sábado, 6 de outubro de 2012

Pão



Esta manhã, à minha porta, bateu um pedinte. Africano, ainda jovem, humilde. Dei-lhe umas poucas moedas que tinha na carteira. Olhou para o saco transparente de pão que o padeiro, de madrugada, costuma deixar pendurado na grade do postigo e perguntou-me: «e pão?». Dei-lhe o pão todo. Precisava mais dele do que a minha família... É a primeira vez que me pedem pão, mesmo pão, querendo pão. Para lá da miséria para sustentar vícios que desperdiçava oferta de comida e roupas usadas, e dos pedintes profissionais com contas no banco, há de novo fome. Gente com fome que pede pão para comer.

quinto pacote fiscal do Governo PSD-CDS (não sei se estou a contar menos e peço aos leitores que me ajudem no cálculo...) em quinze meses de administração, anunciado em 3-10-2012, pelo ministro das Finanças, Vítor Gaspar (depois do falhanço do quarto pacote, o da diminuição da TSU das empresas à custa da redução dos salários, de 7-9-2012), que «reconhece ser este um «enorme aumento de impostos», culminando «50 medidas de austeridade» impostas aos cidadãos, é apenas mais um no caminho do calvário do Estado socialista português. Um pacote fiscal por trimestre, uma tortura fiscal regular. Puxa-se sucessivamente o garrote aos cidadãos e, quando se crê ter chegado ao limite, somos surpreendidos por novos buracos e mais apertos do cinto estatal. A situação degrada-se ao ritmo argentino de 2001, com a progressiva eliminação da classe média e o esmagamento da classe baixa trabalhadora; caminhamos para um estallido. As classes médias e baixas não conseguem suportar a descida dos rendimentos e a subida dos i-erre-esses e imis, o pagamento das prestações, a escola e a universidade dos filhos, o custo dos transportes. E sabem que depois deste pacote outro se seguirá, num ritmo trimestral de decadência. Que não parará proximamente, ao contrário do que prometeu, em 4-10-2012, o ministro Vítor Gaspar, no Parlamento:  a «troika sairá de Portugal em Junho de 2014». Aliás, o problema prioritário do Estado deixou de ser a dívida para passar a ser o défice: não é possível reduzir a dívida se nem sequer conseguimos reduzir o défice...

A incompetência manifesta deveria obrigar à demissão do Governo. Mas os próprios não querem demitir-se porque ainda há negócios que podem arbitrar e quanto mais durarem no poder mais ganham. O Presidente não demite o Governo, adotando uma solução Monti, pois padece de fragilidades próprias e familiares, tem medo e está desorientado: a bandeira nacional hasteada de pantanas, pelo Presidente Cavaco Silva e pelo divertido presidente da CMLisboa, António Costa, num 5 de outubro de 2012 celebrado à porta fechada, por medo do povo, é uma representação perfeita da degenerescência do poder político em Portugal. A União Europeia e o FMI desprezam a corrupção interna, impõem a colheita de impostos que cubram os empréstimos e os refluxos de dinheiro dos créditos concedidos por bancos estrangeiros aos bancos nacionais, e apoiam quem lhes aplique no País a receita que prescrevem. E o povo oscila entre o lamento e a emigração. Mas os cidadãos não têm de ceder à chantagem política.

O modelo de Estado socialista continua a vigorar em Portugal. E por essa Europa toda - ainda que na Escandinávia  tenham sido reformadas as políticas sociais e de imigração, mesmo que ainda gozem da fama injusta de manter a social-democracia de esquerda dos anos 70 e 80. Em Portugal, Espanha, Grã-Bretanha, Itália, Grécia, onde a direita recuperou o poder formal, mantiveram-se as políticas socialistas: fausto dos políticos, corrupção de Estado, nacionalização de prejuízos de bancos, favorecimento de grandes empresas amigas, fomento da preguiça, desperdício de dinheiro, estagnação económica, miséria social.

O caso português é mais grave porque o fomento estatal do ócio, que também abunda na Europa e na América do Norte, coexiste com a corrupção de Estado. A corrupção de Estado é muito mais grave do que o fausto dos gabinetes ministeriais e o montante cobrado pelos políticos em comissões de negócios, pois inclui à remuneração estatal dos grandes acionistas de empresas falidas, a venda com desconto de participações do Estado em empresas públicas, regimes de preços altos de serviços de telecomunicações, eletricidade e transportes, mediante a contratação de familiares e relacionados para empresas promíscuas com o Estado, a prestação de serviços caríssimos de grandes escritórios de advogados e de bancos de investimento com desperdício dos milhares de juristas e economistas da administração pública, a contratação do tipo endogâmico de parcerias público-privadas com lucros exorbitantes para os privados.  Porém, pior do que as comissões dos políticos e do que o custo acrescido desses negócios (a troca do chouriço pelo porco) é a contratação de obras e trabalhos inúteis em detrimento de investimentos e de apoios indispensáveis.

Cada vez que um político se corrompe, há, por causa desse roubo do Estado para proveito pessoal, cidadãos cujos rendimentos diminuem, firmas que fecham e empregados que perdem trabalho, gente endividada que se suicida, crianças e adultos que passam fome, pessoas cujas dores aumentam por não terem dinheiro para remédios e gente que morre por cirurgias adiadas. Cada vez que um político se corrompe, fere e mata, pois com esse roubo provoca mal-estar e morte de concidadãos.

Não podemos iludir-nos, porque os números não permitem concluir outra coisa: aplacar a corrupção não resolve por si só o problema do défice do País. É também necessário mudar de modelo político para diminuir o défice. E se não reformarmos o modelo socialista não será possível a manutenção do País no euro. Mas o combate  à corrupção do Estado e das autarquias permitiria reduzir a perda de bem-estar dos cidadãos e restaurar a coesão social de que o País carece. Assim, com corrupção política e com abuso nos subsídios, o que os cidadãos sentem, o que sente a classe trabalhadora pobre e a classe média empobrecida, é uma tremenda injustiça. Não é possível a este regime sobreviver com esta corrupção e este abuso. E com a impunidade dos prevaricadores. Portugal necessita de equidade nos sacrifícios e de justiça.

Estou cético perante a assunção da consciência dos cidadãos de que não pode continuar este modelo socialista de troca de corrupção de Estado por abuso popular. Por muito que queira ver como prioritária a indignação com a corrupção, como na manifestação dos indignados, vejo que, por causa de décadas de imoralidade de modelo socialista (rouba tu, político, à vontade desde que me deixes abusar da teta do Estado), é bastante maior a queixa contra a inevitável austeridade. E, num coro desafinado por múltiplas reivindicações populares de que lhes aumentem o subsídio e não lhes diminuam o rendimento, a recomendação geral é de que a poupança seja feita nos outros segmentos mas jamais no nosso, qualquer que o nosso seja - desempregados, (des)inseridos do rendimento social, reformados dourados,  reformados não contribuintes, funcionários públicos, empregados do setor privado. A situação é insustentável.

Ou os cidadãos responsáveis recuperam o poder político com intervenção social ou acontece a revolução - uma forma socialmente cara de fazer reformas inadiáveis. Convinha, por isso, que os instalados se juntassem aos reformadores.


Atualização: este poste foi emendado às 0:37 de 7-10-2012 e 1:52 de 8-10-2012.

18 comentários:

Anónimo disse...

Se não trouxessem tantos africanos para cá, eles não andariam a pedir...

Eu pergunto-me porquê??? África está cheia de riquezas, platina, ouro, diamantes, petróleo, etc... e mesmo assim os africanos não se endireitam??? Há algo de muito, muito estranho com esse povo... parece um povo amaldiçoado.

Helder Marques de Sá disse...

A questão não tem a ver com os africanos, moldavos, romenos, brasileiros ou ucraniamos. Também somos um país de emigrantes. Este facto só demonstra como estamos no fundo,quando um simples pão, que custa cerca de 16 cêntimos (carcaça), é cobiçado. Subscrevo uma vez mais as preocupações de denúncias do Prof. António Balbino Caldeira. Um abraço.

Anónimo disse...

Mas que raio.....
O que interessa agora africanos , moldavos ou pelicanos?
Interessa é a miséria e o final que implica saída da moeda única, governo militar com julgamento de quem andou a roubar e a depauperar o erário publico e de seguida eleições para um primeiro governo da terceira republica.

Carlos Sousa

Anónimo disse...

Julguem é os gatunos que desgovernaram e levaram o pais á banca rota. Nao se esqueçam também do Relvas que à 25 anos atrás ja era gatuno

C-14 disse...

Muito mais perigosos que os africanos pretos, para o povo português, são alguns africanos brancos que nos vão ao bolso todos os dias.

bibónorte disse...

Mais uma profunda reflexão do Prof.ABC.Admiro-o pela sua justeza das suas observações sem se deixar levar pela partidarite cega de que muita gente padece, mesmo sendo, também, vítimas deste descalabro que vai levando milhares de pessoas à ruína.
O povo não pode nem deve parar de se manifestar. Se paramos, será o nosso fim.

Anónimo disse...

Esta gente, estes governantes e os outros, nunca mais poderão sair à rua descansados.

Só têm uma saída: Pela porta dos fundos, sempre escondidos e cheios de medo como os ratos dos esgotos.

Catroga anda a rogar a todos os santinhos, para que o bicho ainda tenha força para dar um golpe de rins. Não, só um golpe nas orelhas

Bem, vou dar água à burra.

ZéZé disse...

Interessante, o post.
Apenas registo como "negativas/nebulosas" as referências ao "modelo socialista", mas o que é isto?
Então, mas o PPC e os tais, não são a fina-flor social-democrata?
Interessante, tambem, na altura, diziam que o socras não era socialista.

Que raio é que a referência ao "modelo socialista", acrescenta ao post? Acho que, pelo contrário, o desmerece.

Anónimo disse...

A bandeira até está correcta, o país é que está de patas para o ar.

Bem, vou dar água à burra.

Ruvasa disse...

Fazer da árvore que nos bate à porta a pedir pão, além do que já lhe tinha sido dado, é algo de muito tocante e com efeito pirotécnico não desprezível, na composição do quadro florestal conveniente aos propósitos que nos enformam, principalmente quando, perdido o sentido do norte, desatamos a disparar rajadas a esmo, para desbaratar tudo quanto à volta mexa, independentemente de qual a razão ou sem-razão porque mexe.

Livre-nos Deus, o Omnisciente, o Omnipotente, o Omnipresente de um dia nos subtrair a bússola, porque esse será o dia em que perderemos o norte e, em consequência, a razão.

A CORRUPÇÃO MATA disse...

POR CADA EURO ROUBADO POR UM PULHITÍCO HÁ UM PORTUGUÊS QUE MORRE.A CORRUPÇÃO MATA!

Carlos Sério disse...

Concordo consigo em quase tudo. Mas discordo e nem compreendo bem quando diz:este modelo socialista de troca de corrupção de Estado por abuso popular".
Por um lado se se refere aos socialistas portugueses, PS, eles serão tudo menos socialistas, hoje são mais neoliberais do que sociais democratas.
Por outro lado os responsáveis pela a corrupção do Estado português na verdade, tanto se deve ao PS como ao PSD. É só uma questão de escala.E o caso do BPN não é de somenos.

Anónimo disse...

Estes cidadãos dos tempos idos ainda não conseguiram compreender quais as razões da crise. ainda não conseguiram compreender que, se a Espanha se pega à porrada, essa porrada rapidamente invade as nossas fronteiras e andaremos aqui todos aos tiros uns aos outros, sem saber muito bem porque nos andávamos a matar. Esta gente não sabe o que é passar fome, se soubessem andavam tão apertadinhos, mas tão apertadinhos que nem uma bufa de lá saia.

Não ligue Dr. António Balbino Caldeira, os velhos do restelos da classe média ainda pensam que tudo isto não passa de um jogo de futebol ahahahaahah, bem se vão f....

Bem, vou dar água à burra.

Anónimo disse...

Não venham dizer que ninguém os avisou:

http://www.ahresp.com/news_article.php?id=789

Que grandes alimárias!

Unknown disse...

Meu caro Prof. ABC

O seu poster tem um senão: o achar que o que vigora na Europa e em Portugal é o modelo socialista de governo. Não é. Apenas a estrutura social do Estado é a do modelo social-democrata (em alguns países que não em Portugal onde não chegou verdadeiramente a funcionar). Talvez um pouco mais de cultura social não lhe fizesse mal. De resto parabéns pelo seu "post".

Cumprimentos

Paulo Valente

Anónimo disse...

Curioso é que, muito poucos cidadãos compreendem o que é o actual Socialismo de Estado, que junta o Socialismo tradicional dos pobres (subsídio de desemprego, rendimento mínimo, saúde e educação gratuitas, etc.), ao socialismo dos ricos (as rendas a pagar à EDP, à REN, à Brisa, à Mota Engil, os computadores Magalhães, os jeitos que se dão à PT, a todos os que querem ter uma autorização de abertura de um hipermercado, etc.).

O Estado português gasta mais de 50% de riqueza nacional. Isto é Socialismo.

Não são só os pobres que sacam o Estado. Há portugueses que auferem mais de 30 meses de subsídio de desemprego. Isto, nem os páises ricos fazem. Há portugueses que auferem de Rendimento Mínimo há mais de 10 anos. Isto é roubar.

E as Fundações. Fundação Gulbenkian, a Fundação Belmiro de Azevedo, a Fundação de Serralves, a Fundação Berardo, todas elas têm enormes isenções fiscais. Centenas de milhões de euros. Isto é Socialismo de Estado.

Nem 50% dos que trabalham, pagam IRS. Isto é Socialismo.

Não há incentivo nenhum em portugal para se trabalhar. Só há incentivo para deixar Portugal parar e aguardar pelo seu inevitável incendio. Nós estamos à espera do pirómano.

Anónimo disse...

Os pobres e desvalidos sempre devem ter apoio do Estado.Mas o que se passa é compra de votos em troca de benefícios sociais.
Esta é a corrupção generalizada.
Agora que o partido socialista deu a machadada final na economia,muita gente ficará desamparada.
Convém aqui lembrar os comunistas do PCP e do BE,que tanto apoiaram as políticas ruinosas do Sócrates.Sempre pediram mais investimento público,sem cuidar se era bom ou mau,para manter o nível de emprego.
mas fizeram-no por calcolismo.Sabiam que ia desembocar,como avisara Ferreira Leite,na bancarrota,caos,confusão,etc
O caldo de cultura propício ao vicejar destes partidos totalitaristas.

Anónimo disse...

Calculismo,desculpem.