósito quero manifestar a minha recusa de todo o tipo de experimentação educativa com as crianças. Com as crianças e os jovens não se podem fazer experiências: não são cobaias de laboratório!
Os horrores da manipulação educativa que vivemos nas grandes ditaduras genocidas do século XX não desapareceram: conservam a sua atualidade sob roupagens diversas e propostas que, com alegação de modernidade, forçam crianças e jovens a caminhar pela estrada ditatorial do “pensamento único”. Dizia-me, há pouco mais de uma semana, um grande educador: "às vezes, não se sabe se, com estes projetos» - referindo-se a projetos concretos de educação - «se se manda um menino para a escola ou para um campo de reeducação". (...)
Para vós, trata-se de oferecer aos vossos dirigentes e colaboradores uma formação permanente sobre a antropologia da criança, porque é aí que os direitos e as obrigações têm o seu fundamento. (...)
Vem-me à ideia o logótipo que a Comissão da Proteção da Infância e da Adolescência tinha em Buenos Aires (…): o logótipo da Sagrada Família sobre um burrinho que foge para o Egito para defender o Menino. Às vezes, para defender, é necessário fugir; às vezes é necessário parar para proteger; às vezes é necessário combater. Mas é sempre preciso ter ternura.» (Tradução e realces meus)

Portanto, para que não restem dúvidas, o Papa reitera:
  1. O combate ao abuso sexual de crianças por membros da Igreja;
  2. O direito de cada criança a ser educado por um pai e uma mãe (recusando assim a adoção, e co-adoção, de crianças por casais homossexuais).
  3. A recusa da manipulação educativa de crianças e jovens e a transformação da escola em campos de reeducação politicamente correta.
  4. A rejeição da «estrada ditatorial do 'pensamento único' relativista.
  5. A fundação dos direitos da criança na «antropologia da criança» (isto é, na própria criança e não nos direitos dos adultos sobre as crianças).

A maior abertura da Igreja ao mundo pelo Papa Francisco - e o que se tem dito dessa atitude - tem sido confundida com resignação perante o relativismo. Aí está a contraprova. Acho que em vez do ceticismo, devemos preferir a confiança. Vale a pena usar a chave hermenêutica sobre a sua ação tática que o Papa deixou no final desta intervenção: às vezes, é necessário fugir; às vezes é necessário parar; e às vezes é necessário combater. Defender, proteger, combater.

segunda-feira, 14 de Abril de 2014

Cister, de novo

Um projeto de três ano e meio, finalmente edificado, neste sábado, 12-4-2014, na cidade de Alcobaça, oitocentos e sessenta e um anos depois da doação de D. Afonso Henriques e sua mulher D. Mafalda, a São Bernardo e à Ordem de Cister, do Couto de Alcobaça. Uma peça esplêndida do excecional escultor alcobacense Luís Santos. Um monumento doado à cidade pela Academia de Cultura, que fundei e liderei com a ajuda de muitos, e realizada com a ajuda fraterna de vários patrocinadores e diversas boas vontades, sem qualquer apoio público para além da preparação da rotunda para receber o monumento. Um marco a recordar o passado com olhos postos na projeção do futuro: o regresso da Ordem de Cister a um pequeno cantinho do Mosteiro de Alcobaça. Replico abaixo, e com indulgência dos leitores, o texto preparado no qual baseei o meu agradecimento na inauguração do monumento, presidida pelo senhor Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente.



A.B.C., Monumento a São Bernardo, Alcobaça, abril de 2014


«Lembrai-Vos, ó piíssima Virgem Maria…». Nossa Senhora lembrou-se e Deus atendeu a nossa prece, mesmo nos momentos mais difíceis em que este projeto esteve bloqueado. Mas foi possível erguer esta magnífica obra de arte realizada à mão, durante quase um ano inteiro de esforço delicado, com máquinas mas também com escopro e cinzel, unicamente pelo excecional escultor alcobacense que é Luís Santos.

O trabalho realizado na formação e no desenvolvimento cultural local, pela Academia de Cultura, pelos membros da direção e seus órgãos sociais, a adesão dos seus sócios e os serviços dos seus colaboradores, no início da década de 2000, com 17 cursos de formação e a participação de centenas de alunos adultos e jovens e de distintos professores e conferencistas, é agora culminado com uma obra que fica.

Uma ideia minha já antiga de homenagear São Bernardo através de um Monumento, que propus aos membros da Academia de Cultura e que foi adotada e concretizada. Não como fim de um trabalho, mas como motivo – tal como na elevação de Alcobaça a Cidade, em 1995.

De 6.500 euros com que a Academia de Cultura partiu – uma espécie de cinco pães e dois peixes –, dentro da discricionariedade absoluta que esta tinha de dispor do seu dinheiro, e cuja proposta foi apresentada à Câmara Municipal em 28 de outubro de 2010, foi possível pedir e receber ajuda fraterna, congregar vontades e suceder, realizando um monumento que, de outro modo, custaria umas dezenas de vezes mais. Mas pedimos e deram-nos:
  • a pedra (para as duas peças do monumento), a energia, equipamentos e materiais, os serviços de corte e de movimentação, e o transporte, assegurados pela Mármores Vigário, com relevo para o senhor Rogério Vigário que, comigo, se tornou, na prática, co-administrador da edificação deste monumento;;
  • os projetores de iluminação e o serviço de grua pelo Crédito Agrícola de Alcobaça;
  • o báculo, pelo senhor Eng. Carlos Pinto de Abreu;
  • as inscrições pela Solancis, com custo complementado pelo Jornal O Alcoa;
  • as pontas das ferramentas pela GPA, do senhor Carlos Garrido;
  • a fotografia e a simulação gráfica pela FIP, do Dr. Vítor Ferreira;
  • o desconto da AuraLight (pelo Eng. Alberto Van Zeller) e da Idelgrua;
  • a consultoria histórica e iconográfica do Prof. Gérard Leroux;
  • o tecido da coberta pelo senhor Carlos Henriques; e a costura por outrem;
  • e o som pelo eng. Emanuel Manzarra;
  • e mais a colaboração pela Câmara Municipal, na pessoa do seu presidente Dr. Paulo Inácio, e do vice-presidente Hermínio Rodrigues, do eng. José António Francisco e dos funcionários, no arranjo da rotunda, onde este monumento, oferecido pela Academia, fica instalado. 
  • além da ajuda de outros amigos, que guardo in pectore
  • E da cooperação de outros fornecedores.

Acima de todos, no entanto, devo destacar o apoio firme, empenhado e indefetível, do Padre Carlos Jorge Vicente. E agora do senhor Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente que, por intermediação do nosso Prior, se dignou vir abençoar este monumento comunitário e que aqui produziu uma magnífica lição de história, destacando o papel fundamental de São Bernardo na consolidação e no desenvolvimento do País.

A Academia tem a honra de doar ao povo este monumento a São Bernardo, que é erguido aqui nesta rotunda da escola D. Inês de Castro, fisicamente longe, mas espiritualmente unido ao Mosteiro que São Bernardo traz na mão esquerda - e báculo de autoridade eclesiástica do Couto na outra. Fica agora a Câmara Municipal com a propriedade e a responsabilidade de proteção, manutenção e reparação, do monumento que doamos.

É hora de agradecer e, além dos patrocinadores e apoios, também: aos membros dos órgãos sociais da Academia de Cultura e aos seus sócios.

Para a Ordem de Cister, a Bernardo, seu primo por via materna, e abade de Clairvaux (Claraval), deu, em 8 de abril de 1153, D. Afonso Henriques, e sua mulher, D. Mafalda, o grande couto de Alcobaça (cerca de quatro centenas de quilómetros quadrados) à Ordem de Cister, em gratidão pela conquista milagrosa de Santarém e pela sua ajuda no reconhecimento da coroa portuguesa. À distância, é ele o fundador da Alcobaça moderna. Cerca de quatro meses depois, Bernardo falece. No olhar do seu rosto, que o escultor Luís Santos notavelmente representa, já se vê a nostalgia e o abandono da terra e o próximo trânsito para o Céu, de onde nos vê, com perdão dos pecados cometidos, com relevo máximo para a perseguição dos monges e a nacionalização do mosteiro, onde ainda não os deixaram voltar.

São Bernardo não nos deu apenas esta terra, pois foi determinante na obtenção da nossa Pátria, no reconhecimento político e no desenvolvimento do país. Alcobaça tornou-se um núcleo geo-histórico de Portugal, convertendo e dando sustento espiritual, difundindo cultura, introduzindo novas tecnologias e lançando a organização económica, fixando populações e criando bem-estar às gentes que aqui se abrigaram.

Esta é a hora de reconciliação dos alcobacenses e destes com a história de Alcobaça. Uma história mal contada e enviesada, escrita na época da perseguição religiosa, do confisco de mosteiros e de propriedades e da expulsão das ordens religiosas do séc. XIX e cuja mentira se prolongou no séc. XX - de monges algozes e de povo explorado -, omitindo fidalgos e burgueses, que também os havia… Negligenciando a ação civilizadora, de proteção e bem-estar do povo, de desenvolvimento económico e cultural. Uma história ingrata que agora harmonizamos. Da divisão artificial à paz ativa.

Alcobaça, consciência da portugalidade – e nomeadamente através da escrita dos seus grandes historiadores. Centro de oração e contemplação, mas também de irradiação do Espírito, da cultura e alma mater de ensino superior, e da tecnologia agrícola e pré-industrial. Uma Alcobaça que perdeu a matriz espiritual e cultural, mas que a pode começar a recuperar com a atribuição de um cantinho à Ordem de Cister no mosteiro enorme que ela mesma construíu e tudo poderá acolher. Sem exclusão, nem duplicidade.

Nesse sentido projetado, este Monumento a São Bernardo, é um sinal de esperança. Possa o espírito de concórdia e de persistência que orientou a edificação desta dádiva ser seguido.

Muito obrigado a todos.

António Balbino Caldeira

sexta-feira, 11 de Abril de 2014

José Rodrigues dos Santos perseguido na RTP socratina?...

Duas perguntas a carecer de resposta breve:
  1. Será verdade que, mesmo após ser insultado por José Sócrates, em 6-4-2014, José Rodrigues dos Santos está a ser perseguido na RTP?!...
  2. Será verdade que a Comissão de Trabalhadores da RTP, dominada pelo Partido Comunista, se aliou ao socratismo e também está contra Rodrigues dos Santos?...

terça-feira, 8 de Abril de 2014

Guerra de expansão da Rússia: Fase II - a Ucrânia Oriental


«- Príncipe Vorotinsky: Como vai terminar este problema?
- Príncipe Shuisky: Como vai terminar? Isso é não é difícil de saber.»
 Pushkin, Alexander S. (1831). Boris Godunov. Cena «Palácio do Kremlin»
(tradução minha da tradução inglesa). 

Tentando copiar Pedro, o Grande - mas sem modernidade nem economia de suporte -, Vladimir Putin, Czar de todas as Rússias, Soberano da Tchetchénia, Príncipe da Abecásia, Senhor da Ossétia do Sul e Rei da Crimeia, desencadeou a segunda fase da guerra de expansão da Rússia, provocando tumultos para invadir a Ucrânia Oriental e acrescentá-la aos seus domínios.

segunda-feira, 7 de Abril de 2014

Deplorável, para não dizer até "desprezível"...

O programa de José Sócrates na RTP-1, de ontem, 6-4-2014.

Na expetativa de ser o candidato presidencial socialista à eleição de 2016, Sócrates ataca o o pré-candidato Durão Barroso, a propósito da entrevista deste à SIC e ao Expresso, em 28-3-2014, no qual revelou a penúria do Estado português, e a sua míngua de dinheiro para pagar salários e pensões (além dos juros...), que havia determinado o pedido de socorro financeiro. Sócrates insiste na narrativa (que Teixeira dos Santos acompanha) de o alegado «chumbo» (!?...) do chamado PEC IV (Programa de Estabilidade e Crescimento) no Parlamento. E, no segundo round face a José Rodrigues dos Santos (que acusou o «insulto» da má criação do ex-primeiro-ministro) atacou Durão, ao qual acusou de «momentos deploráveis, para não dizer até "desprezíveis"» (sic!...) e  de «desvario narcísico».

Na verdade, Sócrates não tinha de levar o PEC IV ao Parlamento. Se nem o Presidente da República informava previamente sobre o assunto como era da sua obrigação constitucional estrita, por que motivo haveria de obter uma aprovação do Parlamento para tomar uma decisão política da sua competência constitucional?!... Sócrates leva o chamado PEC IV ao Parlamento num inusitado projeto de «resolução» (!...), em 23-3-2011, para conseguir o alibi da culpa do PSD na rejeição dessa resolução que determinaria o pedido de resgate. Uma espécie de moção de confiança encapotada. A resolução é um ato do Parlamento sem qualquer efeito vinculativo. Portanto, o Parlamento não podia chumbar o que não tinha poder constitucional para recusar, apenas recomendar. E, mesmo da desnecessária resolução sobre o PEC IV, Sócrates faria o que quisesse: nada, como costumava fazer com tantas outras resoluções. Porém, assustado com as consequências da sua política despesista, encurralado pelos mercados e pela União Europeia, decidiu demitir-se com o argumento insólito de que a oposição não concordava com a sua política!...

Como já não havia dinheiro em cofre sequerpara pagar salários e prestações sociais (e os juros - esta parte também de a dizer no desmentido...), e os bancos estavam à beira do estrangulamento da sua magra liquidez, o pedido de ajuda externa do Governo socialista era inevitável. Por isso, Sócrates inventou essa consulta desnecessária ao Parlamento, para, através da patética «resolução» (sic) transferir a culpa da sua política ruinosa para os outros.

O povo percebe, mas Sócrates atormentado com os efeitos da mentira, não consegue. Como dizia Fernando Pessoa dos poetas, chega a fingir que é verdade, a mentira que deveras sente...


Atualização (13:26 de 8-4-2014): Este poste foi emendado na antiparáfrase de Pessoa, por deteção de erro por Rosa Lourenço. 

quinta-feira, 3 de Abril de 2014

Don't tread on me

«So be it, threaten no more.
To secure peace is to prepare for war.»
Mettalica (1991). Don't tread on me. Metallica.

Robert Gates afirmou que a Crimeia está perdida pelo Ocidente para a Rússia. Madeleine Albright (com Jim O´Brien) desculpam-se do caso do Kosovo (e da Bósnia) - e, todavia, apesar desse precedente a ira islâmica contra os EUA não abrandou. Obama foi surpreendido pelo parceiro russo, conta Stephen Hayes. George Will recorda o passivo russo na brutalidade contra a Ucrânia e noutro escrito lembra as táticas do III Reich alemão, em 1939, enquanto cita Stravinsky e a sua explicação do acidente geográfico da Polónia. Charles Krauthammer propõe um conjunto de ações firmes contra a Rússia, diferente daquelas da má consciência de Albright, criticano noutra crónica a «resposta patética» do presidente norte-americano. E Condoleezza Rice critica o vácuo de poder que Obama criou. Uma América onde, no entanto, Deus não morreu.

Por cá, o som dos clarins e dos tambores parece remoto pela distância geográfica e pelo distanciamento histórica. A guerra não dá jeito. E, como tal, a poeira acre da pólvora varre-se para debaixo do tapete fofo do bem estar. E, todavia, armam-se de novo os cães de guerra do irredentismo e da raiva da perda de território na II Guerra Mundial, e da I, com as consequentes limpezas étnicas inclusivamente aquela depois da guerra, com a deportação de populações. Não apenas a Rússia, mas também a Alemanha, a Hungria, a Polónia... Enquanto Putin se queixa da perda de território após a queda do Império soviético em 1989 e promete o irredentismo, deveria olhar para o seu insólito quintal (15 mil km2...) de Kaliningrado (Königsberg), em vez de preparar a invasão da Ucrânia leste e meridional.

Aos céticos da guerra, até que esta lhes cruze as soleiras das portas, juntam-se aqueles que dizem que isso, a acontecer, será lá longe e que não nos afeta. Também à crise de 1929 sobreveio uma guerra, que na Europa ocidental se quis evitar ignorando os sinais.

Na verdade, o choque político da Rússia já está a afetar a Europa e Portugal. A geopolítica intrometeu-se na discussão financeira e na recuperação ideológica do marxismo, que Mário Soares também intenta. Como é óvio o Manifesto dos 74 ficou obsoleto com este novo quadro internacional. A prioridade da defesa, e da recriação do cordão sanitário em volta da Rússia, obrigará ao dispêndio de grandes somas de dinheiro de ajuda para os países da linha da frente russa, obrigando a Alemanha a mudar de política e ao «quantitative easing» de economia de pré-guerra.

Portugal beneficiará indiretamente, através de uma espécie de cláusula da nação mais favorecida, das condições de crédito concedidas à Ucrânia e outros países de risco, como a Geórgia e a Moldávia. A prioridade tornou-se a defesa. A dívida terá, então, no médio-prazo, uma solução artificial, porque já passou o limiar da solução natural. Assim sendo, para quê forçar uma solução unilateral de incumprimento quando será a própria União Europeia a resolver, pela necessidade de coeão de bloco, essa questão, intensificando as compras de títulos de dívida no mercado secundário que ficam depois a esfarelar nos cofres do Banco Central Europeu? Não se perdoa: negligencia-se. É o que nos vale para resolver o delírio socratino e socialista da despesa festiva e de «la vitre cassée» do Parque Escolar e das cadeiras de hospital - Bastiat (1850). Ce qu'on voit e ce qu'on ne voit pas, cap. I. Todavia, o equilíbrio das contas e a recuperação do valor do trabalho, devem continuar, em qualquer caso, a ser princípios de boa gestão do Estado. E de preparação para os tumultos que aí vêm.

Mas a questão nacional nem é essa, mas a batalha dos costumes, com o outing entre fileiras do movimento gay

Aqui ao lado, é hoje publicado o livro de Pilar Urbano, «La gran desmemoria» que descobre que o rei D. Juan Carlos foi a alma da tentativa de golpe de Estado, do 23-F de 1981, de que só descolou à última hora, como conta numa entrevista em El Mundo, em 30-3-2014. Suárez tudo calou, mesmo antes de ter esquecido. Nas recentes exéquias de Adolfo Suárez o cardeal de Madrid Rouco Varela atreveu-se a falar da Espanha una, em vez de várias, e da necessidade de cura das feridas pendentes da guerra civil, para a qual alertou...

Em França, em 31-3-2014, o presidente Hollande substitui o primeiro-ministro germanófilo Ayrault pelo catalão rocardiano Manuel Valls, uma versão masculina e juvenil de Edith Cresson, na expetativa de que o desaire eleitoral socialista das autárquicas se atenue nas europeias.

Na Venezuela exangue e com insuficiência nos abastecimentos alimentares, prossegue a insurreição popular e endurece a violenta ditadura chavista, com encarceramento de opositores e destituição de deputados.

Em Roma, destapa-se a cortina da conjuntura perniciosa para a Igreja que terá contribuído para a resignação do papa Bento XVI, com a ilibação do ex-presidente do IOR, Ettore Gotti Tedeschi. E o Papa Francisco abre as portas da Santa Sé, enquanto ganha balanço para limpar a casa. Em Lisboa, faleceu, em 12-3-2014, o cardeal D. José Policarpo e o socialista Almeida Santos lamentou a sua morte: «tive o privilégio de ter a sua amizade, ser seu amigo». Paz à sua alma.

Vivemos tempos complicados e difíceis. É hora de preparar o futuro. E mesmo que a velhinha não queria atravessar a rua, é nossa obrigação preveni-la e aos adultos e jovens, do perigo que aí vem e da ação que importa tomar.

segunda-feira, 24 de Março de 2014

O «animal feroz» cercado

Finalmente, o programa domingueiro de José Sócrates na RTP-1, agora quinzenal, deixou o ponto e ganha um entrevistador. Parabéns ao jornalista José Rodrigues dos Santos que confrontou ontem, 24-3-2014, o ex-primeiro-ministro com o seu passado e as suas palavras. Cercado pela própria demagogia, balbuciante, de sorriso amarelo e com o rosto atrofiado pelos incontidos esgares de raiva, o auto-intitulado «animal feroz» (Expresso, n.º 1656, 24-7-2004) confessou: «não vinha preparado para isto»...

O vídeo tem sido por aí ubiquamente bloqueado por zelosos funcionários da RTP num esforço inédito, mas fica aqui o linque da entrevista (na segunda parte do Telejornal de ontem, a partir das 20:45): http://www.rtp.pt/play/p1395/e148170/telejornal/344286.

sexta-feira, 14 de Março de 2014

Coadoção e agenda totalitária 

(Atualizado)


Não tenho a mínima expetativa positiva sobre a votação final, em plenário, do projeto de lei da coadoção por casais homossexuais no Parlamento, nesta sexta-feira, 14-3-2014.

Acho que a direção do PSD fez, nos Passos há muito perdidos, uma peça de teatro em três atos, de zizezague político, conforme ao seu interesse:
  1. Euforia inicial cúmplice com a reengenharia social da coadoção (e adoção) de crianças por casais homossexuais, que culminou na aprovação inicial, em 17-3-2014, com liberdade de voto (e liberdade de falta numa votação muito importante, sendo aqui denunciadas as faltas táticas de 17 deputados do PSD, em 97 que a bancada possui) com descida à comissão para debate na especialidade.
  2. Invocação tática de um referendo propositadamente equívoco sobre a co-adoção e adoção de crianças por casais homossexuais, a propósito da escolha do candidato do PSD à eleição presidencial e com as eleições europeias por fundo, para polarizar apoio do setor conservador da sociedade;
  3. Regresso à liberdade de voto inicial, mais discreta e, aparentemente, desta vez, sem faltas táticas e viagens patagónicas coincidentes.

Correrá, portanto, a peça conforme o texto do dramaturgo/encenador. A direção do PSD mostrará ao País (com evidência para a deputada Francisca Almeida, de Guimarães, e para a deputada Carina João Oliveira, líder da secção do PSD de... Fátima!...) que é muito moderna, muito progressista, muito prafrentex, muito liberal de esquerda nos costumes. Mas cada deputado deve assumir, perante os eleitores que o elegeram com determinada plataforma, como votou nesta questão.

Provavelmente, as crianças órfãs ficarão sem direito constitucional a um pai e uma mãe, sujeitas a uma escolha que os adultos liberais, juízes e procuradores e assistentes sociais e orfanatos liberais, hão-de fazer por elas, sujeitando-as à descontrução dos papéis biológicos, à vergonha na rua e na escola e ao extremo doloroso da intimidade na higiene, no vestir e despir, no caso de meninas adotadas por casais homossexuais masculinos e, ainda que, em menor grau (admitidos os estudos) vice-versa. Como escrevi em 5/3/2014, deve atender-se à
«evidência científica no megaestudo de Mark Regnerus, de 2012 (e a sua resposta às críticas enviesadas do poderoso lóbi), sobre os resultados da educação de crianças por pais homossexuais. Ou o artigo de Douglas Allen, de dezembro de 2013, no qual este conclui, relativamente à sua amostra, que: no caso dos pais gays, os filhos têm 69% da probabilidade dos filhos de pais heterossexuais terminarem o liceu; as filhas de pais gays tem apenas 15% (15%!?...) de probabilidade de terminar o liceu, em comparação com 45% no caso de raparigas filhas de lésbicas; no caso dos rapazes filhos de casais de lésbicas a percentagem sobe para 76%, mas desce para 61% no caso de pais gays
Na véspera da votação à noite (argumento de bolso, de última hora, para convencer deputados ingénuos), o jornal Público, de Bárbara Reis e Cláudia Azevedo, de 14-3-2014, atesta:
«Crianças de casais homossexuais desenvolvem-se como as outras
Ana Cristina Pereira
13/03/2014 - 21:04
Revisão de literatura científica revela que casais de lésbicas, em certos aspectos, até exercem melhor a parentalidade»
É a jornalista, a diretora, o jornal, que atestam. E para justificar a testada, a jornalista vale-se de mais um estudo (que não identifica claramente, apesar de referir o estudo publicado na Ex-Aequo) de Jorge Gato e Anne Marie Fontaine, do «Centro de Psicologia Diferencial» da Universidade do Porto (ou será Grupo de Investigação em Psicologia Diferencial do «Centro de Psicologia da Universidade do Porto»?). Qual dos estudos destes dois investigadores será?
Gato, Jorge; e Fontaine, Anne M. (2011). Impacto da orientação sexual e do género na parentalidade: Uma revisão dos estudos empíricos com famílias homoparentais. Vila Franca de Xira. Ex aequo, (23), 83-96.
A Ex Aequo é uma revista de «estudos feministas».

Ou será algum destes dois que constam no sítio da ILGA-Portugal?
Gato, Jorge C.; Fontaine, A. M.; Carneiro, Nuno S. (2010). Percepção de futuros profissionais de áreas psicossociais sobre o desenvolvimento psicológico de crianças educadas em famílias homoparentais. Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia.
Gato, Jorge, e Fontaine, Anne M. (2011). Desconstruindo preconceitos sobre a homoparentalidade. LES Online, 2(2). 
LES Online é uma «Publicação Digital sobre Questões Lésbicas». Esta publicação disponibiliza no seu sítio a apresentação "Que se F... o medo!», LES Online, Vol. 5, No 1 (2013) - no lançamento do livro “Trans iberic love”, de Raquel Freire (2013), Divina Comédia - feita por São José Almeida, que creio ser a jornalista do Público. Aí se refere o axioma de Judith Butler de que «o sexo é uma construção social» e o «Feminismo da Terceira Vaga».

Ou ainda este?
Gato, Jorge; e Fontaine, Anne M. (2013). Anticipation of the sexual and gender development of children adopted by same-sex couples. International Journal of Psychology, 48(3), 244-253.
Ou aquele?
Gato, Jorge; Freitas, Daniela; e Fontaine, Anne M. (2013). Attitudes Toward Same-Sex Parenting: Exploratory, Confirmatory, and Invariance Analyses of Two Psychometric Scales. Journal of GLBT Family Studies, 9(3), 205-229. (linque livre apenas para o resumo)
GLBT é o acrónimo de Gay, Lésbicas, Bissexuaisl e Transsexuais. Ultimamente também é acrescentada mais uma letra - GLBTT -, de Transgénero («pessoas que estão constantemente em trânsito entre um gênero e outro»). E ainda o neoconceito de Interssexuais («preferível ao termo hermafrodita, já bastante estigmatizado, precisamente porque hermafrodita se referia apenas a questão dos genitais visíveis»).

Para que se compreenda a tendência para o enviesamento ideológico nos estudos científicos dos efeitos nas crianças da parentalidade por casais homossexuais, que apoiam os direitos dos casais homossexuais à co-adoção e adoção de crianças, veja-se esta explicação de Gato e Fontaine (Desconstruindo..., 2011):
«De acordo com alguns autores (e.g., Clarke, 2000), ao considerar o exercício da parentalidade por pessoas homossexuais como eventualmente prejudicial, a investigação está ela própria a ser vítima de um enviesamento heterossexista.»
E embora estes dois autores considerem que, nesse seu trabalho, «a comparação com famílias heteroparentais foi essencial para avaliar os fundamentos das atitudes sociais preconceituosas relativamente à homoparentalidade», não deixam de dizer que
«No entanto, não podemos deixar de considerar também que a utilização desta abordagem é limitativa. A utilização de um grupo de controlo heterossexual pode mesmo constituir-se como um obstáculo à compreensão mais aprofundada das dinâmicas próprias às famílias homoparentais (Patterson, 1992).»

É neste contexto que se avaliam os efeitos: estudar a criação de crianças por casais homossexuais em comparação com casais heterossexuais é considerado, desde logo, como inconveniente!...

Devo indicar o meu disclaimer científico (e não dou opinião sequer sobre a qualidade científica destes trabalhos, que não ponho em causa): não acredito no argumento da fonte (autor ou publicação) para invalidar estudos científicos. Acredito em questionários equilibrados, em números, em algoritmos, em amostras representativas e na admissão cândida (que é condição de honestidade) de amostras de conveniência (que não deixo de valorizar, na medida do seu tamanho e dos segmentos inquiridos). A proveniência é o que é: não é mais, nem menos. Não invalida, por si só, conteúdos. O enviesamento (bias) não torce números, nem algoritmos, nem transforma amostras de conveniência em amostras probabilísticas. O problema da grande maioria dos estudos nem sequer é a escolha enviesada dos resultados favoráveis à posição do autor e a negligência, ou menosprezo, dos resultados que a contrariam. Vulgarmente, o problema começa logo com questionários desequilibrados. Lembro-me sempre de um colega professor, que foi meu professor destes assuntos, e que creio ser, sem desprimor dos demais, dos técnicos mais rigorosos na construção de questionários em Portugal. Ele indicava, como exemplo de enviesamento, que a pergunta dos referendos sobre o aborto, em 1998 e em 2007, conduzia a uma resposta afirmativa: «Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?». Pois, descontada já a expressão «por opção da mulher» (cuja formulação vai no mesmo sentido), a pergunta justa deveria ser: «Concorda, ou não concorda, com...». O que se tem passado nos temas fundamentais da ideologia do politicamente correto, com a sua ramificação da ideologia do género, é uma enorme pressão, de natureza totalitária, na academia, nos média, nas elites políticas, para a subjugação da ciência aos ditames ideológicos.

A ideologia do politicamente correto é um totalitarismo mais, nos sobressaltos de delírio que história da humanidade tem sofrido. Cairá, como caiem todos os impérios que obrigam todos a pensar da mesma maneira e não permitem ao indivíduo que se expresse de forma livre. Até lá, temos de a sofrer - mas combatendo-a.

Não é por esta ou por aquela derrota que rendemos a esperança.


Pós-Texto 1 (12:16 de 14-3-2014): Comentário da deputada Carina João Oliveira
A deputada Carina João Oliveira deixou. às 11:25 de 14-3-2014, um comentário na caixa de comentários deste blogue, que trago para o corpo do poste:
«Queira por favor ter o cuidado de ler a minha declaração de voto sobre o assunto em causa, quer na primeira votação: contra, igualmente espelhada na delcaração de voto aquando da questão do referendo. Que também sou contra.
Ser contra a co-adopção e ser contra o referendo à mesma matéria, parece ter sido causa de alguma má interpretação da vossa parte.
Agradeço a correcção dessa má interpretação, que está publicamente e devidamente declarada na pagina parlamentar da minha actividade enquanto deputada.
Assim queiram ser esclarecidos.
Melhores cumprimentos,
Carina João Oliveira»
Com efeito, a deputada Carina João Oliveira esteve presente, em 17-5-2013, na primeira votação do Projeto de Lei n.º 278/XII (do PS) sobre a coadoção de crianças por casais homossexuais, e verifico que votou contra. No que concerne ao referendo, linquei a notícia do DN, de 17-1-2014, que dava conta de que deputada Carina Oliveira (tal como Francisca Almeida) estava contra a proposta de consulta popular, uma notícia que não indicava o motivo. Diz a senhora deputada que votou contra o referendo sobre a codoção, e adoção, de crianças por casais homossexuais, e que apresentou declaração de voto. Procurei essa declaração sua sobre o referendo como me recomendou, mas não a encontrei nas intervenções do seu registo de atividade e também não consta o conteúdo da sua declaração de voto contra sobre a proposta do PS sobre a coadoção de crianças por casais homossexuais. Indicarei as razões que terá aduzido nessa declaração de voto sobre o referendo, quando ela me chegar.
Eu, e os portugueses, queremos ser esclarecidos: a senhora deputada quer esclarecer?


Pós-Texto 2 (13:21 de 14-3-2014): Resultado da votação sobre a coadoção de crianças por casais homossexuais
O projeto do PS sobre a coadoção de crianças por casais homossexuais não passou na votação final plenária no Parlamento, hoje, 14-3-2014:
  • A favor: 107 
  • Contra: 111 (PSD e CDS)
  • Abstenções: 5 (3 do PSD e 2 do PS)


Mais tarde, tentarei indicar quem no PSD votou a favor. No PSD abstiveram-se os deputados João Prata, Conceição Caldeira e Maria José Castelo Branco; no PS, abstiveram-se os deputados João Portugal e Isabel Oneto. O CDS mudou da liberdade de voto anterior (que tinha dado 3 abstenções anteriores na primeira votação) para a disciplina de voto contra. Os deputados dos demais partidos de esquerda votaram todos a favor.

Procurarei também conhecer os oito deputados faltosos, especialmente no PSD, e escrutinarei as razões oficiais de falta que apresentarem - e se a Presidente da Assembleia Assunção Esteves recusar a informação ou demorar excecionalmente prestá-la, denunciarei aqui o facto, tal como fiz em 25-7-2013 - com a votação incial do diploma em 17 de maio de 2013.

Creio que no PSD se temeram os efeitos de ricochete do tiro moderno da coadoção. E, tal como CDS, em vésperas de eleições europeias mais difíceis, se recuou. O resultado é, por isso, uma vitória tática e não estratégica.

Prevaleceu, por enquanto, a posição conservadora no Parlamento. Veremos por quanto tempo. Nós, aqui, que nos empenhámos com muito esforço nesta luta, ficamos satisfeitos com o resultado alcançado, que passou muito pela denúncia feita neste blogue das faltas táticas na bancada parlamentar do PSD na votação inicial de 17-5-2013. Esta é outra vitória do povo.

quinta-feira, 13 de Março de 2014

Cavaco atira a pedra e esconde a mão

A decisão do Presidente Cavaco Silva exonerar os seus consultores da Casa Civil, Dr. Vítor Martins e Eng. Sevinate Pinto não retira uma linha ao que escrevi ontem sobre o Manifesto para a reestruturação da dívida. Pelo contrário, acrescenta outra. Apesar da invocação oficial de Belém de que os dois não deram «ao Presidente previamente informação nem conhecimento da sua iniciativa» e do seu declarado distanciamento póstumo do manifesto. Ora vamos lá pô-la. Escrevi ontem, 12-3-2014 aqui:
«Não é possível que Leite, Martins e Sevinate, tivessem subscrito o manifesto sem autorização de Cavaco» 
A vírgula, então:«,»
pelo contrário, hão-de tê-lo feito com inspiração do próprio presidente que aliás  deve ter sido contactado pelos prováveis organizadores do Manifesto (Soares, com apoio do operacional Vítor Ramalho, mas também Cravinho e Pacheco Pereira). 
Cavaco Silva demorou trinta horas - entre as 10:15 de 11-3-2014 (notícia do Manifesto no Expresso) e as 16:59 de 12-3-2014 (notícia da sua decisão) para exonerar os seus colaboradores?!... Aí está a prova daquilo que entendo ser a sua maquinação, a sua hesitação e a sua fuga. Cavaco fez com Vítor Martins e Sevinate Pinto o que antes já tinha feito com Fernando Lima (em 21-9-2019). Pior, porque nesse caso foi obrigado a recuar e agora os dois colaboradores de ontem já nem constam hoje, quinta-feira, 13-3-2014, na lista da sua Casa Civil.

Cavaco usou, deu corda e aflito com as consequências... deixou cair. A sua fraqueza moral leva-o a recuar perante o perigo e a sacrificar soldados, que abandona desamparados no campo de batalha. Com esse comportamento cínico, desmotiva o empenhamento dos seus colaboradores e aliados e exibe um sinal de fraqueza perante os adversários. Sócrates, com todos os defeitos que lhe conhecemos, nunca o faz porque sabe que essa é uma condição indispensável de poder: no man left behind.

Do Portugal Profundo, não concordo com o Manifesto subscrito por Vítor Martins e Armando Sevinate Pinto. Mas tenho a melhor das referências sobre o sentido do dever e o seu patriotismo de um e de outro. Creio que eles, insuspeitos de socialismo, foram inspirados pelo próprio Presidente para uma posição muito desconfortável de apelo ao não pagamento da dívida pública do País - que dificilmente seria a sua - e que, como homens de honra, que acredito serem, assumiram aceitaram pessoalmente o odioso da manobra para afinal, protegerem quem os deixou cair.

Numa altura em que o País se apresta para retomar a sua soberania formal,- com taxas de juro das obrigações do Estado rebaixadas pela conjunção do cumprimento pacífico do programa de ajustamento e recuperação económica e da modificação da política europeia desde a presidência Draghi do BCE (1-11-2011) face à ameaça Marine Le Pen, com compra maciça de títulos no mercado secundário, e agora com a mudança do tabuleiro financeiro para o tabuleiro geopolítico após a anexação da Crimeia pela Rússia, em 28-2-2014 - Cavaco manifesta a sua oposição a essa reconquista formal, em nome de um «programa cautelar». A forma de «programa cautelar» só tem interesse para si, e para a oposição, para dizer que o Governo falhou no cumprimento do programa de ajustamento porque não seguiu os conselhos equívocos de Sua Excelência. Mas se, na verdade, não é Governo o autor principal do mérito nem a União Europeia/FMI, se foi o povo, as famílias e as empresas, que sucederam no sacrifício de uma injusta austeridade desigual, quem não entende isto despreza o duplo sacrifício do povo em proveito da cínica tática política.

Aliás, a fundamentação da reestruturação da dívida que o Protocolo apresenta e a análise que o Presidente faz no prefácio do livro «Roteiros VIII» do Presidente e  não é muito diferente, o que indica uma análise convergente. Justifica-se no Manifesto:
«A dívida pública tornar-se-á insustentável na ausência de crescimento duradouro significativo: seriam necessários saldos orçamentais primários verdadeiramente excepcionais, insusceptíveis de imposição prolongada.»
Diz Cavaco Silva no prefácio deste seu livro, publicado em 8-3-2014:
«Pressupondo um crescimento anual do produto nominal de 4 por cento e uma taxa de juro implícita da dívida pública de 4 por cento, para atingir, em 2035, o valor de referência de 60 por cento para o rácio da dívida, seria necessário que o Orçamento registasse, em média, um excedente primário anual de cerca de 3 por cento do PIB. Em 2014, prevê-se que o excedente primário atinja 0,3 por cento do PIB. (...)
Depois de concluir os respetivos programas de ajustamento, estes países continuarão sujeitos a uma supervisão pós-programa até terem reembolsado pelo menos 75 por cento dos empréstimos que lhes foram concedidos pela União Europeia, período que pode ser prorrogado por decisão do Conselho, sob proposta da Comissão.
Face à extensão em sete anos do vencimento dos empréstimos concedidos a Portugal pela União Europeia (52 mil milhões, no final do programa de ajustamento), não se prevê que ocorram reembolsos antes de 2025 e que a percentagem de 75 por cento dos reembolsos seja atingida antes de 2035.»
O Presidente de Portugal não acredita no País. No prefácio do livro, a palavras «crescimento» aparece 20 vezes contra apenas 2 vezes a palavra «austeridade», o que é coerente com as críticas que tem feita à política austera do programa de ajustamento. E mais sabe que o «compromisso» (19 vezes gasto no prefácio) em que teima, com os socialistas e quem mais fosse, exigiria a abertura dos cordões de uma bolsa quase vazia. Por mor de quê, senão da importância vazia de si próprio, é que Cavaco quer passar da contenção atual para o desbragamento socialista?...

Com esta guinada à esquerda, que se soma aos vetos e intervenções críticas sobre medidas de austeridade do Governo - e até a manifestação de oposição ao referendo sobre a coadoção e adoção de crianças por casais homossexuais!...  - Cavaco queria voltar ao comando político do País, com um governo attrape-tout de salvação nacional, a que agora chama «compromisso nacional de médio-prazo». Nisso insiste mesmo depois do País náufrago e ferido ter dado à costa de si e começar a recompor-se, Cavaco quer torná-lo uma cobaia de curandeiros charlatões, sujeito a mezinhas contraditórias em vez de alimento e autonomia.  Ainda que para tal ouse envolver-se numa salada russa azeda que vai da direita dos interesses ao radicalismo marxista de Carvalho da Silva, de Francisco Louçã e da filha (como leio no Manoelinho) de Camilo Mortágua!... Cavaco falhou redondamente. Fica ainda mais mais isolado, mais marginal, mais irrelevante.

quarta-feira, 12 de Março de 2014

O manifesto da frente soarista

O Manifesto «Preparar a reestruturação da dívida para crescer sustentadamente», ou «Manifesto dos 70», de 11-3-2014, que apela ao Governo a «reestruturar [leia-se não pagar], pelo menos, a dívida acima de 60% do PIB», é apenas mais um episódio da tentativa socialista de insurreição popular contra o Governo para a reposição do PS no poder.

A reestruturação da dívida (eufemismo para o seu não pagamento...) deixaria Portugal, um país pobre tradicionalmente deficitário na produção agrícola, extrativa e industrial, com um Estado sem credibilidade para obter novos empréstimos e sujeito a problemas de liquidez para pagamento de salários, pensões e outras prestações sociais, e sujeita à litigância internacional de credores irredutíveis como acontece com a Argentina há mais de uma década, ela mesma todavia excedentária na produção agrícola, extrativa e com tradição industrial. O manifesto considera que
«A dívida pública tornar-se-á insustentável na ausência de crescimento duradouro significativo: seriam necessários saldos orçamentais primários verdadeiramente excepcionais, insusceptíveis de imposição prolongada.»
Mas o que, ao contrário, é insustentável é a não existência de saldos orçamentais primários que cubram os juros da dívida contraída. Temos mesmo de viver com aquilo de que dispomos: essa é a condição de sustentabilidade de qualquer povo. Porque se não cumprimos o serviço da dívida, mais ninguém nos empresta nada e passaremos então a viver de acordo com uma condição que à paartida renegámos por causa de 4% de saldo orçamental. Isto é, ocorreria então, na mesma, aquilo que os manifestantes recusam cumprir.

Discuto neste poste, a lista dos subscritores e os motivos do manifesto.

Na lista dos 70 subscritores sobressaem incompatibilidades políticas, alianças de clãs e ausências táticas. Todos diferentes nas opções ideológicas, todos iguais e unidos, pelas circunstâncias, no ódio ao Governo. Não tenho tempo para fazer um sociograma de quem-controla-quem, mas fica um registo geral.

Nas incompatibilidades políticas, destacam-se (por ordem alfabética): Adriano Moreira, Alfredo Bruto da Costa, António Bagão Félix, António Capucho, António Saraiva, Armando Sevinate Pinto, Carlos Moreno, Diogo Freitas do Amaral, Eugénio Fonseca, Fausto Quadros, José Tribolet, Manuel de Lemos, Manuel Porto, Manuela Ferreira Leite, Ricardo Bayão Horta, Rui Marques e Vítor Martins. Destes, vários já se tinham convertido à fraternidade socialista-soarista há muito tempo, como são os casos de Freitas do Amaral, de Bagão Félix (em 2002), de Luís Braga da Cruz e de Alfredo Bruto da Costa, ou o líder da CIP (?...) António Saraiva, outros são conversões recentes, como é o caso do neo-soarino/socratino Carlos Moreno ou o zangado Capucho (que alinha em todos os grupos descontentes. Outras ainda eram expectáveis, como o meu professor Adriano Moreira - hoje uma sombra do que, afinal, nunca foi -, ou os melicianos Manuel de Lemos e Eugénio Fonseca. E outros uma surpresa: a maior delas, Manuela Ferreira Leite (e por arrasto, Vítor Martins e Sevinate Pinto); mas também o meu professor Manuel Porto ou Rui Marques (ex-MEP) ou Tribolet. O que faz Manuela Ferreira Leite junta com Pedro Marques Lopes?!... Mas incompatibilidades porquê? Porque estas personalidades alinhadas à direita se aninham num grupo de subscritores que tem Ramalho (criado de Soares), Galamba (João), Cravinho, Ferro, Carvalho da Silva, Soromenho-Marques, Boaventura, Louçã e Mortágua (filha)!... 

As alianças de clãs são significativas: acima de tudo, os bonecos das caldas do Dr. Soares que se descobrem quando este lhes puxa a guita; mas também, o clã ferroso; mais o clã católico-progressista (de fidelidade soarista-gutérrica-ferrosa); e agora o clã Cavaco Silva. Além de párias político-económicos, sem cargo atribuído no aparelho político-administrativo.

Nas ausências táticas: Soares, Sócrates, Guterres, Guilherme, Melícias, Teixeira dos Santos, Jorge Coelho, António Costa e Pacheco Pereira. Soares poupou-se. E a Sócrates e Teixeira dos Santos pouparam-nos. O grande ausente é... o Cavaco Silva, mas no Manifesto entra o seu alter ego Manuela Ferreira Leite e dois dos seus consultores na Presidência da República (Vítor Martins e Sevinate Pinto). Não é possível que Leite, Martins e Sevinate, tivessem subscrito o manifesto sem autorização de Cavaco. E repare-se que o Presidente Cavaco Silva, alvo principal do Congresso das Esquerdas, de 21-11-2013, tinha recomendado em 8-3-2013, no prefácio do livro «Roteiros VIII» que reúne os seus últimos discursos, um programa cautelar em vez de uma «saída limpa» do programa de resgate financeiro da UE-FMI que constitui a preferência governamental:
«Em termos gerais, para um país que conclua com sucesso um programa de assistência financeira, é possível que um programa cautelar seja preferível a uma saída dita “à irlandesa”.»

Cavaco Silva, enciumado do Governo (tal como Teixeira dos Santos) pelo êxito deste na execução financeira do programa de ajustamento e recuperação económica do programa de ajustamento decidido, em último grau, pela União Europeia e FMI, aproxima-se indiretamente dos manifestantes por duas razões: evitar a contestação da esquerda ao seu desempenho como presidente da República e sair do isolamento, face ao PS e ao PSD e da irrelevância político a que se confinou com a comunicação ao País, de 10-7-2013, após a demissão de Gaspar e Portas. Cavaco não concorda com a reestrutruração da dívida; mas aceita ainda menos a sua marginalização polícia.

Os motivos do manifesto são: a necessidade de abafar o êxito governamental do cumprimento financeiro e económico do programa de austeridade imposto pela União Europeia e FMI (vulgo «troika») e a necessidade de alargar a frente popular de matriz soarista à franja desamparada da direita sistémica.

A política financeira ruinosa dos Governos Sócrates contrasta com o sacrifício do país inteiro no cumprimento de um programa de austeridade que garantiu liquidez e alguma recuperação económica. O manifesto é conhecido no dia em que a taxa de juro das obrigações do Estado português a dez anos desceu aos 4,31%, o valor mais baixo desde abril de 2010 e que permite prever a saída do País de um programa formal de resgate financeiro (e evitar um programa cautelar formal).

Por outro lado, a frente popular soarista ficou demasiado estreita no Congresso das Esquerdas, em 21-11-2013, da Aula Magna da Universidade de Lisboa, e precisa de preparar o 25 de abril num crescendo mais abrangente. Note-se que o Manifesto - texto longo necessariamente negociado, que não há-de ter sido feito de um dia para o outro e com contactos e convites que hão-de ter demorado -, é publicado, não por acaso, cinco dias depois da manifestação policial semi-falhada de 6-3-2014, tal como o Congresso das Esquerdas ocorreu na noite da manifestação policial que rompeu o cordão de proteção da Assembleia da República, em 21-11-2013... Quiçá, se a manifestação resultasse noutra desautorização do Estado o Manifesto fosse publicado no dia seguinte...

Não é a reestruração da dívida que deveria ser reclamada, mas a suspensão do pagamento de toda e qualquer dívida de origem criminosa em contratos leoninos de um sistema corrupto, determinada pelos tribunais após suspensão administrativa dos contratos de certas parcerias público-privadas até à renegociação de valores justos. Desses pagamentos de valores absurdos derivados de contratos leoninos nenhum Congresso das Esquerdas se queixa... A restante dívida deve ser paga.

Registe-se que o sucesso da recuperação não pertence principlamente ao Governo, mas ao povo que sofreu a austeridade desigual (que poupou a classe política e castigou as classes médias e baixas) e, mesmo assim, se resignou ao seu cumprimento e teve arte para melhorar a economia e a caridade da família para aliviar casos de ruína.

O que a Pátria nos recomenda, irmãos de valores e de combate, é que a punhamos sempre no altar do nosso sacrifício, acima do caráter de quem ocupa o poder e dos interesses mesquinhos que representem os de «profano coração» de que escrevia Camões.


* Imagem do Manifesto do Partido Comunista, Londres, 1848, picada daqui.

terça-feira, 11 de Março de 2014

Partilha

Uma ideia norte-americana muito interessante para replicar em Portugal: Medi-Share. Em nova organização ou em extensão de outras. Trata-se de uma organização de caridade norte-americana no qual os membros doadores pagam despesas médicas de pessoas com dificuldades económicas.

Em Portugal, o Estado apoia uma parcela das despesas de doença, mas, apesar da assistência social extra do Estado e das autarquias, muitas pessoas não têm dinheiro para aviar medicamentos, ou fazem-no com extrema dificuldade.

Ao socialismo, de raiz marxista, repugna a caridade. A caridade não se encaixa no modelo totalitário de luta de classes e de estatização de vida. Mas, atenta a experiência do socialismo real na União Soviética e na Europa do Leste, em África, e agora nas venezuelas, o Estado não providencia tudo. Continua, mesmo aí, em regimes anticapitalistas, a ser necessária a caridade e a interajuda civil.

A coesão social precisa das instituições de caridade da sociedade civil. Porque ajudam quem precisa e porque motivam a dar quem pode.

segunda-feira, 10 de Março de 2014

Notícias, processos e manobras - o caso BCP

Recomendo a leitura de um poste interessante do José da Porta da Loja sobre as notícias dos jornais sobre a sentença do Tribunal de Pequena Instância Criminal de Lisboa que terá decidido que as sanções e coimas impostas pelo Banco de Portugal a Jardim Gonçalves, ex-presidente do BCP, bem como outras a outros administradores do banco, já prescreveram.

Sobre o caso BCP escrevi em 12-11-2013, o poste «Revisitando a história do BCP pelo socratismo». Aí comento a essência do assunto e indico o que está em julgamento no processo judicial («falsificação de documentos e manipulação de mercado») e as sanções administrativas impostas pela CVMM (em 2008) e pelo Banco de Portugal (em 13-5-2010), de que os sancionados recorreram.

Como contei nesse poste, no caso do antigo BCP, no processo judicial original, a acusação do Ministério Público, na parte que resistiu à fase da pronúncia, é de que Jardim Gonçalves, Filipe Pinhal, Christopher de Beck e António Rodrigues,
"através de uma empresa do banco, usaram 17 offshores das ilhas Caimão para comprar e vender acções do BCP, procurando assim, e de forma dissimulada, condicionar as cotações dos títulos», mediante «testas de ferro», tendo essas operações alegadamente provocado «um prejuízo de 600 milhões de euros ao BCP, que foi escondido aos outros responsáveis do banco e às entidades reguladoras».
Em resumo, a acusação parece ser a seguinte: a administração do banco teria emprestado dinheiro, em condições desfavoráveis ao próprio banco, a testas-de-ferro para que eles acudissem aos aumentos de capital e subscrevessem a compra de ações que os investidores institucionais e os particulares não fizessem e o banco pudesse, assim, apresentar as operações de aumento de capital como um sucesso; a administração do banco escondeu esses factos, e o prejuízo decorrente da queda que entretanto aconteceu nas cotações, das autoridades de supervisão e do mercado. Os arguidos contestam a acusação do prejuízo para o banco (dizendo que se a operação durasse até 2007 não aconteceria) e de informação falsa.

O assunto é complexo, os processos administrativos deram lugar a recurso e processo judicial, e o trabalho jornalístico apressado resumido em espaço limitado de jornal, editados em grande parte por setores próximos do socratismo e contrários aos arguidos, ainda aumenta mais a confusão. Para o público, devido à natureza da atividade bancária, aos precedentes casos do BPN (acusações de «burla qualificada, abuso de confiança e fraude fiscal qualificada») e do BPP (acusações de «fraude fiscal, falsificação de contas, branqueamento de capitais, burla qualificada»), e apesar da gravidade das acusações ser bastante diversa, Jardim Gonçalves é irremediavelmente comparado a Oliveira e Costa e a João Rendeiro.

A manobra da tomada do poder no BCP pelo socratismo, com dinheiro emprestado (e uma parte perdido) por uma administração da CGD (Santos Ferreira, Armando Vara) meses depois entronizada no próprio BCP, e num feixe de vetores convergentes políticos (PS), administrativos (CMVM e Banco de Portugal), empresariais - Paulo Teixeira Pinto, Vasconcelos-Mora, António Mexia e Ricardo Salgado), maçónico e judicial (...) -, essa ficou por investigar. Quem beneficiou e o quê, com esta manobra, é fácil de perceber e nem carece de um desenho tosco. Mas fica aqui exposta, por encargo da consciência patriótica, para maior glória dos seus atores e dos seus agentes.

Na batalha mediático-política, ganha quem tem mais meios. Mas, mesmo sem meios, teimamos.


* Imagem picada daqui.


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