quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Aqui!

Cristiano Ronaldo marca três e justifica «É aqui!» no Suécia-Portugal,
19-11-2013, Friends Arena, Solna. Foto: Svenska Dagbladet

Noite fria... noite quente. Toda a guerra psicológica e mind games da imprensa sueca enregelados pelo vendaval lusitano na reviravolta suada de três tentos a dois, que nos apurou no play-off para o Mundial do Brasil, em 2014.

Envergonhada pelos feitos de Cristiano Ronaldo, a Fifa viu-se obrigadaprolongar por mais dez dias o prazo de votação para a Bola de Ouro e  a permitir que quem queira altere o voto e o presidente Blatter também o felicita pela exibição na Suécia... É no campo que o valor se prova: 66 golos até agora no ano natural de 2013 do extremo Cristiano contra 19 do extremo Ribéry.

Ibrahimovic afinal não é Deus: Cristiano Ronaldo sim, é «como Dios» - passe a blasfémia da Marca. O madridista Tomás Roncero, do As, chama ao Comandante Ronaldo: «Deus do futebol», «melhor jogador do mundo», «number one», «o que está reescrevendo a história», «capitão-general de todos os exércitos» da história do futebol... No Brasil, o Globo reconhece que, depois da exibição «divina» de Ronaldo, «'Deus' é português».

Na verdade, ao menino pobre da Madeira que veio para o Sporting, de Aurélio Pereira, aos 12 anos, onde se fez jogador, nada lhe foi dado, conquistou-o com o seu génio e muito esforço. Ontem, como outras vezes, naquela que terá sido a exibição mais importante da sua vida, carregou uma seleção mediana às costas e engrandeceu a gesta de um País atribulado por fracos dirigentes.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Revisitando a tomada do BCP pelo socratismo

A surpreeendente notícia, em 19-9-2013, no Económico, de que o grupo Babel, do conservador oriundo da extrema-direita e secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros de Cavaco Silva, Paulo Teixeira Pinto, ia editar o que veio a ser descrito pelo próprio ao Expresso, de 21-9-2013, como «tese [sic] de mestrado, com pequenas alterações que introduzi ao longo do verão, enquanto a traduzi do francês» - uma notícia que escalpelizei aqui em 23-9-2013 -, suscitou o meu interesse em revisitar a tomada do BCP pelo socratismo. Reanaliso, em seguida, esse caso sobre o qual escrevi bastante em 2007, pela sua função nuclear no processo de domínio absolutista do País pelo socratismo: o controlo da banca privada era essencial para a prostração política dos adversários e para o sucesso da estratégia putínica do então primeiro-ministro. É a partir do passado que reestruturamos o futuro.

O poste sai longo, mas não era possível fazê-lo mais curto - nem, me parece que beneficiasse, se o apresentasse às postas. Depois de uma descrição do grupo Babel, desenvolvo a análise em cinco capítulos: a Babel; a substituição de Jorge Jardim Gonçalves na presidência do BCP por Paulo Teixeira Pinto, em 2005; a destituição de Teixeira Pinto do BCP, em 2007; a instalação do socratismo no comando do BCP, em 2008; e o futuro próximo da banca privada portuguesa.


A Babel

Começo pela Babel
para perceber o contexto da edição do livro de José Sócrates, «A confiança no mundo - Sobre a tortura em democracia», Verbo, outubro de 2009 (ontem, 12-11-2013, recenseado, por novo ângulo, por João César das Neves, no DN, depois de Vasco Pulido Valente já o ter tratado, em 25-10-2013, no Público). Um livro que, segundo o Económico, de 23-10-2013, teve uma primeira impressão de 10 mil exemplares; um número que desce (?!...) para «uma tiragem inicial de seis mil livros», no DN, de 5-11-2013, mas com «três reimpressões que totalizam quatro mil exemplares»; mas que, no dia seguinte, 6-11-2013, no Diário Digital, sobe ao zénite de «18 mil exemplares»!... Um editor experimentado conta-me que, apesar do hype mediático inédito, no máximo, crê em quatro mil de vendas, num país onde as obras de políticos costumam vender cerca de quinhentos exemplares, e compara que nem o Saramago tinha primeiras impressões dessa grandeza... O empolamento habitual da edição portuguesa. A não ser que o próprio tenha comprado esses milhares para oferta, e os guarde na casa antiga da rua Braancamp, enquanto os vai despachando como presentes...

Depois de sair de presidente da Comissão Executiva do BCP, em 31-8-2007, segundo o Público, de 18-1-2008, aos 47 anos de idade, com «uma indemnização de 10 milhões de euros e com o compromisso de receber até final de vida uma pensão anual equivalente a 500 mil euros» justificada depois também pela doença,  o ativo Paulo Teixeira Pinto comprou a Guimarães Editores, em março de 2008. Atingido pela tragédia pessoal, a doença de Parkinson que revela quando saíu do banco, a morte do filho em novembro de 2008 e a separação da mulher Paula Teixeira da Cruz, Paulo não abranda. Num setor sujeito a grandes dificuldades económicas, cria o grupo editorial Babel, em novembro de 2009, o terceiro maior da atividade, após ter adquirido as editoras Ática, Verbo e Ulisseia.

Conforme refere a Visão, de 11-10-2012, essas aquisições contam com o apoio do Fundo Recuperação da ECS Capital, do seu amigo António de Sousa, ex-governador do Banco de Portugal e ex-presidente da CGD. Ainda de acordo com a mesma notícia da Visão, esse fundo de investimento da ECS Capital (ver Oje, de 17-10-2012), é uma «sociedade gestora de fundos de capital de risco e de restruturação» criada em 2006 por António de Sousa e Fernando Esmerado, é «participado pelas principais entidades bancárias nacionais e pelo Tesouro» (Direção-Geral do Tesouro e Finanças). Para ser mais preciso, de acordo com o Económico, de 17-11-2011, neste Fundo Recuperação da ECS Capital:
«Cerca de 72% do capital deste veículo financeiro pertence ao BES, BCP, BPI, Santanter, Banif e ECS, enquanto a Caixa Geral de Depósito detém 20% e o Estado português - através da Direcção-Geral do Tesouro e Finanças - controla os restantes 8%.»
Entretanto, em outubro de 2010, é anunciada a criação de uma divisão brasileira da Babel, e, em fevereiro de 2011, sai a ECS Capital e entra a Ongoing que fica com 66% do grupo, a qual já teria entrado no capital do grupo pelo menos em dezembro de 2010, segundo o Jornal de Negócios, de 15-2-2011. Porém, a parceria corre mal e pouco dura. Segundo a revista Visão, já citada, Paulo Teixeira Pinto retira-se para a sua «moradia-refúgio», por entre «rumores de dívidas galopantes do grupo», resultante da edição exagerada de títulos e da estrutura sobredimensionada. A disputa interna é resolvida salomonicamente, conforme a notícia da Visão, de 11-10-2012: Paulo Teixeira Pinto fica com o grupo em Portugal e a Ongoing recebe a divisão brasileira.

Após a «megalomania penalizada», como lhe chama Plácido Júnior nessa Visão, da fábrica à boutique, bem longe da expetativa do «império editorial» que sonhava em maio de 2008, Teixeira Pinto prometia recuperar o seu grupo editorial, desde logo apaziguando o aborrecimento da estrela principal do seu catálogo, a escritora Agustina Bessa Luís. Nesse sentido, o livro de Sócrates de outubro de 2013, e a aliança que reitera, constitui um balão de notoriedade e uma esperança. Contudo, a impressão que deixa é de que Paulo Teixeira Pinto, atendendo à imagem que cuidava, longe da atual tortura, e aos magros lucros de um livro de poucos milhares de exemplares, editou o livro de Sócrates, por que a isso foi obrigado.


A substituição de Jardim Gonçalves na presidência do BCP por Paulo Teixeira Pinto 
«Vamos construir uma cidade e uma torre cuja extremidade atinja os céus. Assim tornar-nos-emos famosos» (Genesis, 11: 4).
Paulo Teixeira Pinto tinha sido na sombra, e discretamente, no XII Governo Constitucional, de Cavaco Silva, quem tinha tratado do dossiê das privatizações, onde terá conhecido Proença de Carvalho. Após a derrota do PSD, de Fernando Nogueira, no rescaldo do tabu de Cavaco Silva sobre a eleição presidencial de janeiro de 1996, que acabou também por perder, Paulo Teixeira Pinto ingressa no BCP. Meticuloso e aplicado, ascende a secretário-geral da instituição, um cargo de enorme importância interna, e que lhe dava assento nas reuniões do conselho de administração.

A previsão dos analistas era de que o BCP iria do Jardim para o Pinhal, isto é, de Jorge Jardim Gonçalves para Filipe Pinhal, o número dois do banco como sucessor natural do fundador, quando, este decidisse afastar-se, apesar dos estatutos do Grupo Millenium BCP não preverem um limite de idade. Não obstante, Jorge Jardim Gonçalves decidiu deixar a gestão do grupo bancário - a sua Comissão Executiva -, ainda que tenha guardado a posição de presidente do Conselho Superior e de Presidente do Conselho Geral e de Supervisão, numa transição cautelosa, à chinesa. Indicou, ele próprio, para presidente da Comissão Executiva, para o triénio 2005-2007, o nome do secretário-geral do grupo, Paulo Teixeira Pinto, de 44 anos, «uma solução da casa», e que tal, como Jardim pertencia ao Opus Dei.

Após ser conhecida a sua nomeação, segundo o CM, de 26-1-2005,  Paulo Teixeira Pinto declara: «Sou um institucionalista». Mas adianta-se logo em avisar que “no curto, médio prazo quero consolidar o projecto de um banco verdadeiramente multidoméstico com presenças em Portugal, Polónia e Grécia».

Do institucionalismo ao personalismo foi um pequeno passo. Teixeira Pinto escondia, afinal, uma ambição tremenda e uma vontade irresistível de se libertar da tutela do fundador. Ao invés do conselho interno, apoiou essa ambição em juízos externos dos seus amigos: desde António MexiaAntónio de Sousa, ao maçon Nuno Vasconcelos e ao «agente operativo» Rafael Mora, ambos da Ongoing - eventualmente, e de modo discreto, até de José Sócrates que hoje se percebe ser seu amigo.

António Mexia, que tinha ocupado a esquecida função na sua casa-mãe, de administrador do Banco Espírito Santo de Investimento entre 1992 e 1998, foi indicado por «escolha do Governo» Sócrates para presidente da EDP em janeiro de 2006 (aliás, na mesma altura em que o BES adquiriu uma posição no capital da elétrica que era nacional) e integrou o Conselho Superior do BCP desde abril de 2006. Mexia retribuíu em fevereiro de 2012, quando Teixeira Pinto passou a pertencer ao Conselho Geral e de Supervisão da EDP, constituído por 23 elementos.

A Ongoing é uma operação pessoal de Ricardo Espírito Santo Salgado, um veículo de manobra política para operações especiais, que não sabemos como ficará depois que José Maria Espírito Santo Ricciardi suceder ao seu primo em 2014, no tradicional Grupo Espírito Santo que não gosta dessas aventuras e precisa muito, agora, de descrição nas suas ligações políticas, afetadas também pela intimidade com José Sócrates. A Ongoing conta, todavia, com o apoio do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho (como se percebe do sociograma, da contagem de espingardas, feito pelo Negócios, de 8-11-2013), apesar do afastamento de Miguel Relvas, e portanto, poderá sobreviver, nomeadamente na nova CorpCo (resultante da fusão PT/Oi). Relativamente à relação com Paulo Teixeira Pinto, a Visão, de 11-10-2001, aclara que «Vasconcellos e, principalmente, Mora assessoraram-no na frustrada OPA do BCP sobre o BPI, no meio de uma guerra fratricida no interior do banco».

Empenhado em refundar o BCP, com o propósito de fazer mais em três anos do que o fundador Jardim Gonçalves em vinte, Teixeira Pinto arrojou o grupo financeiro de um pequeno país europeu, num acelerado e desastroso processo expansionista no estrangeiro, ao mesmo tempo que lançava uma controversa OPA (Operação Pública de Aquisição) hostil sobre o BPI, em 13-3-2006, numa estratégia «Rottweiller», que falhou.


A destituição de Teixeira Pinto do BCP

Inevitável, no recontro da ousadia com a prudência, a rutura aconteceu.  A guerra no BCP estalou. E o mais fraco perdeu.

Em 9 de julho de 2007, um «grupo de accionistas apoiante de Teixeira Pinto propõe a destituição dos administradores que estão com Jardim: Filipe Pinhal, Christopher de Beck, António Rodrigues, Alípio Dias e Alexandre Bastos Gomes». Teixeira Pinto moveu-se e Jardim respondeu. Após um período de indecisão, em 31 de agosto de 2007, Paulo Teixeira Pinto cede o lugar de presidente do banco a Filipe Pinhal, braço direito de Jardim. Implacável, o mercado fazia também a sua avaliação: no dia em que foi conhecida a saída (31-8-2007), as ações do BCP terminaram o dia a subir 3,94%.

O retorno do grupo de Jardim Gonçalves ao controlo do banco foi temporário. Em breve, viria a cavalaria socratina apossar-se do pasto financeiro.

A minha convição, baseada nos factos, na natureza das pessoas, no comportamento dos grupos e nos nexos que, como exponho, os unem, é de que a gestão de Paulo Teixeira Pinto no BCP foi instrumentalizada pelo socratismo desde cedo. Numa hipótese verosímil: desde logo quando lançou o seu plano megalómano e antes de se abrir, por vontade sua, a brecha no BCP. Como abutres, no lugar de corvos, as aves de arribação sistémica que o rodearam, aproveitaram-se do seu desejo ingénuo de imortalização - qualquer que tenha sido a data em que soube da sua doença progressiva, previamente à negociação da saída, em 2007 (quando a revelou) -, para o cercarem de estímulos, atirando-o para um destino trágico, e colherem depois politicamente, junto do Governo, o espólio do seu drama. Depois, tratou-se de negociar a sua saída com um plano generoso e de confortar a sua amargura, para ainda aproveitarem, judicial e administrativamente, a raiva da sua destituição.

O socratismo, através das suas antenas, soube que a tomada do banco era possível e executou friamente um plano quase perfeito: foi surpreendido em 2008 pela crise do subprime, e depois pelo caso Face Oculta, e teve de abdicar do controlo do banco. Não acredito que o tenha feito para tornar o BCP dócil à compra de dívida pública portuguesa a que estava renitente: o socratismo nunca teve sentido de Estado. Fê-lo por causa do seu absolutismo putínico material.


A instalação do socratismo no comando do BCP

A vingança não demorou.

A erosão provocada pelo fluxo de informações internas teve um impacto forte na nova administração. Na barragem mediática destacou-se Joe Berardo, que funcionou como uma espécie de bobo da nova corte. Contou com a abertura das antenas dos média de confiança, especialmente das televisões. As munições atiradas a Jardim Gonçalves incluíam variadas linhas de ataque, desde os salários e prémios dos órgãos de gestão até a um empréstimo contraído junto do BCP, por empresas de seu filho Filipe Gonçalves, no valor de 12 milhões de euros que os administradores Filipe Pinhal e Alípio Dias tinham considerado incobrável, e que o pai alegou desconhecer, e que, depois do caso ser público, acabou por pagar. Jardim Gonçalves e o seu grupo foram derrotados na batalha mediática. Ainda que o seu caso não se compare e até possa terminar absolvido dos crimes das ilegalidades e irregularidades de que foi acusado, Jardim Gonçalves passou a ser comparado a Oliveira e Costa e João Rendeiro.

Em pouco tempo, a luta passou dos écrans para o plano judicial, para o plano administrativo e para o plano político. O judicial e o administrativo são usados pelo poder socratino para atingir o objetivo político de controlar o BCP.

No plano judicial, as denúncias provindas dos perdedores levaram à instauração de inquérito contra Jardim Gonçalves e outros quatro colegas de administração, e mais tarde, em junho de 2009, à acusação de «manipulação de mercado, falsificação da contabilidade e burla qualificada» por parte do Ministério Público. Em 27-7-2010, após a fase da instrução, o processo seguiu para julgamento,  por «falsificação de documentos e manipulação de mercado» (caíu a acusação de que a alegada manipulação de mercado tinha acontecido para aumentar os prémios dos administradores e o administrador António Castro Henriques não foi pronunciado). No julgamento que está a decorrer, debate-se a acusação do Ministério Público de que os cinco arguidos, «através de uma empresa do banco, usaram 17 offshores das ilhas Caimão para comprar e vender acções do BCP, procurando assim, e de forma dissimulada, condicionar as cotações dos títulos», mediante «testas de ferro», tendo essas operações alegadamente provocado «um prejuízo de 600 milhões de euros ao BCP, que foi escondido aos outros responsáveis do banco e às entidades reguladoras». A defesa, segundo a SIC, em 10-9-2013, de Jardim Gonçalves contesta a acusação, dizendo que não houve manipulação de mercado, nem prejuízo se a operação durasse até 2007, nem informação falsa ao mercado e à regulação. Paulo Teixeira Pinto foi arrolado como testemunha de acusação contra o grupo de administradores ligados a Jardim Gonçalves; e, em 18-1-2013, segundo a juíza do tribunal de primeira instância, que apreciou o recurso das contra-ordenações instauradas pela CMVM, «quando o arguido assumiu a presidência do banco tinha um elevado conhecimento do universo BCP e, no entanto, assumiu uma postura de desconhecimento».

O plano administrativo divide-se em dois níveis interpolados: a CMVM e o Banco de Portugal.

CMVM, liderada por Carlos Tavares, impôs, em 2008 (Processo de Contra-Ordenação n.º 42/2008) sanções pesadas, além de coimas significativas, a Jardim Gonçalves (cinco anos de inibição de desempenho de funções na atividade financeira) e a outros administradores do BCP, um veredicto que, em 18-1-2013, o tribunal de 1.ª instância terá confirmado, mas cujo recurso seguiu para a Relação.

O Banco de Portugal foi ainda mais longe e, em 13 de maio de 2010, por prestação de informação falsa ao mercado e à regulação, condenou seis administradores do BCP a inibição de desempenho de cargos na atividade financeira por um período entre nove e cinco anos, além de coimas elevadas. A Jardim Gonçalves foi imposta a sanção mais longa, nove anos, e como o recurso desta sanção para os tribunais não tem efeito suspensivo até trânsito em julgado nos tribunais superiores, ele corresponde, na prática, num homem de 75 anos, a uma espécie de sentença perpétua. O que não deve ter sido ignorado quando a sentença de nove anos foi decidida pela administração de Vítor Constâncio, na qual este confiava, em 18-1-2008, na «tecnoestrutura» do BCP independentemente da administração - viu-se... De acordo com o Público, de 8-10-2011, o tribunal de primeira instância anulou essas contra-ordenações porque se apoiavam em provas, apresentadas por Joe Berardo, que violavam o segredo bancário.  Este era um caso que o Banco de Portugal dizia, em janeiro de 2008, acompanhar desde 2001... Note-se ainda que a condenação do Banco de Portugal, de Vítor Constâncio, foi deliberada cerca de três semanas antes de, em 7 de junho de 2010, Carlos Costa o substituir como Governador.

No plano político assistiu-se ao assalto ao castelo do BCP pelas forças socratinas e maçónicas. O banco controlado por supranumerários conservadores do Opus Dei passou para os veneráveis socialistas da Maçonaria. De que modo?

A Caixa Geral de Depósitos, presidida por Carlos Santos Ferreira e de que era vice-presidente Armando Varaentre janeiro e junho de 2007, emprestou dinheiro a Joe Berardo e outros 21 grandes investidores para a aquisição de ações do BCP, . que, assim, adquiriram posições de relevo no capital social, tendo recebido como garantia desse crédito... as próprias ações do BCP (que, entretanto, se desvalorizaram fortemente...). Em 10 de janeiro de 2008, seis meses depois, consolidadas as posições financeiras e endossado o conforto político do Governo Sócrates, os socialistas Carlos Santos Ferreira e Armando Vara trocam os seus lugares na Caixa por idênticos lugares no BCP, com o apoio daqueles a quem a CGD tinha emprestado dinheiro pedido precisamente para aquele fim!... Cadilhe tentou impedir o take-over socratino, mas não conseguiu. Conforme escrevi, neste blogue, em 5-1-2008, com base em notícia do Público, de 4-1-2008 (linque inoperacional):
«"Entre Janeiro e Junho de 2007, o banco do Estado [CGD] financiou em mais de 500 milhões de euros a compra de acções do BCP" por accionistas do BCP ("22 accionistas", entre os quais, Joe Berardo, Moniz da Maia, Goes Ferreira e Teixeira Duarte) que apoiam a lista socratina de Santos Ferreira e Armando Vara candidata ao banco privado. Uma candidatura de clique socratina que o (in)suspeito Ricardo Eu-Sou-Controlado Costa [no Económico, em 4-1-2008] descreve como um resultado do "acordo tácito com o Ministério das Finanças e o gabinete do primeiro-ministro"...»

Pressionado externa e internamente, em 31 de dezembro de 2007, Jardim Gonçalves deixou os cargos que ainda detinha no BCP. O inquérito parlamentar de 2008, apenas tinha como objetivo consolidar mediatica e politicamente a manobra e justificar a intervenção direta do poder socratino.

O presidente Cavaco Silva a tudo assistiu e consentiu, sem intervir, como nos vários assuntos que o socratismo considerava nucleares.

Aquando da transmissão interna de poder do Estado de Sócrates para Passos Coelho, Carlos Santos Ferreira, de 64 anos, que não estancou a sangria do banco, acabou por ser reciclado, após justificação de problemas de saúde, na trituradora sistémica, que o tinha posto a gerir a fazenda. Também saíu com uma «indemnização milionária», do mesmo tipo que o seu grupo censurou ao núcleo de Jardim Gonçalves, tal como Armando Vara.  Passou de banqueiro a advogado. Em seu lugar, em janeiro de 2012, puseram Nuno Amado, para o mesmo resultado financeiro degradante.


O futuro próximo da banca privada portuguesa

O BCP empenhado ao Estado/troika em 3,5 mil milhões de euros sem condições de o pagar, com 1,2 mil milhões de euros de resultados negativos no ano de 2012, acabará engolido pelo grupo Espírito Santo, o seu destino fatídico político. Um passo adiante, seguido de outro atrás, pois o próprio BES, estrangulado na operação angolana da ESCOM, não estará em muito melhor condição e esse balão de oxigénio patrocinado, então, pelo Estado, não lhe garantirá a subsistência independente. Vale ainda que o BPI, de Fernando Ulrich (enquanto não for escolhido um líder mais acomodado ao sistema...), apertado pela posição dos acionistas, vai resistindo ao canto da sereia maçónica lisboeta, mesmo se as condições de mercado também lhe são adversas.

Todavia, todas estas vias, o sistema financeiro português, hoje controlado pela tutela angolana, foi atolado pela ambição política putínica, pela ambição amoral e pelo holismo maçónico, todas de caráter sistémico. O problema do povo é que a banca privada, se não deve merecer tratamento especial do Estado - como eu creio que não deve -, é, contudo, indispensável à viabilidade da economia e ao bem estar das famílias. O fecho do crédito, que se verifica, esgana as empresas e os particulares. E a recuperação do imobiliário ainda demorará mais tempo do que o disponível.

Devia o povo ter recebido outra coisa? Mas o que votámos (à parte as exceções...), votámos porque queríamos: subsídios, salários, pensões, estradas mais rápidas, escolas de luxo. Troca por troca. Corrupção por abuso. Socialismo. Nos seus diversos - e mesmíssimos... -, tons. Sócrates, Passos Coelho e outros, são o despertar dos nossos sonhos tornados pesadelos infames. É tempo ainda de recuperação moral? É sempre.


Atualização: este poste foi emendado às 14:17 de 13-11-2013; e atualizado às 16:52 de 13-10-2013.


Limitação de responsabilidade (disclaimer): As entidades referidas nas notícias dos média, que comento, não são aqui imputadas de qualquer ilegalidade ou irregularidade.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O branqueamento do passado de Mário Soares




Mário Soares fez ontem, 7-11-2013, segundo a agência Lusa, usada pelo Público, no final de uma sessão de homenagem a Francisco Salgado Zenha, que decorreu na sua fundação, gravíssimas imputações de roubo («rouba»), de «ladrões», de «bando», de «caso de polícia», aos membros do Governo e ao atual Presidente da República Cavaco Silva e que, no seu tempo, «dos socialistas, felizmente, não há um único de quem se diga que tocou em dinheiros públicos». Abaixo, pro memoria, republico a reportagem da Lusa. Passos Coelho não lhe tem respondido porque também parece estar comprometido, com encontros e confidências semelhantes àqueles que Álvaro Santos Pereira teve com Soares (e que este denunciou numa crónica no DN, em 30-7-2013), e teme a sua represália, mas nem todos têm a mesma debilidade.

Mário Soares não está a sujar o que, aliás, já é sujo. Com estes ataques premeditados, preocupado com a memória que deixa, Soares está a limpar-se a si mesmo e a desratizar a sua história. Uma história roxa, nas mágoas que provocou e, na qual, a sua posição perante o abuso sexual de crianças da Casa Pia tem ainda maior gravidade.

Na verdade, verdadinha, dos toques, e retoques, falam os factos relatados por Rui Mateus em «Contos proibidos - Memórias de um PS desconhecido», Lisboa, Dom Quixote, 1996. Se o autor desapareceu do mapa público e se refugiou algures, segundo consta, numa universidade norte-americana, o livro aí está para conferir o discurso atual com as histórias antigas do próprio Mário Soares, na qual também abunda a Emaudio e outros negócios de Macau. Financiamento partidário e negócios de Estado.

Os sinais exteriores de riqueza pós-25 de Abril de 1974 têm de ser comparados com a penúria pré-revolucionária. Um escrutínio que falta fazer, no qual se demonstre a transição dos tempos em que se vivia de empréstimos pessoais de banqueiros até ao fausto súbito pós-revolucionário.

O silêncio politicamente correto sobre Mário Soares que foi decretado em Portugal, foi episodicamente quebrado por Rui Mateus, pelos velhos novelos d' «O Independente» do outro Paulo Portas. Um mutismo que nem é furado pela biografia escrita por Joaquim Vieira, a qual fica longe da filtragem seletiva do seu arquétipo Mittérrand (à moda de Churchill no discurso na House of Commons, em 23-1-1948: «For my part, I consider that it will be found much better by all Parties to leave the past to history, especially as I propose to write that history») a Eric Conan e Henry Rousso, Vichy - Un passé qui ne passe pas, em 1994, ou o registo de Pierre Péan em «Une jeunesse française – François Mitterrand, 1934-1947, Paris, Fayard, do mesmo ano.

Todavia, a mudez, a surdez e a cegueira, nacional, por cumplicidade da esquerda e promiscuidade da direita, não são mantidas lá fora, como se documenta no poste «O financiamento da CIA ao PS: documento inédito», de 18-5-2013, de Joaquim Marques de Sá, no blogue Revolução e Democracia. O poste refere a reportagem de 13 de maio de 2013, o canal de televisão holandês Nederland 2, intitulada «Dinheiro Secreto Americano para os Socialistas em Portugal» (Geheim Amerikaans geld naar socialisten Portugal) para a série de programas históricos «Outros Tempos» (já não funciona o linque http://www.nederland2.nl/programmas/642-andere-tijden/uitzending/44643). O programa, que não vi que tenha merecido interesse das televisões e imprensa nacionais, aclara a via do financiamento partidário do PS português após o 25 de abril de 1974. Financiamento partidário que é uma atividade sombria sempre sujeita, como na Itália, ao risco das tangenti de quem parte e reparte, em tempos em que não os partidos não tinham contabilidade à moda do PP espanhol.

Dos totomilhões da tômbola política, nos idos de 1974-75, se há-de conhecer um dia, já fora do opressivo sistema abrigado na proteção última do  Grande Oriente Lusitano, comparando o património antes e depois - e despistando justificações patéticas de rendimentos fabulosos provenientes de instituição, cujas contas anuais podem ser verificadas. Não há, neste caso, um «teflon effect», mas a vista grossa dos média míopes que se abstém do escrutínio e até da crítica.

Como se sintetiza no poste de Marques de Sá, a reportagem da estação de televisão holandesa de maio de 2013 desenha o tráfego do dinheiro para o PS português, com origem na CIA, via Friedrich Ebert Stiftung (ligada ao SPD alemão), via Harry van den Bergh do PvdA (Partido Trabalhista) holandês. Van den Bergh levantava as notas da conta na Nederlandsche Middenstandsbank em Amsterdão e as trazia para Lisboa, onde era «esperado no aeroporto por "amigos" e posto no Hotel Ritz», num total de «seis a sete vezes», e que nas duas últimas vezes beneficiou de imunidade diplomática concedida pelo ministro holandês dos negócios estrangeiros (Max van der Stoel) que também era do seu partido. Marques de Sá calcula que isto se tenha passado cerca de «março de 1975». Van den Bergh atuava a pedido do SPD, conforme relata Hans-Eberhard Dingels, secretário de estado do governo SPD da Alemanha Federal do governo liderado por Willy Brandt que queria «ajudar os nossos camaradas». Dingels evita dizer o montante porque «o silêncio é de ouro»... Dingels recusa-se a dizer o total de dinheiro enviado. Van den Bergh estima o total em mais de 800 mil euros. Mas Dingels conta que além dos alemães, também existiram outras fontes de financiamento para o PS português: «os ingleses… os suecos…, num total de 7 ou 8 pessoas ["correios"]».

Arthur Hartman, secretário assistente de Estado dos EUA para a Europa e Canadá, durante a administração de Gerald Ford, explica na reportagem da televisão holandesa, segundo Marques de Sá, que «o Grupo de Berlim (Alemanha, Inglaterra, França, EUA), analisando o que se passava em Portugal, concluiu que tinha de pôr Mário Soares no poder», e usaram «o "canal alemão" para fornecer "fundos e equipamento" a "Mário Soares e ao Partido Socialista"». Então, «os EUA limitaram-se a fornecer o dinheiro através dessa fundação» e Hartman «está bem convencido de que foi dinheiro da CIA que foi enviado através deles [Fundação Friedrich Ebert]». Hartman acautela que «na época provavelmente muito poucas» pessoas sabiam do financiamento da CIA ao PS, mas perguntado sobre se Soares sabia dessa origem, disse: «Estou seguro que sim». Mário Soares também é entrevistado nessa reportagem e terá respondido à pergunta sobre se sabia de que esse dinheiro recebido pelo PS provinha da CIA: «Como podia eu saber? Eu não sou polícia, monsieur. Não sei.».

Soares desculpou-se com o «não sou polícia». Não era polícia: não via, não ouvia, não lia. Tampouco é agora - [não sou] «da polícia», ter-se-á justificado para não apresentar provas do que indicava, em 7-11-2013, nas imputações aos governantes atuais de «roubo», «ladrões», de «bando» e o diabo a sete, que fez na homenagem a Francisco Salgado Zenha, com quem se terá inimizado por causa, possivelmente, da repulsa deste a estes fenómenos internos do financiamento partidário e da heterodoxia nos negócios de Estado.

Contudo, o problema do financiamento partidário não está na sua origem da CIA, o veículo norte-americano para impedir a transferência do Portugal metropolitano para a órbita comunista soviética (no qual funcionava também o financiamento do KGB ao PC e às suas antenas...), mas no circuito sinuoso do dinheiro sujeito ao risco de desvio para as tangenti.

O financiamento partidário e negócios de Estado do soarismo não podem ser branqueados com a soda cáustica de ataques ao poder atual. Uma mão suja não lava a outra conspurcada; e muito menos as duas lavam uma cara manchada.



«Soares diz que Cavaco pertence "ao bando" do Governo
LUSA - 7/11/2013 - 21:09
Antigo presidente diz que no tempo em que era primeiro-ministro no seu partido ninguém "tocava em dinheiros públicos".

O ex-presidente da República Mário Soares comparou nesta quinta-feira a actual classe política com os políticos do tempo em que era primeiro-ministro, considerando que naquela altura nenhum membro do seu partido "tocava em dinheiros públicos".
Ao comparar os contributos para um Portugal democrático e justo, antes e depois do 25 de Abril, por parte de um dos fundadores do PS, Salgado Zenha, o antigo líder socialista e também ex-primeiro-ministro assegurou que nenhum membro do seu partido "tocava em dinheiros públicos", após uma homenagem àquele amigo e advogado, na Fundação Mário Soares.
"Acho que não. Em primeiro lugar, ninguém tocava nos dinheiros públicos. Nunca tocou. Dos socialistas, felizmente, não há um único de quem se diga que tocou em dinheiros públicos", defendeu, quando questionado sobre a existência de paralelo com a actual classe dirigente.
Instado a concretizar as suspeitas, Soares afirmou não ser "da polícia". "Quem rouba é sempre um caso de polícia.
Muitas vezes, sabemos, há ladrões, mas não vão à polícia, nem são julgados, mas isso é a situação. A polícia está zangada, os militares estão zangados - desde os generais até cá a baixo -, a Igreja está zangada. Quem é que não está zangado com este Governo?", inquiriu.
 Perante a sugestão de que o Presidente da República seria uma das pessoas que não está em desacordo com o executivo da coligação PSD/CDS-PP, o fundador do PS sugeriu haver uma acção concertada.
 Mário Soares afirmou que o actual Chefe de Estado "pertence ao bando" do Governo, liderado pelo social-democrata Passos Coelho, voltando a sugerir tratar-se de um "caso de polícia".
 "Esse (Cavaco Silva) não está (em desacordo com o governo) porque pertence. Pertence ao bando, infelizmente", atirou. Também presente na sessão evocativa de Salgado Zenha, outro antigo líder socialista e ex-presidente da República, Jorge Sampaio, furtou-se a comentar matérias da actualidade política, mas deixou a sua opinião sobre a questão no ar.
"Isso é muito difícil de responder, mas imaginem qual é a resposta", afirmou Sampaio.»


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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Passos Coelho quer ser comissário europeu?

José Sócrates tornou pública a sua pré-candidatura a deputado europeu. Deu a notícia como costuma, por interposto amigo ou avençado. Desta vez, em 3-11-2013, por intermédio do seu amigo Ascenso Queres-Que-Assine-Por-Ti-A-Folha-De-Presenças Simões no seu obscuro blogue, com ampliação rápida filtrada para a imprensa (quem seria o jornalista que teria, de modo diferente dos paparazzi alertados pelos próprios artistas, a paciência de visitar diriamente o blogue do sítio do ex-secretário de Estado?...). De dono da terra à esmola segura (?) de um lugar exegível de deputado europeu... Onde isto vai!... O seu bando por um lugar de imunidade - já que não consegue ser presidente, nem comissário, nem curador... E o espectável tacho de docente convidado no ISCTE - tendo em conta a sua reflexão sobre o deontologismo, no seu livro de memórias, será que vai ministrar a cadeira de Ética e Deontologia, da licenciatura em Contabilidade, ou a unidade curricular de Ética e Desenvolvimento Profissional, do mestrado em Psicologia Social da Saúde (uma variante da pós-graduação em Engenharia Sanitária?) ou, quiçá, tendo como experiência o seu auto-exílio, algum módulo torturante no curso de Migrações Forçados, Refugiados e Direitos Humanos?

Ao lado, Pedro Passos Coelho terá posto a circular na imprensa, em 4-11-2013, a sua preferência por Miguel Poiares Maduro para ocupar o lugar de comissário europeu. A Comissão Europeia atual termina o mandato em 31-10-2014. O gato está escondido com o rabo do coelho de fora...

Portugal terá direito a um lugar de comissário (ou, improvavelmente, de Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comuns) - desde que Durão Barroso não consiga ser indicado, no congresso de Dublin, de 7-8 de março de 2013, do Partido Popular Europeu (PPE), como candidato do PPE a um terceiro mandato consecutivo como presidente da Comissão Europeia, pois nesse caso este ocuparia a quota nacional. Os comissários serão indicados pelos países após as eleições europeias do final de maio de 2014.

Será que Passos Coelho projeta a mesma estratégia de Durão Barroso, em 2004? Recordo que Durão Barroso apresentou a sua demissão do XV Governo Constitucional em 5 de julho de 2012, foi substituído como primeiro-ministro em 17 desse mês por Pedro Santana Lopes, mas só veio a tomar posse como presidente da Comissão Europeia em 23 de novembro de 2004, quatro meses depois.

Se Passos Coelho quiser ser comissário europeu (e garantir assim um quinquénio de imunidade e proetção política) terá desde logo, depois de negociar com Paulo Portas, de conseguir que o Presidente da República Cavaco Silva, como Jorge Sampaio em 2004, aceite a solução da substituição interna na maioria PSD-CDS, que aguente o ónus de um governo de transição até ao termo do mandato do Governo. Como se sabe, para proteger o Partido Socialista afetado pelo terramoto de abuso sexual de crianças da Casa Pia, que aconteceu em maio de 2003 e teve réplicas nos meses subsequentes, o Presidente Jorge Sampaio até aceitou que a substituição de Barroso por Santana fosse feita sem que o PSD realizasse um congresso eletivo... Provalmente, a passagem de Durão Barroso de São Bento para o Berlaymont, já tinha sido negociada há muito tempo com Sampaio, que em contrapartida tutelava, à francesa, o Governo deste.

Todavia, é possível que aconteça agora com Cavaco, não o que Sampaio admitiu em 2004, mas o que Eanes negou em 1983: a substituição de Francisco Pinto Balsemão por Vítor Crespo. Não é esperável que Cavaco nomeie um novo-primeiro ministro, sem que o PSD o escolha em congresso extraordinário.

Todavia, vamos supor que no Conselho Europeu em que se discute a lista de comissários, Passos Coelho indica o seu próprio nome para o lugar de comissário português.

A lista de comissários é aprovada, por maioria qualificada, pelo Conselho Europeu e depois pelos Parlamento Europeu, também por maioria qualificada. A escolha pelo Conselho Europeu, onde se sentam os primeiros-ministros da União Europeia, de um comissário nacional de setor diferente do Governo desse país seria inviável; a aprovação pelo Parlamento Europeu, por maioria qualificada, da lista de comissários pressupõe o acordo da força política da oposição, neste caso dos socialistas, e também parece improvável que o comissário nacional provenha de setor diferente do governo em funções na altura em que a lista for discutida. Tudo isto concorre para um resultado em que Passos Coelho, se quiser ser comissário europeu, tem de conseguir a adesão de Paulo Portas, assegurar que Cavaco Silva não dissolva o Parlamento, quando ele se demitir, e deixar uma solução de governo que lhe garanta, pelo menos, o tempo indispensável à sua tomada de posse como comissário (três meses?).

São muitas condições e muito difíceis. Se Passos cair, Portas precisa de recuperar o espaço eleitoral do PP, o que não é compatível com um governo temporário. Cavaco quer apenas terminar o mandato sem perder muito mais popularidade, um desejo que é incompatível com a nomeação de um primeiro-ministro sem novas eleições, além de estar amarrado à sua Comunicação ao País, de 10-7-2013, na qual acenou com eleições antecipadas, se fosse estabelecido entre PSD-CDS e PS um «compromisso de salvação nacional» - «A abertura do processo conducente à realização de eleições deve coincidir com o final do Programa de Assistência Financeira, em junho do próximo ano» -, e que criou no povo essa expetativa. E o próximo líder do PSD estará pouco interessado em suceder a Passos Coelho num Governo transitório, de poucos meses, sem eleições legislativas antecipadas, além de lhe custar defender a escolha impopular do comissário Passos nesse sufrágio. Tudo considerado, Passos pode tentar a manobra, como está a fazer, mas é inverosímil que tenha êxito.


* Imagem picada daqui.

A normalização da pedofilia

Veja-se a diferença entre a política laxista portuguesa, na legislação e na jurisprudência, no combate ao abuso sexual de crianças, nomeadamente a descida da idade de consentimento para os 14 anos nos casos de abuso homossexual de menores, e a restritiva política britânica nessa área, que inclui o Registo dos Abusadores Sexuais de crianças e a expulsão da profissão de professores que descarreguem ficheiros de pornografia infantil.

E, já agora, note-se o efeito da denúncia pública e da pressão popular que obrigou ao recuo da American Psychiatric Association (APA), em 31-10-2013, na reclassificação que havia feito no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5.ª edição (DSM-5), da pedofilia como «orientação sexual» em vez de «distúrbio» mental e parafilia. Essa reclassificação da APA culminou uma tendência subtil de normalização da pedofilia, inscrita numa vasta campanha de submissão da ciência à ideologia politicamente correta. A emenda posterior da APA não desculpa a gravidade da dita reclassificação.

Pouco a pouco, mas de forma consistente, os pedófilos vão conseguindo que a lei e a sua execução lhes reabilite a tara. Com mais gravidade ainda, os pedófilos procuram acoitar-se na homossexualidade para legitimarem a sua tara e os seus atos.

No nosso País, como se viu e sabe, como noutros, o combate à pedofilia não conta com o apoio do poder político, e das suas antenas no poder judicial, porque o abuso sexual de menores tende a ser desculpado como variante da orientação homossexual. E depois, por essa via imoral, se desculpam também os abusos sexuais heterossexuais. A permissividade face ao abuso sexual de menores é um dos temas mais gritantes de distanciamento entre o poder político e o povo.


Atualização: este poste foi emendado às 15:01 de 6-11-2013.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Um exemplo do delírio socialista


An aerial view of Elstree Aerodrome, Hertfordshire
Aeroporto de Elstree Aerodrome, Hertfordshire, Inglaterra

A câmara de Newcastle, na Inglaterra, foi condenada a pagar lições de pilotagem de aviões no valor de 10 mil libras (11.894 euros), a título de formação profissional, ao refugiado etíope Yonas Admasu Kebede, de 21 anos, muito embora o Governo lhe tenha recusado recusado o pedido de asilo na Grã-Bretanha - segundo notícia do Telegraph, de 5-11-2013.

Assim vai o delírio socialista. Ao Estado social(ista) nem é preciso combatê-lo: ele enterra-se. Só que não se enterra sozinho, leva-nos com ele para sete palmos debaixo do chão.


Atualização: este poste foi emendado às 15:10 de 6-11-2013.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A impunidade da corrupção e a normalidade da miséria

Noticiou o DN, de 2-11-2013: «Lagarteiro regressa à normalidade com energia clandestina». A «normalidade», que o DN atesta, foi recuperada do corte de eletricidade a dezenas de casas que a EDP fez no dia anterior.

O tema tem dois vetores de análise: sobre o produtor e sobre o consumidor.

O produtor é a EDP, a qual tinha, em setembro de 2013, uma quota de mercado no número de clientes de 83,7% (se bem que a quota do mercado liberalizado é de 44,9%). As tarifas, e suas condições (nomeadamente, os horários...), são definidas pelo Estado, mas, como se passa nas telecomunicações, a entidade reguladora ERSE (Estado) é, na prática, uma entidade dependente da promiscuidade Governo-EDP no atual e nos anteriores. O Estado em vez de protegerem os consumidores protege os produtores em nome da economia nacional, como se esta só tivesse oferta, e não consumo, mas os motivos fundamentais são o financiamento dos políticos e a sua expetativa de quinquilharia. Ainda que as mesmas condições sejam concedidas pelo Estado aos demais, com superproteção do Governo à elétrica nacional, a EDP apresenta:
  1. Preços altos para as bolsas lusitanas.
  2. Tarifas bi-horárias e tri-horárias de horários manhosos, que lhe trazem lucros assinaláveis (porque lhe ocupam a capacidade instalada e a produção de custo mais barato de energia de vazio) com desvio de consumos para os horários noturnos com muito baixo desconto e provocam uma mudança nos hábitos das famílias que se quiserem poupar qualquer coisa que se sinta na fatura terão de cozinhar de tomar banho e cozinhar de madrugada e depois das 22 horas (para além das programadas máquinas de lavar)
  3. Os salários e prémios fabulásticos que recebe a administração Mexia, a estratégia de crescimento internacional alavancada no passado à custa dos lucros internos e que redundará, mais cedo ou mais tarde, como na PT na mesma entrega a estrangeiros e na migração dos centros de competências atrás dos centros de decisão deslocalizados de Portugal.
  4. E baixos descontos sociais.
Os Descontos Sociais de eletricidade, concedidos também, segundo a lei, pelos outros fornecedores de energia, são atribuídos aos beneficiários do Complemento Solidário para Idosos, do Rendimento Social de Inserção, do Subsídio Social de Desemprego, do Abono de Família para Crianças e Jovens no 1.º escalão e da Pensão Social de Invalidez. Estes beneficiários têm, no ano de 2013, um desconto de 13,8% no valor da sua fatura (antes de IVA) do «Apoio Social de Eletricidade ao Consumidor de Energia (ASECE)» e de 0,36 € a 1,43 € (+IVA) da Tarifa Social para a potência contratada (vulgo contador). A EDP argumenta que os seus lucros são obtidos principalmente nas suas operações no estrangeiro, e não na distribuição em Portugal, onde não existe margem para baixar preços, o que importa demonstrar. Porque, por enquanto, a imagem pública da EDP é a que enunciei acima: preços altos, descontos sociais baixos e salários e prémios exorbitantes da administração face ao leque salarial do País e à sua situação económica e financeira (ver o excelente serviço do Akinúmeros).

O segundo vetor de análise incide no segmento que não paga energia ou que a obtém de forma ilícita (por ligações clandestinas à rede e por manipulação de contadores). E, mais uma vez, não se pode reduzir simplisticamente a taxonomia a ricos e pobres, considerando pobres todos os que vivem em bairros sociais e todos os que não pagam os serviços ou abusam, pois há um limbo mediático de proteção de delinquentes e de não pagadores de impostos, de elevados rendimentos e nível de vida, que beneficiam injustamente do estatuto de pobres e que também incorrem, nestes bairros e fora deles, nestas condutas. Tal como não se pode generalizar estas condutas a todos os que vivem em bairros sociais.

A situação de não pagamento e obtenção de energia de modo ilícito, não acontece apenas na eletricidade, mas também na água, no gás, nos telefones fixos, na TV por cabo - e nas rendas sociais, por mais baixas ou simbólicas que sejam. O acesso clandestino, e o não pagamento, de serviços básicos, e de renda de casa, não é um fenómeno raro, mas muito frequente em bairros sociais inteiros, por essa Europa e mundo liberal-socialista fora. O facto desses serviços ser clandestino ou não pago leva ainda ao consumo excessivo de energia, e outros bens, em contraste com a poupança a que são obrigados os consumidores pagantes.

Contaram-me que num bairro social que conheço, os cabos de fibra ótica de uma empresa de televisão por cabo, que passavam perto, eram sucessivamente cortados, o que implicava uma despesa muito grande de reparação pela empresa. A empresa mandou um emissário para negociar uma solução pragmática. Perguntou-lhes o que queriam para deixar de cortar o cabo: responderam-lhe que queriam SportTv gratuita para todos. Assim se fez. E assim se faz na energia, na água e nos telefones. Os cortes de abastecimento só são realizados com acompanhamento dos técnicos pelas forças de segurança, pois de outro modo os técnicos são ameaçados com armas de fogo ou agredidos; e sem demora, logo a situação é, utilizando o léxico politicamente correto, «normalizada»...

Uma grande parte das famílias dos bairros sociais que incorrem nestas práticas subsistem do rendimento social de inserção, além de subsídio de desemprego (além dos pensionistas que são nestes bairros uma sofrida categoria à parte). Nos que trabalham, os salários são baixos e o desemprego é elevado. O abuso dos subsídios - formalmente concedidos a quem não tem condições de trabalho ou não encontra trabalho - tem levado a um fenómeno socialmente insuportável: o de famílias pobres em que todos quantos podem trabalhar o fazem, e procuram ativamente emprego quando são despedidos, terem um nível de vida pior do que os subsídio-dependentes. Com efeito a acumulação das ajudas financeiras (e de bens e serviços), concedidas pelo Estado, pelas câmaras municipais, pelas juntas de freguesia e pelas instituições particulares de solidariedade social (IPSS), conjugado com o não pagamento de rendas irrisórias e o acesso clandestino aos serviços básicos, excede bastante o rendimento obtido por famílias trabalhadoras que recebam salários baixos. Este Governo passocoelhista perdeu a oportunidade de reforma das políticas sociais porque o seu leitmotiv, o seu fio condutor, continuou a ser o mesmo tipo de negócios do socratismo, ainda que por outros meios, e para tanto era necessário o apaziguamento da revolta dos deserdados da sorte ou automarginalizados da sociedade pagante, um apaziguamento que a troika UE-BCE-FMI também valoriza.

É este o panorama da «underclass» de que falava o ator Russell Brand, na revista New Statesman, de 24-10-2013. Ceteris paribus, sem , a situação não estaria longe da miséria novecentista descrita por Victor Hugo nos Misérables (volume 1 e 2) ou Charles Dickens na parte antes da revolução do Tale of Two Cities. Mas a ajuda do Estado, das instituições autárquicas e das IPSS, e a contenção policial geográfica, não resolveram a condição social, mesmo quando elevam o nível de vida material. Faltou o trabalho. Como disse aqui há muito: não há reabilitação social, sem reabilitação económica e não há reabilitação económica sem reabilitação laboral. Sem trabalho, não há libertação do círculo vicioso da miséria.

Nesta degradação humana, a degradação moral é mais gritante. Gritam os pobres e gritam as classes médias, como no quadro de Munch, num desespero determinado pelo atual sistema político, que todavia consentem, por benefício ou receio. Há, então, um desprezo do poder político por esta «underclass», reduzida quase a uma condição nazista de «untermensch», semelhante ao desprezo habitual dos ricos pelos pobres. Esse desprezo pela condição humilde dos pobres e pela reabilitação económica, expresso na displicente esmola financeira - com negligência de cuidar se é gasta em comida para as crianças ou álcool ou droga para os adultos -, existe porque, pela vilificação da democracia representativa, os políticos socialistas e socialistizados ascenderam rapidamente à condição de ricos, o que censuravam discursivamente aos capitalistas.

Nos EUA, apesar da alteração com o socialismo suave de Obama, a política social tem sido sempre a de não entregar dinheiro, mas do Estado pagar diretamente as rendas, os produtos (food stamps) e os serviços, obrigando ao trabalho para chegar ao dinheiro - e reprimindo com penas duras a delinquência.

Na Europa, o socialismo impôs a todos, pagantes e beneficiários, a subvenção em dinheiro e a contenção policial geográfica, autorizando zonas fora da lei (constou nos média que o presidente Jorge Sampaio chegou a pedir a mediação do Governo caboverdiano para visitar em segurança o bairro da Cova da Moura em 13-6-2005). No discurso, a opção socialista europeia gabava-se da superioridade civilizacional de empossar o beneficiário com a administração livre do seu dinheiro, em vez da tutela norte-americana que lhe paga bens e serviços diretamente aos fornecedores. Na prática, na Europa tem sido o que se vê, desde a regressão económico-social do rendimento social de inserção do socialismo de Rocard, em 1988: marginalização ainda mais profunda dos pobres, que não conseguem sair do círculo vicioso da subsidiodependência e esporadicamente se revoltam porque se sentem no desprezo segregacionista do poder político socialista-rico. O socialismo não reabilitou os pobres, como antes também não o tinha feito a igualitarização comunista dos rendimentos e da riqueza.

Então, o statu quo ante bellum nas duas cidades - o avarento núcleo faustoso ou no subsidiado subúrbio marginal - uma outra formulação face à doutrina agostininana, é mantido, na realidade, por um profundo desprezo por aquilo que o poder político dominante classifica, entre dentes, ser a condição sub-humana destas franjas sociais. O subsídio do poder corrupto é a moeda de troca da conformidade política desta classe marginalizada. Na verdade, o trabalho, associado ao consumo diferido, propiciaria a reabilitação social que rebentaria com o grilhão da corrupção de Estado. Sem subsídio, as classes mais pobres revoltar-se-iam, mais cedo do que o receio deixar de tolher as classes médias que serão motoras da mudança política. Paradoxalmente, é a subvenção agrilhoada pelo Estado socialista europeu nas três últimas décadas que degrada ainda mais a condição social dos mais pobres.

Neste blogue, tenho procurado refletir ao longo dos anos sobre o problema social. E, como noutras áreas políticas, não deixei de apresentar propostas de solução. Nesse sentido, propus, em agosto de 2011, para as famílias carentes: o cheque social único atribuído pelo Estado às famílias carentes, no qual seriam descontados rendas sociais e serviços, e que deveria vir acompanhado de um recibo que mencionasse o valor em dinheiro de todos os apoios do Estado, e instituições autáquicas, em géneros e serviços consumidos; um cartão de crédito social para aquisição (e contabilização do valor em dinheiro) de apoios sociais em géneros e serviços; para além de não abdicar da obrigação de trabalho para todos os beneficiários de apoio social (na idade activa) que tenham condições físicas e mentais para trabalhar e salário conforme os dias de trabalho efectivo, conjugado com apoio financeiro por baixa por doença para quem não possa trabalhar.

Contudo, sem prejuízo da responsabilização reabilitadora, voltamos sempre ao dever da caridade cristã (palavra proibida que existia ex ante da solidariedade maçónica). O amor que apoia os pobres nesta terra e lhes abre as portas do Céu. Segundo, me contaram, nos heterodoxos franciscanos de Leiria, passou um padre castelhanófono que um dia escandalizou o povo conservador na homilia com a invocação: «Las prostitutas están todas en el Cielo!». Na verdade, quero crer que estejam, como todo, e qualquer, filho de Deus.

A outra face da segregação da miséria é a corrupção de Estado.

Os atuais pobres sentem-se depauperados não só de bens, mas de respeito que a todas as pessoas é devido pelo seu direito à dignidade humana, inalienável por qualquer esmola do Estado corrupto. Um respeito que hoje lhes é negado por aqueles mesmos que os dizem promover e rebaixam moralmente. O que importa aos governos fazer para responder ao problema social é resolver o problema da corrupção de Estado e, sem abandonar o dever de socorro dos mais necessitados, reabilitar o trabalho como motor da sociedade.


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* Imagem picada daqui.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O Estado pagão nacionalizado-socialista



O José prevê que «o assunto BPN vai esfriar», agora que o novo DCIAP está a investigar a gestão da CCG no BPN, na administração liderada pelo socialista Francisco Bandeira, conforme noticiou a TSF, hoje, 1-11-2013:
«O Ministério Público está a investigar a Gestão do BPN pela Caixa Geral de Depósitos. Em causa está o crédito concedido a várias empresas contra garantias de muito menor valor.
Na primeira metade de 2009, o BPN já sob gestão da Caixa Geral de Depósitos (CGD) terá concedido mais de 500 milhões de euros de crédito a cerca de 80 empresas que deram como garantias apenas 81 milhões de euros.
Significa isto que o valor do crédito concedido às mesmas empresas aumentou 328 milhões de euros comparando com o ano de 2008, altura em que o banco não tinha ainda sido nacionalizado.
Com estes dados, a Parvalorem, a empresa pública que está a gerir os chamados ativos tóxicos do BPN, confirmou ao Diário de Notícias que já seguiram para o Ministério Público queixas crimes contra a antiga administração do BPN liderada por Francisco Bandeira.
A empresa pública afirma que foram concedidos créditos de valores consideráveis sem que existissem garantias. E, por isso, agora é muito difícil recuperar esse dinheiro. O DN adianta que as queixas estão a ser analisadas pelo Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP).»
Conclui o José na Porta da Loja que
«Com estas notícias aposto que o assunto do BPN, da "roubalheira", do "caso de polícia", do exemplo de má gestão e o símbolo da ruína do país vai esfriar e deslocar-se para outros alvos. Estes não servem para o efeito porque são os que compraram os foguetes, deitaram o fogo e foram apanhar as canas da "festa" que durou até às tantas, desde 2005.»

A notícia filtrada do inquérito-crime, por queixa da governativa Parvalorem, à gestão de bandeira socialista do BPN, parece ser uma represália passoscoelhista à ameaça de julgamento socialista dos governantes atuais, reclamada por Mário Soares, em 13-10-2013. Já a pergunta do José sobre o motivo por que não nacionalizada a SLN não foi respondida pelo poder anterior, nem por este, porque o poder, com ligeira tonalidade diferente - o rosa-choque sobreposto por salmão-pálido -, é o mesmo. A SLN não foi nacionalizada pelos socialistas, e foi financiada pelo BPN nacionalizado socialista (depois de ser financiado pela fação negra do cavaquismo social-democrata), porque nela prepondera a Maçonaria: o atual grão-mestre do Grande Oriente Lusitano da Maçonaria Portuguesa é o presidente da Galilei (ex-SLN).

Não chega para alegrar o setor patriótico, que assistiu com pasmo à apresentação, em 30-10-2013, pelo vice-primeiro-ministro Paulo Portas, do «Guião para a Reforma do Estado» - em 112 páginas de Arial 16 (!...), parágrafo 2,5 (!...), margens de 3,5 por 5 cm, para fazer render o peixe malcheiroso, um plano-que-não-é, sem rumo, nem vento, auto-justificativo, sem análise, sem missão, sem objetivos concretos, quantificados e calendarizados, e com estratégia vaga e difusa, numa barca furada de governo à deriva, sem rumo, nem vento.

Hoje, é Dia de Todos-Os-Santos (festa católica em tempos respeitada pelo poder político em Portugal, e que se mantém feriado em Espanha, na França, na Itália, na Bélgica, etc. - no Brasil, o feriado é no 2 de novembro, dia de Finados), feriado antigo eliminado, em maio de 2012, pelo paganismo passoscoelhista (concluindo uma intenção do paganismo socratino) e brevemente substituído pelo norte-americano Haloween (Noite das Bruxas). Santos somos todos, afinal, os cidadãos vítimas da corrupção do Estado que deixou de ser laico para se tranformar em pagão antirreligioso.


* Imagem picada daqui.


Limitação de responsabilidade (disclaimer): As entidades referidas nas notícias dos média, que comento, não são aqui imputadas de qualquer ilegalidade ou irregularidade.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A revolução e o trabalho

A entrevista concedida pelo ator Russell Brand a Jeremy Paxman, no programa Newsnight, da BBC, 23-10-2013, prévia ao seu artigo «Russell Brand on revolution», na revista New Statesman, na edição de 24-10-2013 (da qual foi editor convidado), merece análise porque se inclui num quadro atual de alienação juvenil da política institucional.

A plataforma ideológica de Russell Brand consiste, resumidamente, na luta contra a corrupção de Estado e promiscuidade financeira, o «climate change» e o igualitarismo de rendimento e de riqueza decretado pelo Estado. Combato, há muito, com sacrifício e risco, a corrupção de Estado, e denuncio há bastante tempo a subjugação do Estado aos bancos e agentes financeiros. Não acredito no credo do aquecimento global, nem que atualmente não se não levem a sério os problemas ambientais reais e concretos. E também não creio na imposição pelo Estado do igualitarismo de rendimento e de riqueza.

No final do século XX e princípio do século XXI, a «underclass», que Russell Brand pretende defender, é principalmente o produto socialista do assistencialismo e do desemprego, isto é da desocupação. É o trabalho que promove. Não há nada de mais revolucionário na sociedade atual do que a reabilitação do trabalho.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

«José Carvalho Pinto de Sousa» - tout court

Ainda sobre o «mémoire» de Sócrates, agora que, como Vasco Pulido Valente assinalou no Público, de 25-10-2013, o ex-primeiro-ministro lançou, em 23-10-2013, a sua pré-candidatura presidencial em 23-10-2013, com o pretexto da apresentação do seu livro no Museu da Eletricidade (da EDP), com segurança garantida pelo seu anfitrião e amigo António Mexia.

Em 21-9-2013, o diretor do Expresso, Ricardo Costa, publicou a notícia «Sócrates conclui mestrado com tese sobre tortura», na página 5 do caderno principal do semanário, com informação direta do próprio José Sócrates, que era citado na peça. Nessa notícia, que repito foi escrita com base na informação direta de José Sócrates, diz-se:
«Foi por isso [pela importância atual do tema da tortura] que José Sócrates escolheu este tema para a sua mémoire (tese de mestrado), que defendeu em julho na Sorbonne, em Paris, e que agora vai publicar em Portugal. (...)
Um livro de filosofia dificilmente será um livro de grande público. Mas, pelos vistos, não era esse o objetivo de Sócrates, que apenas quer fechar o ciclo iniciado com a ida para Paris em 2001 e concluído com a defesa da tese em julho.»
Importa conjugar estes dois trechos da notícia com a manchete da mesma («Sócrates conclui mestrado com tese sobre tortura») e ainda com o excerto da entrada para esta notícia na primeira página do jornal, «Ex-líder do PS terminou mestrado em julho» - uma notícia que o dá . As falsidades da notícia foram expostas por mim no poste «O mémoire de Sócrates», de 23-9-2013, nomeadamente: Sócrates não podia ter defendido a «tese» na Sorbonne (a Sciences Po não pertence à Sorbonne...); e o trabalho que Sócrates apresentou, em rigor, e apesar do que ele próprio lhe chamou na notícia de 21-9-2013, «tese de mestrado» (sic), é um «mémoire» (um «estudo de viabilidade de uma tese», de «formato bastante reduzido») e não uma «tese» («thèse») palavra que a lei francesa guarda para a dissertação de doutoramento.

Note-se ainda que na entrevista à revista do Expresso (Clara Ferreira Alves), de 19-10-2013, p. 29, Sócrates disse: «Escrevi este livro em francês. E traduzi para português». Notei a evolução da sua performance no meu poste de 24-10-2013:
«Veja-se, a propósito, a sua confissão do seu nível de francês, na conferência "Quelques clés pour comprendre le Portugal actuel", no Amphithéatre Bolivar do Campus de Poitiers da Sciences Po, em 3-11-2011: «Mon français c'est três mauvais, comme vous pouvez voir...» (7:45 da gravação da conferência) - aliás nessa entrevista ao Expresso, de 19-10-2013, p. 29, o ex-primeiro-ministro diz que "tinha um conhecimento do francês, muito insuficiente, tive de graduar-me" (sic). Todavia, não é humanamente impossível que José Sócrates tenha evoluído num ano (de novembro de 2011 até ao início de 2013) do nível aflitivo de francês apresentado dos 6:14 minutos até aos 8:49 minutos dessa conferência de novembro de 2011, em Poitiers, em que arranhou a língua gaulesa, até ao nível superlativo de domínio da língua para redigir, ele mesmo, um "mémoire" de mestrado e em "Ciência Política - Menção Teoria Política".

A rapidez do primeiro-ministro na redação do seu «mémoire» de mestrado fica ainda mais evidente na referida notícia de Ricardo Costa, de 21-9-2013, quando este, com base na informação direta de Sócrates, escreve: «O tema da tese foi escolhido no final do ano passado». Então, desde o final de 2012, quando escolheu o tema, até julho de 2013 quando diz que defendeu o «mémoire», em cerca de nove meses (?), José Sócrates planeou, pesquisou, analisou e redigiu um trabalho que, traduzido para português, o que disse, em 19-10-2013, também ter feito pelo seu punho, chega às 192 páginas do livro «A Confiança do Mundo», apresentado em 23-10-2013 - a que se deve descontar o prefácio de Lula da Silva. Mas o tamanho do «mémoire» foi o feito mais leve... A parte mais dura é ter feito em francês um trabalho académico de teoria política, disciplina em que o comando da língua, e da subtileza do francês, é ainda mais exigente. E Sócrates adquiriu esse domínio superlativo da língua francesa em apenas um ano face ao «muito mau» francês confessado na conferência de Poitiers, de novembro de 2011. A obra sobre a tortura pode ser negra, mas a prestação é rosa, de choque.

Todavia, o recorrente problema com a verdade de que Sócrates tem sofrido não lhe permite o estatuto que merecia D. Madalena de Vilhena no «Frei Luís de Sousa»: «D. João de Portugal morreu no dia em que sua mulher disse que ele morrera»... E, assim, cabe verificar tudo quanto diz e clama e também completar as suas habituais lacunas de informação. Questão:
  • Quando foi realmente apresentado, discutido e aprovado, o «mémoire» de mestrado de José Sócrates, na Sciences Po de Paris, data na qual o ex-primeiro-ministro adquiriu o grau de mestre por aquele instituto universitário francês?
É que o mais próximo que ficamos desse facto intrigante (como são muitos relativos ao percurso académico rocambolesco do ex-primeiro-ministro) - e por mais que se tente iludir quem procura sempre acaba por se encontrar... -, é o registo no sítio Theses.fr, da francesa Agence Bibliographique de l'Enseignement Supérieure (ABES), do «projeto de tese» de doutoramento, desde 1 de outubro de 2013, em Ciência Política no Institut d'Études Politiques (vulgo «Sciences Po»), sob a direção da professora Astrid von Busekist (que é a diretora de estudos doutorais em Teoria Política da Sciences Po), de «José Carvalho Pinto de Sousa» (sic):


«La torture et l'exception en démocratie
par José CARVALHO PINTO DE SOUSA
Projet de thèse en Science politique
Sous la direction de Astrid von Busekist.
Thèses en préparation à l'Institut d'Études Politiques, dans le cadre de Institut d'Études Politiques (Paris). École doctorale depuis le 01-10-2013.»

«José Carvalho Pinto de Sousa». Tout court... Porque lhe falta «Sócrates».


Limitação de responsabilidade (disclaimer): José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa não é aqui imputado de qualquer ilegalidade ou irregularidade; Astrid von Busekist, ép. Sadoun, não é aqui imputada de qualquer ilegalidade ou irregularidade.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O socialismo partido em três S



Os socialistas estão partidos em três «S»: Seguro, Santos da Costa (ou Santos Costa, sem a contração da preposição «de» com o artigo «a», segundo o Geneall) e Sócrates. Três eixos divergentes de um carro desconjuntado.

Apesar de o presidente da CMLisboa, nas pisadas de Jorge Sampaio, estar melhor posicionado, existem dúvidas nas hostes socialistas de que santos da costa façam o milagre de manter a festa rosa no seu pleno fulgor. Nesse sentido - contrário ao dos ponteiros do relógio... -, é interessante que Soares venha acompanhando Sócrates.

No baile socialista, o desconfiado (in)Seguro assiste no cadeirão do Rato, enquanto Sócrates e Costa dançam o vira nos salões da sociedade. António José Seguro não foi à tomada de posse de Costa na CMLisboa, em 24-10-2013, na qual, porém, esteve José Sócrates acompanhado por Mário Soares. Contrariado, Sócrates teve de ir ao baile de Costa, que, todavia, não foi ao seu. Mas Sócrates deve a António Costa a entrevista glamour...rosa, de 19-10-2013, ao Expresso do seu mano Ricardo... Sócrates amarga o desprezo com a mesma sede de vingança que teve perante a aristocracia socialista («raios vos partam, vou vencer-vos a todos», como disse na entrevista ao Expresso, de 19-10-2013, sobre a sua ascenção no partido).

A estratégia de Sócrates face a Costa é o envolvimento: um abraço de gibóia. O ex-primeiro-ministro ainda não abandonou o palco político. Invertendo sucessivamente, em poucos dias (!), uma e outra vez, o seu rocambolesco percurso académico, de atalhos mal desenfiados, sombras lisbonenses e penumbras parisienses. Anunciou aos quatro ventos do País ter terminado a sua vida académica, na notícia do Expresso, de 21-9-2013 («fechar o ciclo iniciado com a ida para Paris em 2001 e concluído com a defesa da tese em junho»...), sinalizando uma semana antes das eleições autárquicas, a sua pré-candidatura presidencial. Nocateado pelo resultado que deu a Costa um score superior a 50% na câmara de Lisboa, a Seguro um salvo-conduto até às próximas eleições legislativas e a Passos uma derrota sofrível que o arrastará até ao início de 2015, Sócrates viu fechada a via presidencial ou de comissário europeu (o CM, de 25-10-2013, diz que também até o cargo prestigiante de curador da Fundação Champalimmaud que o seu amigo Proença de Carvalho lhe queria entregar) e, na tal atitude sobranceira de dispensar o «favor popular», vira-se novamente para o refúgio da academia: «eu fui e ainda sou estudante de Sciences Po»... Contudo, num «repente» como é da sua personalidade, empolgado pelas reações às entrevistas de lançamento do livro do negro «mémoire» sobre a tortura, e mais ainda pelo milhar de dependentes que, com medo e sem vergonha, lá foram ao frete pseudo-intelectual do Museu da Eletricidade (cedido pela EDP do amigo ausente Mexia), nas imediações simbólicas do Palácio de Belém, posiciona-se como candidato sistémico às presidenciais de 2016. Um passo em frente, outro atrás, e mais outro para diante: tem-te, não caias!...

Devagar, Sócrates vai enrolando Costa, com o intuito subreptício de disputar o recontro florentino das pré-primárias presidenciais com um apoio sistémico mais forte. Sócrates crê que, se conseguir consolidar esses apoios sistémicos e com as informações de que dispõe, Costa nem irá ao concurso... Veremos como evoluem os dançarinos, agora que se aproxima o corridinho.


Atualização: este poste foi emendado às 11:41 de 26-10-2013.