terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Eusébio, Soares e Sócrates

Quando éramos pequeninos, eu e o meu irmão, um pouco mais velho, jogávamos à bola, junto à adega, na quinta de minha avó. Teria eu por aí uns quatro anos. O clube dele era o Benfica; o meu, por diferença fraterna, o Sporting. Nas fintas, ele fazia de Eusébio e eu tinha de lhe opor um rival de igual valia. Nos relatos dos jogos, que ambos ouvíamos, e que nos criava a euforia de ir replicar o entusiasmo logo a seguir, apercebi-me de que havia um nome tão falado quanto o de Eusébio. Era o «Esférico», um jogador (cria eu...) mencionado constantemente pelo narrador desportivo na rádio: o «Esférico» passa por Fulano, o «Esférico» corre para Beltrano, o «Esférico» é maltratado por Sicrano... Menino, antes do moço que também já fui, longe de perceber as coisas dos adultos, decidi que o meu ídolo passaria a ser esse «Esférico», um jogador (do Sporting...) de tanta notoriedade quanto a do ídolo do meu irmão. Pouco depois, numa idade em que o tempo não se contava, e antes ainda da época gloriosa de Héctor Yazalde, descobri, embaraçado pela ignorância, mesmo a de menino, que, afinal, o «Esférico» não era um jogador: o «Esférico» era uma metonímia da bola. A importância futebolística de Eusébio era, então, essa toda: igual a ele... só a própria bola.

Formado no antigo Sporting Clube de Lourenço Marques, raptado depois pelo Benfica - alegadamente depois de uma observação falhada de Otto Glória -, Eusébio valia por si, para além da rivalidade clubística, por motivo da sua habilidade, velocidade, força e sentido de baliza, do sucesso no clube e na seleção nacional, da identificação patriótica e do seu desportivismo. Eusébio morreu neste 5 de janeiro de 2014. Mas a memória do seu jogo, dos seus feitos e da sua atitude, perdurará eterna.

Na hora da sua morte, quando é altura de glorificar alguém que foi mito em vida - um privilégio dos jogadores de génio -, Eusébio não merecia a indignidade do ataque de Mário Soares. Soares, até podia ter feito como António Costa, que instrumentalizou, com a colaboração inexcedível de Luís Filipe Vieira, a morte de Eusébio para seu benefício eleitoral na candidatura à presidência da República, e fez o seu corpo deslocar-se até à praça do Município. Ou como os ensaios de outros políticos, como o presidente Cavaco Silva e a sua declaração das 12:30 de domingo. Mas Soares não resistiu a rebaixar Eusébio a um homem de «pouca cultura», que não era «um pensador», que «bebia muito whisky, todos os dias, de manhã e à tarde»!... Diz o povo que, na altura da morte, se não há bem para dizer, nada se diz. E Eusébio tinha muito bem para dele se dizer.

Soares, propalado como bonacheirão, revela-se, enfim, rancoroso. Não terá perdoado a Eusébio os êxitos nacionais dos anos 60, nas provas europeias do Benfica e no Mundial de 1966, e nem sequer teve a humildade de os integrar. Do seu filho João Soares, enquanto presidente da Câmara de Lisboa, se conta que terá recusado homenagear Eusébio, que via como um aliado do fascismo. Como me sugeriu um amigo, Soares ressente na homenagem de Eusébio, o funeral que um dia gostaria de ter - e sabe não ser possível. Não obstante, podem os editores dos média dominantes abafar o episódio, que ele circula por aí nos blogues, redes sociais e mails, como expressão sectária definidora de um político venenoso.

José Sócrates tentou fazer melhor no seu comentário televisivo: revelou ter-se tornado benfiquista num momento célebre: o jogo dos 5-3 de Portugal contra a Coreia do Norte,  no Mundial de Inglaterra. Tinha o ex-primeiro ministro oito anos de idade. Disse Sócrates:
«Lembro-me que saí de casa com Portugal a perder 3-0 e fui ouvindo nas ruas da Covilhã, enquanto ia para a escola, gritos de alegria através das janelas (...) pelos golos de Portugal. E cheguei à escola já Portugal ganhava e foi uma explosão de alegria na escola.» (Transcrição minha).
O problema é, que como nota o jornalista Frederico Duarte Carvalho, quando esse jogo decorria, em Portugal era... sábado à tarde (o jogo começou às 15 horas), quando a escola primária estaria fechada... Mais ainda, a partida, histórica pela reviravolta, ocorreu em 23 de julho de 1966, mês de férias... Pode vir agora a explicação - arriscada, pois há gente daquela época e daquele local - de que ia brincar para o recreio da escola ao fim de semana e de que a «explosão de alegria na escola» foi um modo de falar sobre o contentamento dos seus amigos que tinham levado um rádio de propósito para ouvir o jogo... enquanto brincavam. Mas isso apenas agrava o mal feito e a convicção popular. Como é dito, e sabido, Sócrates não tem um problema com as datas, nem sequer com a memória: Sócrates tem um problema com a verdade.

Na hora em que parte o humilde Eusébio, o arrrogante Sócrates escaqueira-se: faz lembrar aqueles fracos jogadores que ficam, por acaso, na cara do golo e decidem embelezar a jogada com uma finta ao guarda-redes, perdendo a bola; e depois, sem vergonha perante os apupos do estádio, ainda se queixam ao árbitro da própria imperícia.


Pós-Texto (11:22 de 8-1-2014): O seu a seu dono
Percebo n'O Insurgente, através de Ricardo Campelo de Magalhães, que foi um facebookiano chamado Tó Zé Silva quem deu a notícia cerca das 22 horas de segunda-feira, 6-1-2013. A notícia foi também amplificada pelo desassombrado poste do eurodeputado Nuno Melo no Facebook, ao princípio da tarde de ontem.


Atualização: este poste foi emendado e reescrito às 20:37 de 7-1-2014; e emendado às 22:22 de 7-1-2014; e atualizado às 11:02 de 8-1-2014.

11 comentários:

Anónimo disse...

Vá-se lá perceber o Vendilhão Soares, pois o grande ciúme do pulha é tão só este:

- No Panteão Nacional resta um lugar, até que alguém resolva expandi-lo. Como tal, Soares teme vir a ficar no Cemitério do Alto de São João, ao pé do Povo, logo alguém que só poderá ficar no Olimpo! Eusébio vai-lhe roubar o ligar no Olimpo.

De Soares, nada se espera, a não ser a sua morte, mesmo que se tenha que esperar algum tempo. Nós somos dos que o queríamos ver a sofrer em vida, a humilhação do seu amigo e parceiro de negócios, Jonas Savimbi. Seria mais agradável, do que a comum morte!

Anónimo disse...

Não foi a Coreia do Sul. Foi a Coreia de Kim Il Sung.

Anónimo disse...

O membro mais digno e honrado da família do porco soares foi a senhora sua mãe.

Anónimo disse...

Balbino, não tens cura: és como o Soares. Rancoroso. Mesquinho. Invejoso.

Antonio Cristovao disse...

não mereciamos gente desta tão mentirosa e mal formada. Melhor, eleitores tão mal formados que votam em aldrabões destes.

Anónimo disse...

Anónimo das 8 de Janeiro de 2014 às 03:36 não vale a pena ... não reparou que isto é um clube recreativo de pensamento único? Onde se vive e dorme a pensar em Sócrates, É um hobby inofensivo como qualquer outro.

Anónimo disse...

Rancoroso, como o Soares? O Soares é uma misericordiosa alma! O Soares dá tudo ao Povo! O Povo português deve-lhe tudo! Vão perguntar à Clarinha Bildeberg Ferreira Alves, ao Vítor Huambo Ramalho, e a tanto acólito sobre o benfeitor Soares! Se não fosse Soares, o Povo português ainda vivia debaixo da arriata do amigalhaço Otelo Campo Pequeno Carvalho! Deixa-me rir, o Dr. Passos, também conhecido como marido da Doce Padinha, ou o "bebé cerelac" sem ser grande coisa, fornicou de uma só vez a Abrilada!

Anónimo disse...

http://domingosamaral.com/115311.html

Anónimo disse...

A senilidade é uma chatice...então quando alguém é tratado por professor...é do caraças...fosga-se...

Anónimo disse...

Soares, o pseudo amigo dos pobres que tem um colégio para os ricos.

Anónimo disse...

Não vale a pena perder tempo sobre o Soares basta olhar para aquela cara e nariz de pouco sério para perceber tudo.Basta ler algumas coisas como o Portugal Amordaçado.Amordaçados vivemos nós com este tipo de imperadores /dos quais soares é um deles.Com a treta de serem uns grandes democratas é que aniquilaram o país e as gentes.Por isso é que eles gostam da União Europeia.Quem ganhou foram eles mas nós pagamos a factura.