sábado, 23 de agosto de 2014

Ratos, abutres e milhões

ABC (agosto de 2014). Estamos pior que a Grécia. Alto da Serra.


Pior. Para pior já basta assim - lamentamos abandonados o azar do azar. Em vez da sorte que a sorte tem. Nada, sem poder ser outra coisa. Não posso... 'Não posso' - ecoa-me. Em vez do direito à festa de um domingo. Mas podíamos... Podemos? Se ousássemos, se tivessemos a coragem de dizer sim. Se. E também. Um dia. Um dia, juntamo-nos. E somos. Até lá, sal e sangue.

Noticiou o Económico, ontem, 22-8-2014: «Apollo paga 220 milhões de euros pela Tranquilidade». O título e a notícia induzem em erro, ainda que, para lá da interpretação defeituosa, esta acabe por revelar os factos:
«A Apollo Global Management irá pagar pelo controlo da Tranquilidade cerca de 215 milhões de euros. O valor está inscrito no concurso que foi entretanto ganho pela ‘private equity', apurou o Diário Económico. Esta verba inclui o pagamento de 48 milhões de euros ao Novo Banco e a injecção de 150 milhões na Tranquilidade. O pagamento do restante valor está ainda a ser negociado entre a Apollo e o Novo Banco, apurou o Diário Económico.»
O Apollo Global Management é um dos principais fundos-abutre (vulture fund) norte-americano. O que faz um fundo-abutre? É um grupo de private equity (capital privado, não cotado em bolsa), de composição tendencialmente secreta do capital) especializado na compra de ativos de alto risco e na sua revenda rápida com lucro. Portanto, é de esperar que neste caso da Tranquilidade (e depois eventualmente o BES), o Apollo compra a empresa a pataco, com baixo envolvimento do seu capital próprio e com recurso maioritário ao crédito barato - Caixa Geral de Depósitos? - para financiar o cumprimento dos rácios de capital, saque os maiores lucros possíveis para pagar a dívida especialmente contraída, e venda com ganho assinalável logo que possa. Usa e deita fora numa receita dura de corte de despesas: rescisões com o pessoal, reduções salariais, subcontratação. Até que vende o resto por uma batelada final.

Seis questões adicionais sobre a notícia do Económico, de 22-8-2014 (ou a do i, de 23-8-2014) que parecem, aliás basear-se na mesma fonte (trabalho de uma agência de comunicação?:
  1. Afinal, a segunda seguradora não-vida do País e que tem 8,3% de quota de mercado, nem 50 milhões de euros vale, mas 48 milhões e «sem dívida»?... 
  2. Há um pagamento adicional de 150 milhões pelos abutres do Apollo Global Management como?!... Se o banco (Estado...) não recebe esse dinheiro!... 
  3. Um valor de 48 milhões (em venda privada em vez de OPV) por uma seguradora, a Tranquilidade, que, há cinco meses, o Banco de Portugal tinha aceite como penhor de provisões no valor de 700 milhões de euros? Provisões essas que afinal não servem, porque não permitiam sequer reembolsar todas as obrigações das holdings dos layers mais elevados do grupo Espírito Santo vendidas aos balcões do BES, muito menos usar os 700 milhões de uma provisão que afinal valeria 50 milhões?...
  4. E, das duas, uma: ou a Tranquilidade - com a sua faturação anual, a sua carteira de clientes, a organização, a expertise dos seus funcionários, o custo da formação que tiveram, o sistema informático, o imobilizado - e apesar do seu passivo, vale mais do que os 48 milhões de euros que o Apollo deu por ela agora; ou a Tranquilidade não valia os 700 milhões de euros que o Banco de Portugal aceitou como penhor das holdings do grupo ao BES para eventual reembolso do papel comercial!...
  5. Em qualquer caso, não parece ser verdadeira a notícia filtrada, em 25-3-2014, para o Expresso e outros jornais:
    «Banco de Portugal "obriga" o Espírito Santo Financial Grupo ( ESFG) a fazer uma provisão de 700 milhões de euros para garantir pagamento de papel comercial vendido aos balcões do BES».
    Pois, o Banco de Portugal aceitou um ativo como penhor que valeria, afinal cinco meses depois, apenas 14,9% (48 milhões / 700 milhões) do que pretendia provisionar. E que nem era fácil transformar em liquidez para reembolsar clientes se as holdings do grupo Espírito Santo não conseguissem remunerar as obrigações como não conseguiram.
  6. O BES bom (o Novo Banco) também vai ser vendido a pataco (e expurgado de dívidas e de responsabilidades financeiras), rapidamente, por negociação particular (e não em OPV) ao fundo-abutre Apollo, como experimenta o boato-balão do i, em 23-8-2014?


A responsabilidade do Banco de Portugal é iniludível, neste caso, com destaque para o governador Carlos Costa e os demais administradores, bem como para a CMVM, com realce para o seu Conselho Diretivo. Depois, a hesitação do Governo, do Banco de Portugal, da CMVM, e da própria administração do novo BES (do banco mau nada se sabe). O paga-não-paga as obrigações subordinadas, a transferência de ativos entre banco bom e banco mau e volta, é mau demais para ser mentira. E agora as revelações do CM, em 23-8-2014, de que, alegadamente, administradores do Banco de Portugal têm investimentos no BES em obrigações (Silveira Godinho, com meio milhão de euros) e depósitos (Duarte Neves, com o pelouro da supervisão, com 132 mil euros em depósitos) - o que, por si só, não significa

Mas não há assunção de responsabilidade pela administração do Banco de Portugal, pelo Conselho Diretivo da CMVM, pela ministra das Finanças, pelo primeiro-ministro. Dá até a impressão que os  administradores e os funcionários do Banco de Portugal e da CMVM, são muito bem pagos e com amplos benefícios marginais, e mesmo assim poupados aos cortes salariais que atingiram os demais portugueses - como censurou em 21-5-2014, na Sic-Notícias, Pedro Ferraz da Costa -, pelo poder bancocrático para que sejam mais lenientes na supervisão dos bancos privados...

É difícil crer que funcionários recrutados com tão excelentes qualificações e experientes, e administradores veteranos, não vejam, não oiçam, não saibam, e depois da indignação do País inteiro pelo seu falhanço no caso BPN (e BPP), voltem, mais de cinco anos depois, a não ver, não ouvir, não saber, das manigâncias e do iminente colapso de outro banco, neste caso dez vezes maior a nível nacional, fora a sua expressão internacional. Porque se os funcionários viram, ouviram e sabiam, e reportaram por escrito o que apuraram aos dirigentes e esses factos, se de relevo penal, não foram imediatamente comunicados ao Ministério Público e tomadas as providências eficazes para evitar o desastre, devem difundir essa informação para que seja sancionado quem negligenciou ou abafou o caso.


Limitação de responsabilidade (disclaimer): As entidades referidas nas notícias dos média, que comento, não são suspeitas ou arguidas do cometimento de qualquer ilegalidade ou irregularidade nestes casos, com excepção daqueles pelos quais estão indiciados. E mesmo quando arguidas gozam do direito à presunção de inocência até ao trânsito em julgado de eventual sentença condenatória.

24 comentários:

floribundus disse...

a 25.iv rebentou-se o cano de esgoto dizia um comunista meu Amigo

3ª e última falência

' os corvos descobrem sempre onde está a carcaça'
segundo um Evangelista

Anónimo disse...

É o país do Oliveira e Costa, do Jorge Coelho, do Rendeiro, do Jardim Gonçalves, do Constancio, do Vara, do Dias Loureiro, do Isaltino, do Marcelo Rebelo de Sousa, do Marques Mendes, do Cavaco, do Ferro Rodrigues, do António Costa, do Carlos Costa, do Silveira Godinho, do Mário Soares, do Santana Lopes, do Durão Barroso, do Sócrates, do Jaime Gama, do Faria de Oliveira.

Vai demorar muito tempo a limpar tanto lixo. Nem com 10 milhões de vassouras se consegue limpara tanto esterco.

Haveremos de o limpar, custe o que custar.

Anónimo disse...

http://en.wikipedia.org/wiki/Drexel_Burnham_Lambert

Drexel Burnham Lambert was a major Wall Street investment banking firm, which first rose to prominence and then was forced into bankruptcy in February 1990 by its involvement in illegal activities in the junk bond market, driven by Drexel employee Michael Milken.

Anónimo disse...

http://en.wikipedia.org/wiki/Apollo_Global_Management

Apollo Global Management, LLC is an American private equity firm, founded in 1990 by former Drexel Burnham Lambert banker Leon Black

Apollo, originally referred to as Apollo Advisors, was founded in 1990, on the heels of the collapse of Drexel Burnham Lambert in February 1990. It was founded by Leon Black, the former head of Drexel's mergers and acquisitions department, along with other Drexel alumni.

In December 2013, Apollo bought a portfolio of Irish home loans from Lloyds Bank for €307m, less than half their nominal £610m (€367m) value.

Anónimo disse...

http://joaorendeiro.com/wordpress/?p=1968

Como foi publicitado, o BdP e a Administração de Vítor Bento andaram no jogo do empurra a ver quem tomava a decisão final sobre o pagamento do papel comercial do GES – ESI, RIOFORTE, ESFG, que foi comercializado nos balcões do BES aos clientes de retalho (não -qualificados, na linguagem da DMIF).
O montante total desta comercialização foi de cerca de € 1,1 mil milhões, excluindo bem entendido o montante de clientes institucionais de cerca de € 2,4 mil milhões. Exclui-se ainda um montante não conhecido mas que poderá revelar-se ainda muito relevante, correspondente a comercialização na rede de Private Banking do BES de clientes juridicamente vinculados ao Banque Privée Espírito Santo. Digo muito relevante pela litigância para o NOVOBANCO que esta questão, na minha opinião, acarretará.

Porque é que Carlos Costa e Vítor Bento andaram no jogo do empurra?
Porque a manta ficou curta. Isto é, tendo dito desde o início que os clientes de retalho seriam ressarcidos, fizeram as contas e verificaram que para uma exposição de € 1,1 mil milhões o NOVOBANCO só fez uma provisão de € 850 milhões. Se pagassem a todos os clientes o NOVOBANCO nasceria com um buraco de € 250 milhões.
Daí a lengalenga do BdP que só se poderia pagar se não afetasse a posição de fundos próprios e liquidez, o que incidentalmente não augura nada de bom para as propostas comerciais que os clientes afetados irão receber em breve em matéria de capital e maturidade.
Vai daí o BdP vem com a decisão de que apenas os clientes que renovaram as suas aplicações até 14 de fevereiro de 2014 é que são elegíveis para serem ressarcidos.
TODOS OS CLIENTES BES/GES QUE RENOVARAM AS SUAS APLICAÇÕES ENTRE 14 DE FEVEREIRO E 1 DE AGOSTO PERDERÃO PRATICAMENTE A TOTALIDADE DO SEU CAPITAL, AO TRANSITAREM PARA O BES/BANCO MAU.
A argumentação do BdP é digna de manual. Foi a 14 de fevereiro que o BdP instruiu a Administração de Ricardo Salgado para não aumentar a exposição do BES ao GES e vai daí os clientes deixam de ser elegíveis.
Mas os clientes tem alguma culpa nisto?

Anónimo disse...

E o Dr. Silveira Godinho, que tem 500 mil euros de obrigações do BES (BancoBom? ou BancoMau?), e diz que nem se lembra deste activo.

Como é que alguém, que não consta que tenha milhares de milhões de euros de fortuna pessoal, nem se lembra de um activo de 0,5 milhão de euros de activos?

Foi Você que pediu um AUMENTO de impostos? Não. Mas, vai pagar estes brindes ao Dr. Silveira.

Anónimo disse...

http://expresso.sapo.pt/carlos-costa-em-descanso-forcado=f886827

O governador do Banco de Portugal esteve afastado do trabalho nos últimos dias, em descanso por recomendação médica.

Anónimo disse...

E o Prof. Pedro Duarte Neves, Vice-Governador do BdP, tinha em 2010, 132.000 euros em depósitos no BES.

E em Julho de 2014, continuava a ter os mesmos 132.000 euros?

E não se venha dizer que é do foro privado.

Esta gente é paga pelo contribuinte português.

Anónimo disse...

http://expresso.sapo.pt/a-queda-de-um-santo-por-pedro-santos-guerreiro=f882869

Como foi possível que um império tamanho se perdesse entre dois verões, sem invernos que anunciassem a ruína ou primaveras que a redimissem? Talvez a resposta esteja noutra pergunta: como foi possível sequer construir este império tamanho? A resposta é, agora, fácil: não foi possível. Não era um império. Era um conglomerado descapitalizado, opaco e mal gerido. A plácida cascata de ativos, que criou um sistema de minorias acionistas encadeadas que garantia o controlo familiar com pouco capital, tornou-se uma torrencial cascata de passivos.

É impressionante tudo ter acontecido debaixo dos olhos da comunidade, incluindo poderes políticos, reguladores, auditores, concorrentes. Ao contrário do BPN, que "sempre se soube", no BES nunca se soube de nada. Escrevia-se sobre a opacidade e a complexidade do grupo, mas não havia denúncias nem sequer suspeitas conhecidas. O poder do BES era imenso. E era um poder de um homem, Ricardo Salgado, 70 anos acabados de fazer. Sintomaticamente, o líder da família desde o final dos anos 80 não tinha número dois. Era costume dizer-se que o BES era como um comité central do Partido Comunista, não havia "vices", havia o líder e o resto. Era um poder total, bajulado e quase incontestado.

Anónimo disse...

A falta de oposição entre eixos financeiros permitira uma afirmação do BES que, juntamente com o BCP e a Caixa, lucraram muitos milhões concedendo crédito no imobiliário e nas obras públicas, onde estariam a maior parte dos grandes problemas da economia, com malparados gigantes, obras paradas a meio, transferências para fundos de reestruturação.

Nessa minha tese, estes bancos haviam "fabricado" lucros, dividendos e prémios de gestão. Os créditos, que constituíam lucro nos primeiros anos, virariam graves prejuízos no futuro. Os bancos foram sendo esventrados. No ano 2000, BES, BCP, BPI e Banif valiam em Bolsa um total de 18 mil milhões de euros. Os mesmos bancos valem hoje menos de sete mil milhões. Apesar de muitos dividendos entretanto pagos, a destruição de valor é evidente. Houve aumentos de capital em catadupa.

É hoje possível argumentar que, apesar de a intervenção externa de 2011 se ter feito por causa das contas do Estado, ela acabou por permitir uma gestão controlada e até disfarçada dos problemas enormes que estavam nos balanços dos bancos. Já foram reconhecidas nas suas contas mais de 24 mil milhões de euros de perdas reais e potenciais. E é essencial perceber isto para compreender o que se passou no Grupo Espírito Santo.



Ler mais: http://expresso.sapo.pt/a-queda-de-um-santo-por-pedro-santos-guerreiro=f882869#ixzz3BFAO9q4L

Anónimo disse...

E porque é que Ricciardi, é considerado IDÓNEO, Dr. Carlos Costa?

Anónimo disse...

Parece-nos que a ficção constitucional a ficção-soberania do povo, a ficção-maioria parlamentar representando a vontade da nação, estavam – para nós ao menos, sem preocupações políticas – abertamente e insofismavelmente demonstradas. Porque ao lado da enorme maioria que pelo trabalho tratava da vida, as camarilhas políticas também na política tratavam da sua, e é provável, senão mesmo muito certo, que, os interesses dos partidos se distinguiam bem dos superiores interesses do País. Examinando durante anos as promessas dos programas e os actos dos governos, comparando os discursos e os factos, conhecendo os dessous de muitas campanhas pretensamente moralizadoras, empreendidas pelos inimigos das facções a derrubar para outros poderem subir, a Nação afinal podia revoltar-se e não se revoltou; separou-se da crosta política, tornou-se céptica, levando vida à parte, absolutamente insensível aos repetidos protestos de reforma nos processos da governação pública; desdenhou da realeza que o voto lhe conferia, e mediu-os a todos, aos políticos, pela baixa craveira do seu absoluto desprezo.

AUTORIDADE E LIBERDADE: A Nação contra os partidos; A União Nacional (01)


(«O Ágio do Ouro», págs. 78-79) - 1916

Anónimo disse...

Parece conversa à Kirshner: se os fundos abutre só compram ao preço de lixo e se a Tranquilidade não é lixo porque é que você não se chega à frente? Porque é que milhares de seguradoras por esse mundo fora o não fazem? Porque, meu caro, se cheira a lixo e se parece com lixo, o mais certo é ser mesmo lixo.

Anónimo disse...

Então, e se é lixo, porque o Dr. Carlos Costa avaliou o que agora é lixo, em 700 milhões há apenas uns meses?

Será que Governador do BdP transforma ouro em lixo? Ou o que era lixo, ele via ouro?

700 milhões de lixo = 50 milhões de euros

Anónimo disse...

http://www.publico.pt/portugal/noticia/primo-bom-e-primo-mau-1667205

Hoje o primo Ricardo dá entrevistas a jornais do Brasil e recusa-se a ser “pivô” da crise no banco. Ele só está “no olho do furacão” por estar à frente de um grupo financeiro com quase 150 anos. Mas os últimos negócios — leia-se ruínas, escândalos e fraudes — do grupo GES estavam distribuídos. Manuel Fernando, na Rioforte, Zé Maria no BESI. Isto é, ninguém deve esquecer que Ricardo, o primo mau do banco mau, surge como vilão, mas o alegado primo bom do banco bom, o Zé Maria, que aliás tentou derrubá-lo há meses, não é melhor. Basta lembrar que Zé Maria está a ser investigado por tráfico de influências e é arguido por crimes de abuso de informação privilegiada e manipulação de preços de mercado, em transacções de acções da EDP e EDP Renováveis, em 2008. Um ano depois, ainda sem saber que tinha sido alvo de escutas telefónicas, este licenciado em Ciências Económicas pela Universidade de Lovaina, assegurava: “A família Ricciardi foi sempre uma família de trabalho. Os valores com que me identifico — honestidade, seriedade, uma certa discrição na vida — vinham desse lado.”

Anónimo disse...

https://espectivas.wordpress.com/2014/08/24/quem-tem-uma-vagina-tem-uma-mina/#comments

Anónimo disse...

Para o Dr. Carlos Costa, em férias, por exaustão, José Maria Ricciardi é IDÓNEO, apesar dos evidentes indícios formais.

lince iberico disse...

Em Portugal a partir dos anos 90 o mercado do restauro, da reabilitação, esse mercado morreu e cada um começou a fazer a sua mansão a crédito onde bem lhe apetecia.

Parece que mais de 70% da nossa dívida externa está enterrada em cimento.

Os tuguinhas endividaram-se não só para comprar a casinha mas também para comprar segunda habitação no Algarve ou nos arredores de Lisboa e até para comprar terceira habitação. Havia já famílias com casa de fim-de-semana na Península de Setúbal ou no Alentejo e casa de Verão no Algarve, tudo a crédito.

A ausência de mercado de restauro e de reabilitação empurrou as massas para fora dos centros das cidades, vilas e aldeias, engordando assim as periferias. O crescimento das periferias por sua vez justificou novas obras públicas e a manutenção de novos espaços urbanos, a pagar pelo erário público: auto-estradas, viadutos, iluminação pública, rotundas, etc.

A saída das massas dos centros também motivou a morte do comércio tradicional, que também já não se regenerava, em parte devido à lei das rendas: estas estavam demasiado baixas, o que contribuía para que lojas sem rentabilidade se «aguentassem». Os centros comerciais cresceram como cogumelos e pelo menos em 2010 Portugal já caminhava para ser o país da UE com mais espaço comercial por habitante.

O crescimento urbano desmesurado e insustentável teve o apoio político da Direita à Esquerda. José Sócrates quando deu voz à organização do Euro 2004 defendia os novos estádios como pólos de criação de novas centralidades e desenvolvimento urbano.

As empresas de obras públicas, as construtoras e imobiliárias, os bancos e as autarquias constituíram um lobby poderoso que arruinou o país. O capital que deveria ter sido investido na modernização da agricultura e da indústria, noutro tipo de turismo e na reabilitação do património construído acabou enterrado na expansão urbana.

Em Lisboa, por exemplo, optou-se por estimular a criação de um novo centro de desenvolvimento urbano, na zona oriental (Parque Expo), ao invés de se estimular o repovoamento dos bairros históricos.

O desordenamento do território também justificou a construção de novas estradas e auto-estradas, depois das estradas nacionais terem sido «destruídas» com moradias e estabelecimentos comerciais: a construção junto das bermas das estradas nacionais converteu-as em «mega-avenidas». Um bom exemplo é a EN 125: onde antes se circulava a 90 km/h, agora circula-se a 50 km/h, devido ao povoamento disperso que ocupou as bermas da estrada nas últimas décadas.

O cancro da construção civil e do imobiliário começou ainda no final dos anos 60, mas tomou dimensões catastróficas a partir do cavaquismo.

Quando se enumeram os problemas da nossa economia refere-se a lentidão da Justiça, o abandono escolar, a corrupção e o tráfico de influências, o peso excessivo do Estado, mas esquece-se aquele que será provavelmente o nosso maior problema estrutural: o desordenamento do território!

lince iberico disse...

«A falta de oposição entre eixos financeiros permitira uma afirmação do BES que, juntamente com o BCP e a Caixa, lucraram muitos milhões concedendo crédito no imobiliário e nas obras públicas, onde estariam a maior parte dos grandes problemas da economia, com malparados gigantes, obras paradas a meio, transferências para fundos de reestruturação.»


O dinheiro que deveria ter sido investido na agricultura, na indústria e noutro modelo para o turismo foi enterrado em cimento.

O sobreiral dá há muito tempo sinais de degradação e é necessário reflorestar em diversos pontos do país. A cortiça tem futuro e Portugal é o maior produtor do mundo.

Os pomares de sequeiro algarvios produzem produtos com valor mas estão velhos e ressequidos e precisam de ser replantados.

Muitas fábricas precisam de nova maquinaria mas não há capital para a modernização.

Os produtos locais estão a desaparecer. Ninguém sabe trabalhar os materiais tradicionais. Falta dinheiro para criar condições para que se produza em massa e se exporte.

Há emprego potencial a ser criado na indústria, agricultura, floresta, minas e pescas e muito emprego ara destruir no funcionalismo público e em alguns serviços. Mas falta capital e agora o país já esgotou o crédito. Está tudo enterrado em auto-estradas sem carros, rotundas gigantes, iluminações públicas faustosas e urbanizações fantasma.

Anónimo disse...

Lince Ibérico,

Excelente contribuição.

Mas, como não há dinheiro, nem da União Europeia, nem da poupança nacional, resta trabalhar em condições muito duras, ou emigrar. Se assim não for, Portugal vai com os Espirito Santo, para o esgoto.

Anónimo disse...

estouros

http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/imobiliario/detalhe/dividas_na_construcao_de_luxo_apanham_pereira_coutinho.html

Na última década, a Temple, de Vasco Pereira Coutinho, promoveu luxuosos imóveis em Portugal. Agora, a homófona TMPL está a braços com dívidas de quase 80 milhões de euros e um dos credores é... Pereira Coutinho.
A história junta imóveis de luxo, um empresário milionário, dívidas à banca e duas sociedades com o mesmo nome. Bem, quase o mesmo nome: de um lado está a Temple, de Vasco Pereira Coutinho, e do outro ..

lince iberico disse...

No Sul há muitas bombas para rebentar no imobiliário.

O poder político sabe e daí a chico-espertice do visto dourado.

O empreendimento Verde Lago perto da Praia Verde nunca avançou mas o pinhal ficou destruído bem como a paisagem envolvente, com uma série de crateras no monte.

Há dezenas de casas de luxo há venda nos campos de golfe do sotavento, dezenas, estão construídas há dez ou mais anos mas não há compradores.

Sei que um campo de golfe perto de Tavira está insolvente e outros estão dependentes da boa vontade da banca.

O autódromo do Algarve e todo o projecto envolvente é um grande elefante branco.

Já havia PIN previsto para a Quinta de Marim e para o Ludo com dinheiro russo à mistura. Os projectos desta natureza na região estão na fossa. As moradias não se venderam e não há clientes para os campos de golfe.

O sonho a crédito da casinha de Verão no Algarve deu o seu contributo para o nosso endividamento externo. Mas pior ainda foi a megalomania dos PINs. Cuidaram que o Algarve seria uma espécie de Santorini ou Capri em ponto grande. Mas agora a nossa banca tem no Sul uma série de «imparidades».

Destroem-se pelo caminho paisagens e áreas protegidas.

A ver o que vai acontecer à lagoa dos Salgados e ao caniçal de Vilamoura...

Até o Ministro Álvaro andava deslumbrado com o cimento a crédito para o turismo...

Anónimo disse...

Bem-haja o autor do blog pelo seu post que atesta o seu patriotismo e isenção, desacreditando comentários de gente cega e mal-intencionada que por vezes aqui se vêm

O pior dos males deste país é continuar no trilho do favorecimento e do compadrio, não dando oportunidades iguais a todos os cidadãos.

Refiro-me à recente admissão para o Banco de Portugal (pela "porta do cavalo") do filho de Durão Barroso , sem ter sido dada igual oportunidade a outros cidadãos jovens e certamente tão ou melhor qualificados que o filho de Sua Excelência, o Exmº Sr. Dr. Durão Barroso...

Anónimo disse...

As revoluções, os políticos e as políticas avaliam-se pelos resultados.