terça-feira, 22 de janeiro de 2019

A transparência do novo Brasil e a opacidade do regime português: o caso das dívidas aos bancos públicos



No Brasil, mal tomou posse, o novo governo de Jair Bolsonaro mandou publicar a lista dos 50 maiores devedores do banco público de investimento BNDES; em Portugal, o governo de António Costa, com apoio do Bloco de Esquerda e do PC, escondeu a informação sobre os grandes devedortes da CGDe teve de ser uma comentadora televisiva, Joana Amaral Dias  (JAD), a assobiar essa lista preliminar, ontem, 21-1-2019.

A lista de dívidas à CGD envergonha os administradores, todos, que participaram nas decisões de crédito - e não apenas, o dono do pelouro de crédito, o vice Armando Vara, e o presidente Carlos Santos Ferreira -, e os que sabendo dessas decisões absurdas não falaram nem se demitiram, e os governos que os nomearam e mantiveram, sejam do PS, do PSD e do CDS. O realce maior deve ser assinalado ao empréstimo e participação no capital do banco público ao resort de luxo Vale de Lobo, para a vigarice de um projeto de construção de uma ilha artificial no oceano Atlântico (!) e para o financiamento corrupto do take-over socratino do BCP.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

A agonia da verdade

—Excelencia, cree usted en Dios?
Torrente Ballester, Gonzalo (1989). Crónica del rey pasmado. P. 79.


No dia 23 de dezembro de 2018,  a jornalista Marta Leite Ferreira, com Raquel Martins, publicou, no Observador, o artigo «As respostas às questões difíceis sobre o Natal (mesmo as mais inconvenientes)». Para esta peça, foi entrevistado o conhecido padre Anselmo Borges e o novo dispo do Porto, D. Manuel Linda, que responderam à questão: «e como pode Jesus ser filho de uma virgem?».

Fac-simile do excerto original do artigo «As respostas às questões difíceis sobre o Natal», Observador, 23-12-2018 (blogue Dogma da Fé, 25-12-2018)

O artigo suscitou confusão e perplexidade nos meios católicos, e teve reverberação internacional: em castelhano, inglês, francês, italiano, alemão... O artigo imputava ao padre doutor Anselmo Borges e ao bispo D. Manuel Linda a posição de que «Jesus Cristo não é filho de uma mulher virgem e foi concebido por Maria e José “como outra criança qualquer”». Se a posição dessacralizante do padre filósofo Anselmo Borges não surpreendeu, as declarações de D. Manuel Linda provocaram escândalo, especialmente pela citação do bispo do Porto de que «nunca devemos referir a virgindade física de Virgem Maria». D. Manuel Linda explicava a sua interpretação ao mencionar que a condição de «donzela», mencionada à mãe do Salvador no Antigo Testamento, era «apenas uma referência à devoção plena dessa mulher a Deus», concluindo que «o que importa é a plena doação». E o bispo do Porto concretizava a sua doutrina da virgindade como «plena devoção a Deus» em detrimento do hímen intacto, pois, na sua graduação, «há com certeza mulheres com o hímen rompido que são mais virgens no sentido da plena devoção a Deus do que algumas com o hímen intacto».

O Núncio Apostólico em Portugal, D. Rino Passigato, viu-se forçado a intervir. E, em resposta a contacto da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), o núncio terá respondido, em 24-12-2018, por mail assinado «+RP», conforme fac-simile publicado na página oficial do Facebook desta organização integrista -



- que «D. Manuel Linda nega ter dito o que se lhe atribui» e que no dia seguinte, na missa de Natal, transmitida pela Rádio Renascença, «proclamará a sua adesão total à fé da Igreja sobre a virgindade de Nossa Senhora». Isto é, D. Manuel Linda teria de abjurar a doutrina apresentada nas suas declarações, proclamando «a sua total adesão à fé da Igreja»... Um puxão de orelhas ao bispo do Porto e a penitência pública de corrigir uma doutrina herética: a não virgindade física de Nossa Senhora.

E, no dia de Natal, na missa na Sé do Porto, que a Renascença transmitiu, D. Manuel Linda, na homilia que dedicou às virtudes teologais, lá enxertou a fórmula canónica do prometido credo:
«Evidentemente, não haveria Natal sem a Virgem Santa Maria, Aquela que, de acordo com a fé da Igreja - que é também a minha fé! -, é proclamada “virgem antes, durante e depois do parto”, de maneira expressa a partir do Sínodo de Milão (ano 390), ou “Mater intacta”, como dizemos na ladainha. Saudámo-la e agradecemos-lhe profundamente o seu insubstituível contributo para a história da nossa salvação.» (Grosso meu)
Um bispo português D. Manuel Linda a ter de asseverar que a fé da Igreja é também a sua fé!...

Porém, na tarde de 26-12-2018, o Observador corrige o artigo, justificando:
«Este texto foi alterado às 15h do dia 26 de dezembro de 2018 para clarificar a posição do bispo do Porto, D. Manuel Linda, relativamente ao dogma da virgindade perpétua de Maria. O Observador pede desculpas ao bispo e aos leitores.»
O texto original do artigo do Observador, foi emendado nas declarações de D. Manuel Linda em dois excertos. No primeiro, onde em 23-12-2018 estava:
«Jesus não é filho de uma mulher virgem, explicam quer o padre Anselmo Borges quer o bispo D. Manuel Linda. Ele foi concebido por Maria e José como qualquer outra pessoa e é “verdadeiramente homem”. A virgindade só é associada a Maria como metáfora para provar que Jesus era uma pessoa muito especial.»
Aparece agora:
«Na perspetiva do padre Anselmo Borges, Jesus Cristo não é filho de uma mulher virgem e foi concebido por Maria e José “como outra criança qualquer”. A virgindade de Maria é, na opinião deste sacerdote, uma forma de mostrar que Jesus era uma pessoa especial.»
Então, a ideia de que Jesus não é filho de mulher virgem e que foi concebido como qualquer outra pessoa - presume-se que através de cópula de José e Maria - é atribuída apenas ao padre Anselmo Borges. A «metáfora» da virgindade de Maria - que até tinha justificado um artigo de resposta do biblista Isaías Hipólito, em 26-12-2018, «A virgem Maria para além da metáfora» - também desaparece e ficamos sem saber quem foi o autor da figura de estilo, pois não é crível que a jornalista se aventurasse à hermenêutica.

O artigo do Observador também foi modificado num segundo excerto. Onde antes se lia:
«Apesar destas palavras, o bispo do Porto refere ao Observador que "nunca devemos referir a virgindade física de Virgem Maria"»
Vê-se depois de 26-12-2018:
«Já o bispo do Porto, D. Manuel Linda, sem negar o dogma da virgindade perpétua de Maria proclamado pela doutrina da Igreja Católica, refere ao Observador que “nunca devemos referir a virgindade física da Virgem Maria”».
Foi inserido: «D. Manuel Linda, sem negar o dogma da virgindade perpétua de Maria proclamado pela doutrina da Igreja Católica». Mas a expressão pespegada torna a frase inintelegível: D. Manuel Linda não nega o que nega?...

Entretanto, o prelado contactou o Observador, e declarou que crê na «virgindade física e plena de Maria».

Em 27-12-2018, o Observador traz um artigo crítico sobre a polémica: «A virgindade de Maria e o bispo do Porto», da autoria de Miguel Pinheiro, Marta Leite Ferreira e João Francisco Gomes, onde D. Manuel procura explicar a sua doutrina sobre a virgindade de Maria: «a virgindade não é só física, mas ninguém exclui a virgindade física».

Para terminar com a polémica do diz-que-não-disse, perguntei à jornalista Marta Leite Ferreira se tinha audio da entrevista (que presumo telefónica) a D. Manuel Linda, que o publicasse, pois assim se esclareceria a polémica. Insisti, mas não obtive resposta. Todavia, como o jornal manteve as citações no artigo emendado, é crível que esse audio exista. Seria útil que fosse publicada a gravação e transcrita a entrevista ipsis verbis.

Apesar do desmentido do bispo, incoerente com o que as citações que o Observador conservou da entrevista de 23-12-2018 -  «não deve referir-se a virgindade física» e o gradualismo da virgindade -, D. Manuel Linda tinha feito, ao jornalista João Francisco Gomes, do Observador, em 17-3-2018, no dia em que tomou posse, declarações, a propósito da recomendação de abstinência sexual aos católicos divorciados recasados na nota pastoral do cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, sobre a encíclica Amoris Laetitia, na mesma linha de contestação doutrinária:
«Mas, de facto, para ser sincero, sei que há alguns casais recasados, que já tinham vivido em matrimónio canónico e que depois refizeram a sua vida e estão noutro casamento já não canónico, que por motivos de fé e da sua convicção interior e de consciência, de facto vivem em abstinência sexual. Mas temos de nos perguntar: isso é mesmo família? Estou convencido de que não é bem família.»
Se, na opinião de D. Manuel Linda, um casal em abstinência sexual «não é bem família», a Sagrada Família de José e Maria seria... uma família? Ou, o que concluir então sobre a conceção de Jesus Cristo? Para quem analisa as suas declarações equívocas, D. Manuel Linda parece seguir, de modo nuancé, a linha do bispo Bonoso, de Elvídio e de Joviniano, de descrença da virgindade de Maria.

A neo-tardo-doutrina herética da Encarnação tem mais adeptos no clero do que se pensa e manifesta-se do ambão do Evangelho ao povo perplexo, em consonância com a livre interpretação dos dogmas, a eliminação do Diabo, a evaporação do Inferno, a abolição do milagre, a desconstrução do pecado, a negação das palavras incómodas das Escrituras. Um cherry picking de relativismo. Um obsoleto pós-modernismo, de pendor baumaniano, resignado ao caráter líquido de valores, instituições (a própria Igreja...) e relações. Um ateísmo de redução da Fé a uma pastoral de auto-ajuda, em que o padre negligencia a sua missão de cura das almas para se desviar para a função de gestor operacional de instituições de educação, assistência aos idosos e aos carenciados, para as quais não tem preparação técnica. Um marxismo que confina a religião ao beco da economia - paradoxalmente num mundo onde a pobreza extrema diminuíu 1.295 milhões de pessoas entre 1990 (2 mil milhões) e 2015 (705 milhões), o que correspondia a 9,7% da população do globo em 2015, e onde a classe média, enterrada em dívidas da casa, do carro, da educação dos filhos, se fatiga em trabalho extraordinário perante uma classe de desocupados que vivem de subsídios do Estado e têm um nível económico de vida superior -, recriminando a liberdade económica e louvando a opressora igualdade socialista, ao mesmo tempo que se aggiorna na liberalização dos costumes. Um elitismo de desprezo íntimo pelo povo humilde e sua crença plena, repulsor dos pobres de espírito (contudo donos do reino dos Céus...), mas de profissão marxista na teologia da libertação pseudo-redentora dos pobres materiais, que tem alienado milhões de católicos na América Latina e em África, para o protestantismo e a sua teologia da prosperidade. Uma preferência pelo diálogo intelectual de concordância com o politicamente correto e a ideologia de género, em vez do proselitismo da Doutrina. Uma profanação de Cristo, humilhado à dimensão histórica de um líder social, proponente de uma ética sem moral, positivista, de customização certificada. Uma rejeição do sobrenatural, dessacralizadora da fé, tornada simples esperança, com repúdio da intervenção direta e concreta de Deus na vida de cada um. Paralelamente, a limitação da prédica à igreja e do atendimento à sacristia, a supressão da bênção, a abstenção de combate cultural contra os cultos profanos, contra a maçonaria e contra os novos bezerros de ouro que afastam os jovens e adultos da verdadeira fé, a conformação do discurso com os valores não-cristãos e a promiscuidade com o poder político.

D. Manuel Linda, professor de Teologia, autor de tese de doutoramento em Teologia sobre um seu antecessor «Andragonia política em D. António Ferreira Gomes», parece ter um especial gosto por apresentar posições controversas. Tinha sido também envolvido em polémica, em 2014, aquando da nomeação, em substituição de D. Januário Torgal Ferreira, para bispo das Forças Armadas, numa inabitual discussão pública de patentes e salários. Nomeado bispo do Porto em 17-3-2018, na referida entrevista a João Francisco Gomes do Observador, onde diz que um casal em abstinência sexual «não é bem família», confessa-se fã do Papa Francisco «a 200%» e refere, inusitadamente, que «há uma série de indícios em que noto que o Papa estava muito interessado, de forma pessoal, personalizada, no meu nome» e que «quando assim acontece, a um amigo» (sic) «não se pode dizer que não». Ainda nessa entrevista ao Observador, de 17-3-2018, manifesta-se «"absolutamente contra" o aborto e a eutanásia», mas acautela que «não vai passar o seu tempo “na praça pública” a denunciar propostas que choquem com a doutrina da Igreja, preferindo propor a doutrina “a quem a queira ouvir”» e à jornalista Ângela Roque da Rádio Renascença, em 15-3-2018, promete exercer o seu múnus «com simplicidade». Merece ainda relevo a sua crítica do «excesso de desenvolvimento tecnológico» ou da «panela do neoliberalismo» do «género escola de Los Angeles» (sic) - em entrevista ao Correio do Minho, de 26-5-2012, quando era bispo auxiliar de Braga. Ou um meta-ecumenismo com igualização das crenças, num artigo D. António Ferreira Gomes e a discussão sobre a guerra colonial» (Humanística e Teologia 24 (2003) 111-123), com referência, à «paternidade divina, seja qual for aforma de O nomear». Tal como D. Manuel Linda escreveu, no semanário da agência Ecclesia, em crónica de 17-11-2017, que ilustra o seu estilo, dirigida aos «artistas deste circo de vaidades» (os lefebrianos), pede-se a todos, ainda mais neste «tempo periclitante no campo da fé», que «Deus nos dê juizinho até à hora da morte», «ou, no mínimo respeito pela Igreja»...

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Em louvor de Catalina Pestana

«Um pensamiento en tres estrofas» No son los muertos los que en dulce calmaLa paz disfrutan de su tumba fria,Muertos son los que tienen muerta el almaY viven todavia. No son los muertos, no, los que recibenRayos de luz en sus despojos yertos.Los que mueren con honra son los vivos,Los que viven sin honra son los muertos. La vida no es la vida que vivimos,La vida en el honor, es el recuerdo.Por eso hay muertos que en el mundo viven,Y hombres que viven en el mundo muertos.
Antonio Muñoz Feijoo (poeta colombiano, 1851-1890).


Faleceu este sábado, Catalina Pestana, a heróica provedora da Casa Pia de Lisboa. A Dra. Catalina dedicou a vida ao serviço dos outros. Mulher autêntica de convicão e consequência, empenhou-se até à medula nas causas políticas e sociais em que acreditava.

No final de 2002, imediatamente após a difusão da ponta do longo novelo de abuso sexual de crianças da Casa Pia, que corrompeu a instituição até ao topo, foi nomeada provedora da Casa Pia. Esperava o poder que a sua firmeza, e proximidade ideológica ao Partido Socialista, abafasse o escândalo e o contivesse nas paredes da instituição, protegendo o nível político, maçónico e pseudo-filantrópico. Contudo, Catalina percebeu rapidamente pelos relatos das crianças, que se tratava de uma rede pedófila que envolvia os mais altos escalões do poder, as suas taras e os seus crimes, no abuso de meninos heterossexuais da instituição criada para proteger os órfãos, lhes rasgava a inocência e lhes destruía a vida. Face a patéticos protestos de inocência, pediu exames nunca feitos, e perante conselhos de encobrimento, manteve-se à frente das crianças abusadas, constituindo a sua muralha defronte às ameaças, aos dardos mediáticos e aos conselhos do poder. Não teve problema na veiculação das denúncias dos meninos de figuras do máximo relevo do Partido Socialista, da Maçonaria e dos média, pois acima da relação política estava a defesa dos órfãos, a exposição da verdade e o serviço do povo. Sofreu sob essa terrível pressão política, um acidente vascular cerebral, mas continuou sem medo, e até ao fim, na vanguarda da proteção dos menores abusados, na denúncia dos factos perante a polícia e os tribunais. Acabou por ser substituída no cargo de provedora da Casa Pia pelo poder socialista que ousou confrontar, mas continuou na causa de defesa das crianças em risco e sujeitas a abusos e maus-tratos ao fundar a Rede de Cuidadores.

Teve neste combate contra a rede pedófila que controlava o Estado - desde logo a Casa Pia, instituição estatal - a colaboração de patriotas e o apoio popular. Mas a libertação dos meninos da Casa Pia do jugo dos poderosos, e a limpeza parcial e temporária do Estado dos tarados criminosos abusadores de meninos, não teriam sido possíveis sem a sua liderança.

Conheci-a vários meses depois de ter iniciado neste blogue a luta contra a rede pedófila de controlo do Estado - não todo, nem sempre, mas uma parte e durante dezenas de anos. Quis consultá-la sobre um assunto porque sempre tive o maior escrúpulo na verificação dos factos alegados, relativamente a um excelso figurão da praça, esse abusador de meninas, que conseguia passar pelos pingos da chuva do escândalo, mediante o pagamento de alguns milhares de euros a uma das vitimas, a quem disse que não se queixasse pois tinha tido o privilégio ter de ter passado pelas suas mãos... Recebeu-me imediatamente, confirmou o relato da vítima e descansou-me na análise. Foi minha testemunha em processos judiciais de que fui alvo por veicular os relatos oficiais dos jovens e a interpretação dos crimes alegados, e de que saí honrado. Colaborei, com outros patriotas, nessa luta de denúncia de abusos e limpeza do Estado, com sacrifício pessoal, familiar, profissional e público. Sem meios, sem dinheiro, sem ligações institucionais ou políticas, e contra a máquina horrível do poder político, maçónico, mediático e económico, conseguimos o sucesso que beneficiou os órfãos e limpou temporariamente o Estado. Outros coisas de consequência fizemos, que não interessa revelar. O efeito pessoal foi que deixámos de ter vida pública, perdemos as ilusões políticas, e arrostámos a perseguição da rede pedófila e dos seus lacaios. Fomos, afinal, no corolário de tanto trabalho e risco, apenas servos inúteis. Mas servimos o bem, servimos o povo humilde, servimos Deus misericordioso, servimos a Pátria ingrata. Não esperávamos outra paga, nem menos sacrifício.

Apesar de, como salientaram Pedro Namora e Felícia Cabrita, não ter tido o reconhecimento devido por parte do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que, ao contrário do que usa em qualquer fait divers, se eximiu de comparecer pessoalmente nas exéquias na igreja da Cruz Quebrada, curvando-se perante o seu serviço humano e patriótico, nem do Governo de António Costa, companheiro da fação ferrosa atingida, que ignorou o seu passamento para o Paraíso que pedimos a Deus que lhe abra, Catalina Pestana permanecerá como exemplo de heroísmo no bom combate que a vida exige. Condolências à sua família e amigos, louvor ao seu serviço cristão e paz à sua alma. Catalina vive!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Vida



Celebramos na vida, que é eterna, a vitória sobre a morte. A morte é um episódio na existência que perdura. Os mortos não morrem, transitam para um estado de graça e redenção, de onde velam por nós. Ficam em espírito connosco e acompanham a nossa penitência em busca do perdão que liberta e pacifica.

No prazer e no conforto pouco espaço parece restar para Deus. Contudo, Deus acolhe a nossa angústia e mantém-se disponível para ouvir a nossa oração.

Não há maior pobreza, diz o povo, do que a pobreza de espírito. A pobreza não é apenas material - nobre e redentora. A sociedade cada vez menos pobre materialmente: de 1990 a 2015, a pobreza extrema no mundo reduziu-se de 2 mil milhões para 705 milhões. Mas a pobreza espiritual parece crescer. E não há quem dê conta dessa pobreza espiritual, desorientada a própria Igreja no labirinto ideológico do marxismo, do relativismo e do ateísmo, que ensarilhou o Ocidente. 

Criados para a eternidade, à imagem e semelhança de Deus, caímos no prazer efémero e sucumbimos à comodidade. Perdemos a noção de absoluto, que julgamos atingir nos ápices de euforia. Tudo é relativo, menos o relativismo. Esforçamo-nos e torcemo-nos para a alegria do instante, como se o fugaz fosse duradouro. E sujeitamo-nos à conveniente aparência, como se a forma importasse mais do que a substância do coração.

Nesta transição, voltamos-nos para Deus e Sua Mãe. Na mãe, a nossa e de todos, sofrida e caridosa, encontramos esse milagre da vida que opera o Amor e concede o perdão. Deus nos abençoe para o ano decisivo que nos convoca!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Segredos de justiça há muitos!...

O Conselho Superior de Magistratura já abriu algum processo de averiguações sobre eventual profanação do segredo de justiça e da obrigação de reserva face a esta notícia do Expresso, de 15-12-2018, que atinge o juiz Carlos Alexandre?
«Ivo Rosa, o juiz responsável pela fase de instrução do processo em que está também acusado o ex-primeiro José Sócrates, tem estado a recolher elementos para apurar até que ponto pode ter algum fundamento a tese de que Carlos Alexandre ficou como juiz de instrução ao longo da investigação do caso em resultado de uma alegada manipulação na forma como os processos-crime foram distribuídos em setembro de 2014, quando o TCIC passou a ter dois juízes em vez de apenas um.»


Limitação de responsabilidade (disclaimer): As personalidades objeto das notícias dos média, que comento, não são arguidas de qualquer ilegalidade ou irregularidade. E, quando na situação de arguidas, gozam do direito constitucional à presunção de inocência até ao trânsito em julgado de eventual sentença condenatória.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Testa di Ferro


Era filho de Carlos II de Sabóia e de Beatriz de Portugal (filha de D. Manuel I).  


Recomendo a leitura da resenha da imprensa feita pelo José, na Porta da Loja, no poste «José Sócrates e o homem do saco», de 1-12-2018, com especial destaque para a reportagem de Felícia Cabrita no Sol, de 1-12-2018, «Casa onde Sócrates vive na Ericeira era de magnata angolano». Sócrates que, entretanto, em declaração à SIC, em 30-11-2018, se (não) explicou sobre o dito apartamento propriedade do seu «primo muito querido» chargé d'affaires José Paulo Bernardo Pinto de Sousa, dito o seu testa de ferro, recuado em Benguela, até o governo de António Costa solicitar a cooperação judicial angolana ao presidente João Lourenço.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Os duzentos milhões de euros do primo Bernardo e a vida de luxo de Sócrates


Do Parque das Nações, em Lisboa, José Sócrates mudou-se para um apartamento de luxo, na Ericeira, noticiou o CM, em 2-12-2018.

Porém, como quase tudo com o engenheiro falso, quando se cava terra, em vez delegumes, descobre-se a minhoca. Como no seu amigo Lula, a explicação vem num samba de um nota só: não é nada meu... Sócrates tem o vício de não se privar de nada.

O apartamento frente ao mar, onde Sócrates agora vive, com várias suites e jacuzzi, terá sido comprado há pouco mais de um mês, em 16-10-2018, alegadamente por 431 mil euros, num esquema sinuoso de dação em pagamento de uma alegada dívida, pelo primo Bernardo, José Paulo Bernardo Pinto de Sousa. Bernardo aka «o Gordo» do «Pinóquio», há dezenas de anos testa de ferro de «o Chefe», o homem dos cheques (encontrados em Coruche), da Mecaso, holding imobiliária da família, e da Calçoeme. Empresas que se cruzam numa teia interminável: à Sovenco, de 1989, com Armando Vara; ao aterro da Cova da Beira, com o seu compincha António Morais, o amigo Carlos Santos SilvaHorácio Luís de Brito Carvalho (da HLC do Siresp, que António Costa, então ministro da Administração Interna, renegociou em 2016), recuado em Inglaterra onde liderou a HLC Environmental Holdings Limited, falida em 2012, mas que desenvolveu meganegócios na área da energia e do  ambiente no Brasil no tempo de Lula; e muitos mais que neste poste, por economia de tempo, me dispenso de citar.

Alegadamente, segundo a revista Sábado, de 26-5-2018, o primo Bernardo administra uma fortuna de mais de duzentos milhões, conforme documentação enviada pela Union des Banques Suisses à investigação do processo Marquês. Bernardo, que é arguido do processo Marquês, está recuado em Angola, mas também circula pelo Brasil.

Estou plenamente convicto de que a nova situação de Angola, onde o presidente João Lourenço precisa de ajuda das autoridades portuguesas para recuperar o dinheiro desviado do Estado por cliques ligadas ao poder na anterior presidência, colaborará rapidamente com o Governo português, caso o primeiro-ministro António Costa queira, e peça ajuda na resposta na eventual comparência do primo Bernardo perante a justiça portuguesa. Tal como no caso de Hélder Bataglia, «o Viajante», outro familiar de Sócrates, que apesar do mandado de captura internacional, alegadamente, se passeava de barco no Mediterrâneo, sem ser detido em portos espanhóis onde beneficiava da proteção do Cesid, a secreta espanhola, por causa de negócios de armamento que terá intermediado...

Creio ainda que o novo Brasil, do presidente Jair Bolsonaro, já não pode ser usado como lugar de recuo por foragidos à justiça. Da mesma forma que a nova administração brasileira, com o heróico Sérgio Moro na Justiça, certamente estará interessada na responsabilização criminal e eventual extradição de Duarte Lima, outro amigo de José Sócrates, a quem, alegadamente, terá vendido a magnífica Quinta dos Muros Altos, em Janas, Sintra, que denunciei, neste meu blogue. em abril de 2005, e que terá ficado em nome de uma offshore (Airlie Holdings) do testa-de-ferro Bernardo e que se mantém no círculo socratino.

Basta António Costa, líder do Governo e do PS, querer. Ou Costa tem medo que o canário cante, para não cair sozinho, como consta que terá ameaçado em conversa com Mário Soares, na prisão de Évora?...


Limitação de responsabilidade (disclaimer): As personalidades objeto das notícias dos média, que comento, não são arguidas de qualquer ilegalidade ou irregularidade, para além dos casos em que sejam.. E, quando na situação de arguidas, gozam do direito constitucional à presunção de inocência até ao trânsito em julgado de eventual sentença condenatória.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O regresso ao admirável mundo novo do eugenismo

          ”How beauteous mankind is! O brave new world...”

                                                  Huxley, Aldous Leonard (1932). Brave new world. Cap. XVs.


Os primeiros bebés geneticamente modificados terão nascido este mês na China, por intervenção de uma equipa da Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul, de Chenzen, liderada pelo investigador He Jiankui, e que integrou também o norte-mericano Michael Deem da Rice University, noticiou o LifeSite News, em 26-11-2018. São duas gémeas, com um gene alterado, na fase do embrião, para resistir à sida, à varíola e à cólera, o que vai valer também para a sua possível descendência. Estamos mais próximo dos “designer babies”, bebés personalizados à vontade do freguês. O que vale é que a esquerda só se preocupa com as plantas modificadas: o homem não é um OGM...

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

O Conselho Superior de Magistratura e o jogo das reservas


Esta notícia do Expresso, de 26-11-2018 (acesso pago), referida pelo Observador, de ontem, refere, justifica alguns comentários:
  1. O título da notícia, que o José da Porta da Loja também comenta, é significativo: «Carlos Alexandre não convence Conselho Superior de Magistratura a evitar processo disciplinar». Denota uma inversão a priori da presunção de inocência: como se o juiz fosse considerado culpado ainda antes do inquérito disciplinar e lhe coubesse convencer «o Conselho Superior de Magistratura» a «evitar processo disciplinar»!... Porém, não é ao titular da acção disciplinar (o Conselho Superior de Magistratura) que cabe o ónus da prova dos factos constitutivos da alegada infração imputada ao juiz?...
  2. O juiz recusou-se sempre a comentar o processo Marquês ou qualquer outro em curso. Mas o entendimento do Conselho transmitido ao Expresso é de que a sua resposta abstrata à pergunta insistente do jornalista José Ramos e Ramos, maçon do Grande Oriente Lusitano, foi interpretada «como se o juiz estivesse a pôr em causa o sorteio para a fase de instrução da Operação Marquês»!... Nem o juiz falou do processo Marquês, nem questionou a regularidade dos sorteios judiciais, mas apenas, por insistência do jornalista, na possibilidade teórica de redução da aleatoriedade do sorteio judicial pela carga e marcha de processos.
  3. A notícia refere, provavelmente citando a fonte anónima do Conselho Superior de Magistratura (CSM) que o juiz Carlos Alexandre «pode ter como pena uma advertência ou suspensão do Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC)». Não interessa, então, a maçada das diligências do processo disciplinar, se o seu resultado parece previamente determinado: pena de advertência ou suspensão do TCIC... 
  4. Parece ainda que o dever de reserva, de que se imputa ao juiz ter violado, só a ele se aplica: o juiz não pode falar, mas o vice-presidente do Conselho Superior de Magistratura, conselheiro Mário Belo Morgado, maçon do Grande Oriente Lusitano, já pode, inclusivamente pronunciar-se sobre o perfil do juiz Carlos Alexandre; bem como à fonte anónima da notícia indicar uma presunção de culpabilidade e a previsão de uma sentença, antes de o processo disciplinar ter sequer começado... Há reservas de primeira e reservas de segunda.
  5. Mais ainda, ao vice-presidente do CSM, conselheiro Mário Belo Morgado, pela posição que ocupa, não compete também o dever de reserva, abstendo-se de se pronunciar sobre a matéria do inquérito disciplinar ao juiz Carlos Alexandre, como fez em entrevista ao Observador, em 31-10-2018, um inquérito disciplinar que ele mesmo determinou horas antes da entrevista do juiz Carlos Alexandre ter passado na RTP?
  6. E não incumbe ao vice-presidente do CSM, órgão que decide sobre o movimento dos juízes e os destina aos postos que ocupam, evitar as referências pessoais aos «perfis tão marcadamente opostos» dos juízes Carlos Alexandre e Ivo Rosa, à «perplexidade» que geram ou à sanidade do TCIC?
  7. A propósito: não deve o vice-presidente do Conselho de Magistratura, conselheiro Mário Belo Morgado, respeitar a competência dos legisladores, em vez de se pronunciar sobre o quadro de juízes do TCIC, metendo a sua foice numa seara que não é sua?
  8. Aproximam-se as eleições para o Conselho Superior de Magistratura, orgão de competência administrativa e disciplinar dos juízes, composto pelo Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, por magistrados eleitos pelos pares (7) e juristas indicados pela Assembleia da República (7) e Presidente da República (2). Apesar disso, é útil que o órgão volte ao recato que lhe convém e evite qualquer leitura menos azada sobre o processo Marquês.

O juiz Carlos Alexandre é um herói nacional pela coragem nos inquéritos e instrução de processos de corrupção de Estado e alta criminalidade. O seu trabalho de rigor no TCIC, com sacrifício da vida pessoal e familiar, ao serviço da Pátria, que é mãe e também costuma ser madrasta, deve ser respeitado e louvado. No Estado de direito, como este se quer, não é admissível nenhuma conjectura de que os incómodos que o juiz Carlos Alexandre sofre derivam da sua resistência aos recados para que abdique do chão do TCIC e se arrume numa prateleira.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Brasil versus Portugal

Baum, L. Frank e Denslow, W.W. (ilustração) (1900). The wonderful wizard of Oz. 


A conduta da juíza Gabriela Hardt no depoimento do ex-presidente Lula, em 14-11-2018, é um exemplo de como a justiça portuguesa deve tratar os arguidos poderosos: sem cobardia, sem subserviência, sem desigualdade face aos demais cidadãos, sem deixar «tumultuar» a audiência. Devia ser de estudo obrigatório no Centro de Estudos Judiciários (CEJ) e no Conselho Superior de Magistratura (CSM).


* Ilustração picada daqui.

domingo, 25 de novembro de 2018

A vara da justiça

Se o socialista Armando Vara, condenado a cinco anos de prisão efetiva por três crimes de tráfico de influência, no processo Face Oculta, que começou em 2009, e arguido no processo Marquês, se refugiar numa Hammamet qualquer (que o Brasil, para onde a correlegionária Fátima Felgueiras Felgueiras fugiu, não dá...), por benefício de um adiamento excecional de cumprimento da pena, o Conselho Superior de Magistratura será responsabilizado pelo povo.

sábado, 24 de novembro de 2018

O politicamente correto é um tigre de papel


A.B.C., conferência do Prof. Jordan B. Peterson, na FEUNova,
Carcavelos, 15-11-2018.


O combate cultural à ideologia do politicamente correto é viável. Contudo, é ainda prematuro criar um movimento político: este regime em falência cardíaca e respiração assistida da União Europeia, moribundo num docel de mofo, cheio de escaras de ócio, a gangrena da ideologia do género a corroer-lhes os membros, estrebuchando num delírio incompreensível, agoniza mas ainda dura porque o povo ocupado ainda consegue suportar o fedor pestilento que exala.

A mudança política democrática exige uma mudança cultural, com afirmação corajosa dos valores, paralela à denúncia da corrupção. Para tanto, é fundamental criar um jornal digital, economicamente autónomo, sem promiscuidade com o poder nem concessões ao politicamente correto.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

O rigor da entrevista do juiz Carlos Alexandre à RTP




Alinho, neste poste, alguns factos sobre a entrevista do Dr. Carlos Alexandre ao jornalista José Ramos e Ramos (maçon da loja Bontempo) que a RTP-1, passou em 17-10-2018, no programa Linha da Frente, e que motivou a abertura, horas depois, de um inquérito disciplinar ao juiz, pelo vice-presidente do Conselho Superior de Magistratura, Dr. Mário Belo Morgado, ainda antes de qualquer conclusão sobre a aleatoriedade da distribuição de processos no Tribunal Central de Investigação Criminal (TCIC).
  1. Por ocasião de uma reportagem da RTP-1, no programa Linha da Frente, da RTP, sobre a poluição no rio Tejo, onde também se referiu a tragédia dos incêndios de 2017 que atingiram Mação, o jornalista José Ramos e Ramos pediu, em 22 de março de 2018, uma entrevista ao Dr. Carlos Alexandre, que é natural dessa terra e aí tem casa. O jornalista não a pediu ao juiz, que, acredito, jamais a aceitaria, mas ao cidadão Carlos Manuel Lopes Alexandre, com a justificação de uma reportagem sobre ele, de que havia sido encarregado. É, aliás, sintomático da discrição que o juiz Carlos Alexandre preza, que as suas imagens que costumam passar nas televisões a propósito de processos de relevo, o mostrem, não a posar para fotógrafos ou cameramen, mas a fugir de jornalistas e a recusar prestar quaisquer declarações. Creio até o juiz Carlos Alexandre jamais autorizaria o espetáculo da transmissão do sorteio eletrónico do processo Marquês, que passou em direto nos média, como se fosse a lotaria do Natal... 
  2. Essa entrevista de Carlos Alexandre veio a ser concedida em 5 de outubro de 2018, no Alandroal, onde o jornalista Ramos e Ramos o achou, depois de não o encontrar em Mação. Presumo que a gravidade e necessidade de apuramento de responsabilidades nos incêndios de Mação, cujo concelho perdeu 70% (28 mil hectares) da sua floresta e a falta de apoio estatal na reconstrução (60% de financiamento estatal em contraste com outros municípios que beneficiam de 100% de apoio), devem ter sido os motivos porque aceitou em março de 2018 conceder uma entrevista quer veio a realizar-se por vontade urgente do jornalista (e da estação) seis meses depois.
  3. No meio de questões sobre o seu percurso de vida, o jornalista lá enfiou perguntas, recorrentes, sobre a distribuição do processo Marquês, onde o ex-primeiro-ministro José Sócrates está acusado de crimes de corrupção. Apesar de não conseguir arrancar respostas sobre o caso concreto... E, com a reserva que o juiz tem da sua função, com paciência, lá lhe foi explicado como funcionava, em abstrato, o sorteio eletrónico, que dias antes (em 28 de setembro) tinha sido transmitido pelos média, numa première inédita.
  4. Da longa entrevista sobre a sua vida, o jornalista, e suponho os editores da RTP, respigaram e truncaram os excertos que mais lhe interessaram: as duas faltas justificadas que o juiz deu e que incluíram o dia em que o processo Marquês foi distribuído para instrução no TCIC; a forma de distribuição do processo Marquês; a remessa incompleta do processo.
  5. Consta que o juiz solicitou previamente autorização para essas duas raras faltas que num exemplar registo de assiduidade, que não prejudicaram o serviço e que as justificou. Portanto, não parece ter violado o dever profissional.
  6. Também explicou, em abstrato, como funcionava a distribuição eletrónica de processos judiciais e algum critério - como o número de processos de cada juiz em relação aos outros - usado nesse sorteio eletrónico condicionado, sem revelar o algoritmo de distribuição que suponho não conheça. Reconheceu, após pergunta do jornalista, que a aleatoriedade da distribuição dos processos poderia ser condicionada pelo número de processos de cada juiz, o que fez parte da explicação que deu sobre o mecanismo de distribuição.
  7. Evitou sempre referir-se a diligências e incidências de processos, bem como às vicissitudes do inquérito, da acusação, da pronúncia, do julgamento, das sentenças, recursos e acórdãos, mostrando grande compreensão pela autonomia dos intervenientes no processo.
  8. Manifestou-se sereno sobre o desenrolar de uma queixa do ex-primeiro-ministro José Sócrates  sobre a distribuição, feita pela secretaria do tribunal, do inquérito do processo Marquês para a nulidade do inquérito, das provas e do procedimento criminal, manifestando confiança na justiça e não temendo o escrutínio da justiça.
  9. Sobre a orquestrada campanha de extinção do TCIC onde trabalha e tão valioso serviço tem feito ao Estado e ao povo, na área da alta criminalidade, poupou-se a criticar, referindo apenas o caso espanhol de reforço da Audiencia Nacional, com a criação de um tribunal de julgamento para os grandes casos. Tampouco, comentou a entrevista do juiz-presidente do Supremo Tribunal de Justiça, conselheiro Henriques Gaspar que deu uma entrevista ao semanário Expresso, de 15-9-2018 (que estava ainda em função), na qual, entrando na área reservado do poder legislativo e do poder executivo, se pronunciou diretamente pela extinção do TCIC...
  10. E, finalmente, respondeu sobre se aceitaria a instrução de um processo remetido apenas em metade, dizendo, em abstrato, que não. Todavia, na reportagem truncada que passou em antena, o jornalista diz em off, antes da pergunta, que «a distribuição do processo Marquês levantou dúvidas a Carlos Alexandre porque na distribuição eletrónica, alegadamente, só teria sido entregue uma parte do processo», quando o juiz não comentou o caso do processo Marquês. Lembro que veio noticiado na imprensa que o juiz Ivo Rosa teria aceitado a instrução do processo Marquês ainda que, segundo a notícia, o processo lhe tenha sido remetido incompleto pelo DCIAP (faltando 140 caixas).
  11. A longa entrevista de Carlos Alexandre a José Ramos e Ramos foi reduzida a menos de quarto de hora, e truncada, ficando a parecer que o juiz aceitou comentar o processo Marquês em concreto, quando apenas explicou em abstrato como o mecanismo de distribuição de processos funciona, o que, contudo, o CSM deveria fazer ao povo. Tratou-se de uma armadilha, com truncagem do que Carlos Alexandre efetivamente disse e interpretando em discurso indireto o que não disse.

Portanto, em vez de perseguir o juiz pela entrevista à RTP, e cair numa inaceitável desigualdade de tratamento face ao uso da liberdade de expressão de uns magistrados face aos outros, o CSM deve antes louvar Carlos Alexandre pela reserva, pelo rigor e pela modéstia. E explicar ao povo os critérios do algoritmo da distribuição eletrónica de processos judiciais e se pode ser reduzida a sua aletoriedade por decisões dos juízes relativas aos processos previamente distribuídos, e especificamente se isso aconteceu na distribuição do processo Marquês. De outro modo, golpeia-se com uma espada torcida a reputação incólume de um juiz justo e destapa-se a venda da justiça com uma balança desequilibrada por vários pesos e medidas. Importa acudir a Sagunto...

domingo, 11 de novembro de 2018

Pax Mafiosa





A propósito da tentativa de isolamento do juiz Carlos Alexandre, através de escribas e outros identificados, para fazer dele um cadavere eccellente, lembrei-me de um escrito meu aqui neste blogue, datado de 25-5-2012:
«tática usual da Mafia: marcar, sitiar, enfraquecer, isolar e, finalmente, eliminar (ver Stille, Alexander (1995). Excellent Cadavers, Vintage Books, 1995 e ainda o documentário de Marco Turco, «In un Altro Paese», de 2005). Nos anos de chumbo, a Mafia sicialiana nunca atacava alguém que tivesse grande apoio popular porque sabia que, nessa circunstância, seria muito difícil ao poder político proteger os mandantes e os seus interesses. Portanto, planeava, e realizava através de operacionais e antenas, uma campanha de erosão técnica, fundada no garantismo e no lançamento de dúvidas sobre a isenção dos magistrados.
Como tenho dito, até agora (o caso Rosalina Ribeiro é um precedente perigoso), o sistema não mata fisicamente porque o assassínio é impopular em Portugal - embora existam relatos (nos anos roxos e nos anos rosas) de tentativa de atentados através da provocação de acidentes. A eliminação cívica é o padrão. Outra regra é a mudança da própria lei quando os magistrados de primeira linha se mostram irredutíveis e as cúpulas não conseguem demover esses magistrados a contemporizarem com a tecnicalidade ou com a dúvida (ir)razoável - como aconteceu nos casos Nabeiro, Casa Pia e Furacão.
O problema, que o sistema não resolve com prontidão é quando a corda entre o submundo da mafia (em Portugal, financeiro) e o submundo político fica exposta e embaraça esse submundo político: o submundo político não consegue remover a ameaça, pois pode, ele próprio, estrangular-se...»

Alexander Stille, corresponde norte-americano em Itália durante os anos de chumbo escreve no seu livro supra, refere (p. 67) que o juiz Giovanni Falcone «acreditava que a mafia encorajava a difamação das suas vítimas para justificar as suas ações e diminuir a indignação pública sobre os seus assassinatos». Também o prestigiadíssimo general Dalla Chiesa, nomeado prefeito de Palermo com a promessa de plenos poderes nunca concretizados, numa manobra de diversão do poder político corrupto, e que sofreu essa mesma manobra de isolamento e assassínio tal como, anos depois os juízes Falcone e Borsellino, disse, na sua última entrevista, citada por Stille (p. 68), que a mafia mata o opositor poderoso «quando acontece esta fatal combinação: ele tornou-se demasiado perigoso mas pode ser morto porque está isolado». Lembra o ministro da Justiça italiano, Clelio Darida, que recomendou aos magistrados sicialianos que, em vez de tentarem eliminar a mafia, fariam melhor em contê-la dentro dos seus «limites naturais» (p. 76).

Um jornalista italiano conhecedor dos costumes da mafia, Antonino Calderone, citado por Stille (p. 357), explicou que Giovanni Falcone, «foi condenado à morte há muito tempo, mas a sentença não pode ser mais adiada». Também o juiz Carlos Alexandre foi condenado há muito tempo e parece que a sentença não pode ser protelada: o juiz é uma ameaça e o PS nunca teve tanto poder real. Todavia, ao contrário de Falcone, Borselino, Chinnici e outros, a Carlos Alexandre está destinada a lupara bianca, um assassinato cívico sem sangue, que os portugueses não gostam de ver sangue, ainda que tapem o nariz quando votam. Stille, p. 76, citando Ginsborg, Paul, 1990, The history of contemporary Italy, p. 375,  lembra o aforismo do jornalista Indro Montanelli, que, em meados dos anos 1970, aconselhava aos italianos: «tapem o nariz e votem na Democracia Cristã»... Aqui, neste «pântano político», de que Guterres fugiu em dezembro de 2001, no início do caso de abusos sexuais de crianças da Casa Pia, também fede.

O sistema nunca esteve tão forte, como agora. Aqui também mandam gli amici degli amici. Costa é o hábil primeiro-ministro de um Partido Socialista dominado pela fação de ferro e pedra, com apoio fiel do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista. O Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa está atrelado a Costa na caravana da esquerda. O PSD de Rio abdica do combate político e apoia o Governo Socialista, na expetativa de uma migalha de poder que nunca cairá da mesa do banquete; e o CDS continua dominado pelo lóbi homossexual que faz de Assunção Cristas uma líder de palha. Os militares são gozados e enxovalhados pelo poder político. Os média, na miséria financeira, servem o poder, e quando não o fazem são classificados como fascistas, até o Observador, apesar de estar agora reposicionado no centro-esquerda. O casal da ministra Francisca van Dunen e maçon Eduardo Paz Ferreira, fazem de Almeida Santos, antigo controleiro do PS para a justiça. E o poder vai sendo preenchido com raccomandati, evitando ousadias de mérito e independência.

Portanto, a tentação socialista (e dos aliados Bloco e PC) é de acabar com a independência judicial, na linha da nomeação da diretora do Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa, procuradora Fernanda Pêgo, e da nova procuradora-geral Lucília Gago. Como?

  1. Neutralização do juiz Carlos Alexandre, difamando-o e intensificando a perseguição profissional, e logo aumentando o quadro de juízes do Tribunal Central de Investigação Criminal ou extinguindo-o com a passagem das suas competências para o Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa ou para outros tribunais.
  2. Nomeação de um diretor de confiança para o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), para substituir o incómodo Dr. Amadeu Guerra.
O panorama só não assusta, porque já o previmos: Sócrates pronunciado por crimes menores remíveis a multa e pena suspensa, Vara mantendo-se fora das grades, o processo das parcerias público-privadas rodoviárias no lixo, o processo EDP atrofiado (apesar de a heroína Ana Peres ser agora a juíza de instrução), etc, etc.

Cristo é cruxificado hoje! - pregava o padre Lereno na Rádio Renascença de outrora. Vamos andando, diz o povo, coxo, dorido e enojado. E nós quase sem tempo para lutar.


* Imagem picada daqui.


Limitação de responsabilidade (disclaimer): As entidades referidas nas notícias dos media, que comento, não são suspeitas, ou arguidas, do cometimento de qualquer ilegalidade ou irregularidade e quando arguidas, gozam do direito constitucional à presunção de inocência até ao trânsito em julgado de eventual sentença condenatória.