quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Um modelo de jornal digital da direita moderada cristã


A inesquecível crónica de Helena Matos, no Económico, de ontem, 3-12-2013, intitulada «Decálogo do português mediático», sobre a presumida superioridade moral da esquerda, propicia uma reflexão atualizada sobre um jornal digital da direita moderada cristã, em que aqui tenho insistido para contrariar o domínio da ditadura mediática do politicamente correto leia sobre agenda settingpriming e framing e, ainda com maior relevo numa comunicação social portuguesa completamente enviesada à esquerda, sobre o gatekeeping.

Sem meios nós, na direita moderada cristã, não projetamos poder e não conseguimos a mudança. Não é uma questão de pessoas, porque pessoas existem, até heróis; não é uma questão de mensagem, porque mensagens existem; nem é uma questão de público, porque somos milhões ávidos de ler o que não temos. É uma questão de meio, média. A visibilidade e a projeção pretendidas não são alcançáveis com blogues, redes sociais ou mails.  Precisamos muito de um jornal digital da direita moderada cristã, como propus - e motivei -, desde 23-8-2011, quando escrevi o poste «A necessidade de um jornal digital da direita moderada cristã».

Que modelo de jornal digital da direita moderada cristã?
  1. Como o descrevi nesse poste de 2011: «um jornal digital de informação livre e opinião franca, de baixo custo». Independente e sem medo. Como em Espanha, o Libertad Digital, o Intereconomia, o Periodista Digital e El Confidencial, que são viáveis ao contrário da tentativa de televisão independente do poder político (que se tem provado impossível...). 
  2. Um jornal de arquétipo para lá de Huffington Post, de Deadlinede BuzzFeed e de Politico. Um jornal ao modo de Slugline (ver House of Cards, Episódios 5 e 13 desta primeira série), por muito que os saudosos dos broadsheets do séc. XIX, vejam, nesse paradigma de «liberdade e de exposição», um «futuro desafortunado». Não é o aspeto da redação open-space/bean bags que interessa (seguido já pelo Polygon), mas o estilo de produção que se pretende.
  3. Um jornal digital com poucos trabalhadores residentes e maior recurso a colaboradores voluntários ou remunerados a preço de favor. Com baixo investimento, equipamento barato (o bom equipamento video, por exemplo, é cada vez mais barato) e baixo orçamento. Financiado por independentes, eventualmente com recurso a crowfunding.
  4. Mas um jornal digital moderno: não a digitalização de um jornal impresso, ou seja, a transposição para o digital do velho modelo de jornal oitocentista, que tem sido mais ou menos o modelo em vigor até agora nos jornais portugueses. Trocaram a tinta pelos bites, sem mudança de conteúdo, de desenho, de estilo ou de linguagem. 
  5. Um jornal de estilo novo, não apenas gráfico, mas na linguagem, muito mais informal e próxima do que se usa nos blogues, redes sociais no dia-a-dia, fora do modelo oitocentista dos livros de estilo obsoletos. Acutilante e desassombrado (aproveitando o alargamento da liberdade que fomos fazendo, com sacrifício, nestes anos de ditadura opinativa). Sem trade-off de não-notícias por esmolas de cobertura (jantares e viagens...).
  6. Um jornal rápido, muito rápido - quase em ritmo tickerUm jornal em atualização constante, 24/24 (ou tendendo para isso...), em vez das notícias diárias que permanecem imutáveis um dia inteiro, como se ainda vivêssemos no mundo lesma.
  7. Um jornal digital que é texto, mas também imagem e som. Em que o jornalista produz texto ou entra em linha, direto, in loco, com imagem e som. E no qual se beneficia de meios de gravação video, baratos e funcionais, com qualidade suficiente para ver com boa definição... em computador, ou tablete (e talvez já convenha adotarmos a palavra sem sotaque inglês) ou smartphone. Não se precisa de equipamento de gravação para uma resolução de Downton Abbey, neste mundo de selfies e o smartphone basta... Habituámo-nos nos instantâneos, a uma resolução e qualidade do som suficientes quando vez mais vemos, ouvimos e lemos, em smartphone, depois de evoluirmos do computador de secretária, deste para o portátil e deste para a tablete. Trocamos a foto com muitos megas por imagens com poucos kapas - e o mesmo se passa no video. O novo modelo deve assim aproveitar a mudança de suporte da televisão para os meios móveis, criando videos dos acontecimentos e comentário a par das notícias escritas.
  8. Um jornal digital que está mais nos acontecimentos e menos nos eventos, com desprezo do circuito e pipeline dos releases governamentais e partidários e que resiste à chantagem de, em troca de convite para as cerimónias, passar o que as agências de comunicação e assessores ministeriais querem. Um jornal que desfaça a manipulação desinformativa de eventos preparados (como aquela exposta pelo Figaro da promiscuidade entre a TF1 e Jean-Luc Mélenchon do Parti de Gauche, em 3-12-2013, via Espectador Interessado).
  9. Um jornal digital desintermediado com redução da supervisão ao mínimo conveniente, para permitir rapidez e ousadia. Com produção de texto sem limite mínimo e com o tamanho (económico) que for necessário. Para que a dimensão não seja um obstáculo da velocidade. E editado por quem for possível, com o tal equipamento de baixo custo (no limite, a tablete ou o smartphone) em video do local dos acontecimentos, em direto, sendo as notícias depois atualizadas com mais informação e emendas honestas com indicação de hora. 
  10. Um jornal digital com crónicas de opinião livres, mesmo livres. Em vez do sabor delicodoce da salada insípida.
Em resumo: um jornal digital moral, leal e independente, de estilo moderno, que encarne o combate cultural sem luvas nem rendas, e que seja motor da mudança política real, pela qual ansiamos e lutamos há muito.

12 comentários:

Anónimo disse...

A Direita tem vergonha de o ser, apenas porque tem vergonha da sua ligação a Salazar e ao Estado Novo.

Que se saiba, a Esquerda, do Soares, do Sampaio e de Cunhal, não tem vergonha da nauseabunda I República do Afonso Costa.

A Direita esconde-se assim dentro do PSD e também do CDS. Depois, há muita Direita dos negócios, que tem medo de ser afastada dos negócios do Centrão.

Quanto à mudança, ela faz-se, com ou sem media de suporte. Imagine-se o que era baiixar salários há 5 anos. Hoje, baixa-se salários, com ou sem base legal.

A mudança virá com toda a força, pois Portugal é unsustentável. Ou se quiserem, Portugal não gera recursos para pagar a letra da Constituição da República. A mudança vai continuar mesmo que os media do Balsemão, do Montez ou do Mosquito, não queiram!

Anónimo disse...

http://economico.sapo.pt/noticias/choque-de-culturas-com-angola-pode-ser-prejudicial-para-portugal_183078.html

O ex-presidente da Câmara do Porto Rui Rio afirmou hoje que o choque entre a cultura de liberdade de imprensa portuguesa e angolana "pode ser prejudicial" para Portugal, considerando que o país não pode abdicar da sua.

Na fase de perguntas da conferência "O jornalismo (que temos) é útil à democracia?", no âmbito dos 40 anos do semanário Expresso, surgiu uma questão do público sobre as relações com a Angola e as consequências das mesmas na comunicação social.

"Eu não sou conhecedor da realidade de Angola, agora comungo dos receios que Pacheco Pereira aqui referiu há bocado porque a perceção que eu tenho é que a cultura de liberdade de imprensa é francamente distante da nossa e haverá provavelmente um choque que nos pode ser prejudicial mas também não podemos abdicar da liberdade de imprensa", respondeu Rui Rio.

Floribundus disse...

a maior dificuldade reside na escolha
do grupo de colaboradores
na selecção e tratamento dos temas

Anónimo disse...

Soares convidou Rio para uma almoçarada, com os merdia a cobrirem, na casa do diácono João Soares. O velho traidor desistiu de tentar manipular Portas, quer agora, através do Pacheco da Marmeleira, tentar esventrar a laranjada.

Contos de um manipulador tuga.
by Rui Mateus.

Anónimo disse...

"Deixai Vir A Mim Os Pequeninos..."
Carlucci,perdão,digo Cristo


O Soares controla toda a máfia xuxa,incluindo a da imprensa.
O velho Padrinho une todos os tentáculos da Cosa.

Anónimo disse...

Concordo em absoluto com um jornal desse tipo, nem que seja para ver no PC, para ler o que se passa dentro do País sem depender dos ditos de "referência mentirosa".

Alexandre

Anónimo disse...

Mas os leitores e afins não preferem outro tipo de jornal ??
http://m.expresso.sapo.pt/inicio/modal/destaques/artigo/844526

Lura do Grilo disse...

Concordo igualmente com esse jornal. Tanto mais que a Rádio Renascença entrou numa fase deplorável de imitadora de fantochadas das outras rádios: é um caso perdido.

Anónimo disse...

O grupo intereconomia de Júlio Ariza não é exemplo para ninguém; Portugal já tem fariseus suficientes, não é necessário que apareçam mais.

A Renascença que faça bem o seu trabalho - neste momento ainda não faz. D. Manuel Clemente que a discipline e relembre as principais linhas vectoriais que devem ser seguidas.

Anónimo disse...

Espero, com entusiasmo, por tal.

Antonio Cristovao disse...

fico espantado como a dicotomoa esquerda/direita ainda anima tanta gente!. deve ser de já ser velho demais e ter andado nessas disputas já há mais de 40 anos e ter visto no que deu.Uma perca de tempo pois é folclore só folclore. esquerda/direita? de certeza ?

Anónimo disse...

A dicotomia esquerda/direita é realmente um equívoco, uma visão retrógrada da História que nos bloqueia a percepção do presente e qualquer avaliação prospectiva.
Quanto a jornal democrata-cristão, se a Igreja fosse democrata-cristã (que não é, porque ainda é qualquer coisa do tipo neo-miguelista) o problema não seria problema. Isto porque, de acordo com os registos, a maioria dos jornais portugueses pertence a organismos da Igreja, sobretudo a paróquias. Porém, como é do seu tom, em cada concelho o respectivo jornal eclesiástico é conivente com o poder municipal instituído, seja lá de que partido for, porque é a autarquia que o sustenta de publicidade e que apoia todas as obras paroquiais.
Temos o que merecemos, caro ABC. Por muito que isso nos custe, acredito até que os portugueses talvez estejam a sofrer uma crise mais branda do que aquilo que mereciam, pela sua incompetência, egoísmo e canalhice.