quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Temperança

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O País ferve. Mas é melhor baixar a temperatura política para o lume brando, que coze sem queimar. A precipitação do fogo rápido pode incendiar a casa. Anotemos factos, vejamos uma previsão e ajustemos a táctica.

Os factos:
  1. O Governo vendeu ontem obrigações de dívida pública, no valor de 1,2 mil milhões de euros, em montante inferior às necessidades de financiamento do Estado até ao final do ano de 2010 previamente comunicadas (o que obriga à emissão extraordinária de bilhetes do Tesouro para pagar salários, pensões, subsídios e compromissos urgentes como pagamento de juros...), numa taxa média na parte emitida a dez anos, de 6,8% - presume-se que o Governo fechou a venda quando a taxa subiu acima dos 7% e suspeita-se que tenha sido o grupo Caixa Geral de Depósitos (e os seus fundos de investimento) a tomar (quase) firme uma grande parte da emissão de 10-11-2010
  2. Contrariando o comportamento da taxa nas emissões anteriores, quando o efeito especulativo levava a um pico antes da emissão, seguido de uma ressaca nesse dia e nos seguintes, a taxa de juro da dívida pública a dez anos cruzou ontem, 10-11-2010, o limiar psicológico dos 7% e seguiu disparada por aí acima (esta tarde de 11-11-2010, estava em 7,25%...), não se prevendo que volte para baixo dos 7%. O próximo limiar psicológico será os 8%.

Uma previsão:
  1. O apelo ao FMI, após confissão de bancarrota se não houver ajuda extraordinária, parece inevitável (mesmo que seja disfarçado com a oferta da União Europeia e renitência do Governo), para tentar obter empréstimos a taxa mais suportável, como a do fundo da União Europeia/FMI. Provavelmente, o FMI já cá está - chega sempre de véspera e não só quando é anunciada a chegada oficial da missão - , nos preparativos logísticos e burocráticos da intervenção inevitável. Coisa que os jornalistas verão, se cobrirem o(s) palácio(s) e os hotéis. A declaração do secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, João Tiago Silveira, nesta tarde de 11-11-2010, de que «não está previsto pelo Governo pedir a intervenção do FMI» é apenas a confirmação dessa súplica...
  2. O tandem FMI/União Europeia imporá condições draconianas de corte na despesa, para lá do PEC IV da negociação parlamentar, de 2.ª feira, dia 15-11-2010, dos cortes adicionais na despesa para introdução no orçamento a discutir na especialidade. Desta vez não serão os funcionários públicos os principais afectados, caindo também maior perda de rendimento nos pensionistas e empregados do sector privado, bem como nos subsídios. Compreende-se o desejo de travar a descida no inferno da dívida e do crescimento dos juros, mas a perda de soberania nunca é vantajosa: mais valia que se tivesse feito em tempo o trabalho de casa.
A táctica (que se insere na estratégia da IV República):
  1. Não pode ser consentido um Governo de Salvação Nacional que apenas seria de salvação do Partido Socialista e de procrastinação do ressurgimento do País. Nem eu acredito que o Prof. Cavaco Silva se precipitasse ou deixasse envolver, e comprometer, numa manobra palaciana de reciclagem do sistema socialista corrupto, demitindo o primeiro-ministro por o substituir por qualquer outro socialista - como seria hipoteticamente qualquer tarado da «chuva dourada» ou uma opção meta-sistémica pigmeia de alcance e referida a negócios nebulosos com o Estado que teriam, depois, de ser investigados minuciosamente. O dever patriótico é a recuperação do País, não é a salvação do Partido Socialista;
  2. O primeiro-ministro Sócrates terá de executar agora a redução de despesa que os credores impõem a Portugal: comeu a carne, roa os ossos. No fim de realizar esse trabalho, será, então, demitido e julgado.
  3. O PSD não deve participar no aventureirismo de governo provisório algum, nem em qualquer novo pacto que o responsabilize pela austeridade de que os socialistas negligentes são culpados. Depois da eleição presidencial, transcorrido o prazo legal, será, então apresentada uma moção de censura, aprovada também pelo Bloco e pelo PC interessados nos despojos eleitorais do PS. Será uma ocasião esplêndida de limpara a III e fundar a IV República portuguesa.
Aqui, e por onde e com quem possa, combaterei qualquer tentativa de reciclagem do sistema socialista corrupto, com o mesmo vigor que tenho usado no enfrentamento do socratismo.

E para os espíritos em desespero com a situação e o futuro do País, deixo uma palavra de confiança que esta manhã reli, numa pagela de Santa Teresa de Ávila, que minha mãe há tempos me deu:
«Nada te perturbe.
Nada te espante.
Tudo passa,
Deus não muda.
A paciência tudo alcança.»


Actualização: este poste foi emendado às 2:42 de 14-11-2010. Um erro inadamissível, pois a Teresa de Jesus da pagela não era a de Lisieux (Santa Teresinha do Menino Jesus), mas a de Ávila, como confirmei... agora. Grato ao leitor que me preveniu do erro.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A tua vitória?

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Este ano não apareceu ninguém cá em casa a reclamar o Pão por Deus. Creio que foi o primeiro ano em que tal sucedeu e suponho que nunca nas últimas décadas houve tanta necessidade. Em vez da inocência e bondade dos santos do impronunciável Deus, as televisões destacam as bruxas do Halloween, uma tradição alienígena pagã, tornada politicamente correcta, com trevas, susto e sangue. A TVI abriu o telejornal do almoço com um desastre de viação algures no País, num tempo em que a morte, além do diabolismo desta brincadeira artificial, apenas interessa se for próxima - ou politicamente correcta - e as tragédias dos outros homens se desprezam por não convirem ao egoísmo da incerteza. Numa tendência paradoxal face ao egocentrismo e epicurismo dominante, a política torna-se totalitária, impondo negligência moral e resignação aos homens como condição do apoio paternal do Estado, mesmo quando o socialismo crónico (croonico e crooquico) faz do Estado português um moribundo (6,18% de taxa de juro, nesta segunda, 1-11-2010, após o prometido salvo-conduto do acordo orçamental, de 29-10-2010!). E nós, os vigiados da polícia política do Estado socialista, vamos oferecendo o bom combate, e, excepcionalmente, durando.

Porém, hoje, é Dia-de-Todos-Os-Santos, e mais destes mortos, ontem, 31-10-2010, na Igreja de Nossa Senhora da Anunciação, em Bagdad, no Iraque, pelo terror do Islão totalitário e bélico. Islão radical, castigador de quem pensa diversamente e opressor das mulheres, mas com forte apoio do chamado progressismo da esquerda anti-sionista (por exemplo, o Bloco de Esquerda), como é o caso do Irão (que também recebe o apoio do corrupto PT brasileiro da nova presidente lulista brasileira Dilma Rousseff, eleita no domingo, 31-10-2010) - ou noutra ex-religião, a China (por exemplo, o PS português face à violação de direitos humanos). Contra a liberdade dos homens, quer consolidar-se o totalitarismo do Estado e, quando o povo começa a reagir à corrupção e ao abuso, abre-se o acantonamento do Estado, onde se acoitam os ociosos, também aos aflitos desempregados e endividados, cercam-se as forças adversárias com a parafernália tecnológica e negra, e soltam-se os cães de guerra da fusilaria dos media e da (in)justiça obediente, com a barragem de fogo do pensamento único. Uma guerra sem quartel, nem vergonha, que é reservada ao inimigo interno, e a que é poupado o que se supunha ser o inimigo externo e, afinal, é um parceiro, numa trágica política de apaziguamento na linha da máxima (referida a Elton John?) da rendição e do recuo de que «é melhor viver de joelhos do que morrer de pé».

Lembrava-me um amigo, quando escrevi aqui, em 20-10-2010, «Quando o inimigo não se conforma com nada menos do que a nossa pele, não há outro resposta possível senão combater», que a pele pode não ser apenas o sentido figurado da vida, indicando-me o exemplo do martírio de Marcantonio Bragadin, capitão-general de Famagusta e provedor-geral do Reino de Chipre, que foi esfolado vivo pelos turcos de Lala Cara Mustafá Paxá, em Agosto de 1571. Retardado o socorro do reduto da Sereníssima República de Veneza em Chipre às forças do sultão Selim II - 6 mil venezianos contra 200 mil turcos -, enquanto se negociava e organizava a armada da Santa Liga, que sairia vitoriosa dos turcos na batalha naval de Lepanto em 7 de Outubro de 1571, Famagusta capitulava. Todavia, vendendo cara a derrota, como Bragadin prometera a Mustafá Pachá quando rejeitou render-se, respondendo ao comandante turco com a seguinte carta:
«Senhor da Caramania
Vi a sua carta. Também recebi a cabeça do senhor lugar-tenente de Nicosia [Niccolò Dandolo] e digo-lhe aqui que ainda que tenha tomado tão facilmente a cidade de Nicosia, terá de comprar com o seu próprio sangue esta cidade, que com a ajuda de Deus lhe dará tanto que fazer que se arrependerá doravante ter aqui acampado.
De Famagusta, 10 de Setembro.»

(Tradução minha da tradução em inglês, publicada em
SETTON, Kenneth M., The Papacy and the Levant (1204-1571), Vol. IV - The sixteenth century from Julius III to Pius V, Philadelphia, The American Philosophical Society, 1984, p. 996)

Em 31 de Julho de 1571, após onze meses de cerco e bombardeamento pela artilharia turca, Bragadin, com munições para apenas mais um dia de combate, rendeu-se finalmente, após conselho de notáveis e mediante promessa de Mustafá Paxá de poupar as vidas dos seiscentos militares e civis que restavam na fortaleza. Uma promessa que o general turco não cumpriu. Bragadin foi imediatamente decepado das orelhas e, após dias de tortura, durante a qual recusou converter-se ao Islamismo, foi esfolado vivo, sendo a sua pele, recheada de palha e cosida, enviada para Constantinopla como troféu ao sultão. Recuperada em 1680, a pele, com o perfume da alma dentro, repousa agora num mausoléu incrustrado na parede da nave direita da Basilica di San Zanipolo (Basílica de São João e São Paulo) em Veneza.

Na peça «The Life and Death of Julies Caesar», Shakespeare, na aurora desse século XVII, sintetizava a vantagem da bravura sobre a tragédia da cobardia: «Cowards die many times before their deaths; The valiant never taste of death but once». São Paulo (I Coríntios 15:55) já havia firmado essa glória na Bíblia: «Ó morte, onde está agora a tua vitória?».


Actualização: este poste foi emendado às 13:38 de 2-11-2010.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O limiar da indelicadeza


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«termos (vivos, acesos, quiçá a raiar o limiar da indelicadeza»

Excerto do despacho de arquivamento da procuradora-geral adjunta Dra. Isabel São Marcos, de 17-12-2009, do chamado processo Recadogate, referindo-se às pressões do Dr. José Luís Lopes da Mota, nessa altura, presidente do Eurojust, sobre os procuradores Dr. Vítor Magalhães e Paes Faria, para o arquivamento do processo Freeport, no qual o primeiro-ministro José Sócrates é referido. No sítio da Democracia Directa pode ler-se na íntegra esse despacho, bem como o requerimento de abertura de instrução apresentado pela Democracia Directa. O arquivamento deste processo transitou em julgado e José Luís Lopes da Mota, Alberto Bernardes Costa e José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, não foram constituídos arguidos no processo.

A procuradora-geral adjunta Dra. Isabel São Marcos, representante do Ministério Público no Supremo Tribunal de Justiça, desempenha, desde 12-10-2010, as competências de procuradora-geral da República, depois da inédita e surpreendente suspensão de funções, alegadamente por motivo de saúde, do procurador-geral da República Dr. Fernando Pinto Monteiro, segundo disse a RTP, em 12-10-2010, «por tempo indeterminado, e que se espera que seja curto» (sic), estando de «baixa médica» (sic). Conforme se pode ler no sítio da procuradoria-geral da República, o despacho do próprio Dr. Fernando Pinto Monteiro, procurador-geral da República:
«Nos termos e para os efeitos dos artigos 13º e 14º, do Estatuto do Ministério Público, aprovado pela Lei n.º 47/86, de 15 de Outubro, na redacção introduzida pela Lei n.º 60/98, de 27 de Agosto, designo a Senhora Procuradora-Geral Adjunta, Coordenadora do Ministério Público no Supremo Tribunal de Justiça, Lic. ISABEL FRANCISCA REPSINA ALELUIA SÃO MARCOS para, a partir do dia 12 de Outubro de 2010, exercer, em substituição do Vice-Procurador-Geral da República, as competências próprias do Procurador-Geral da República.

Lisboa, 11 de Outubro de 2010
O Procurador-Geral da República»

O despacho lacónico do Dr. Fernando Pinto Monteiro não indica explicitamente o motivo da substituição, nesta hora de extrema gravidade do sistema de justiça e do Estado português. Julgo que é indispensável explicar o motivo e a urgência da inusitada suspensão de funções, ainda mais, repito, neste momento de enorme preocupação com a justiça do País - e até no contexto da existência de uma queixa-crime (ver JN, de 10-10-2010, via Porta da Loja) contra o procurador-geral da República, Dr. Fernando Pinto Monteiro, alegadamente distribuída na próxima semana, para inquérito-crime, da autoria do procurador Carlos Alberto dos Santos Monteiro.

Recordo que o Dr. Jorge Sampaio quando foi submetido a uma cirurgia ao coração em Julho de 1996, informou o País em detalhe dessa circunstância, tendo sido substituído na sua função pelo presidente da Assembleia da República. A resolução de problemas de saúde não pode esperar e pode um problema reclamar absoluta urgência, ainda que suscite perplexidade todo este processo. Ao Dr. Fernando Pinto Monteiro falta cerca de ano e meio para terminar o seu polémico mandato (completará setenta anos em 5 de Abril de 2012), pois a lei de prolongamento de funções, alegamente assinalada para o vice-procurador-geral Dr. Mário Gomes Dias, e que também o abrangeria, foi chumbada pelo Parlamento.

Parece concluir-se, pelo despacho do Dr. Pinto Monteiro, que a Dra. Isabel São Marcos ainda nem sequer foi nomeada vice-procuradora geral... mas fica imediatamente a ocupar o cargo de procuradora-geral da República!...


Limitação de responsabilidade (disclaimer): Nenhuma das personalidades e entidades objecto das notícias dos media, que comento, é, nesta hora em que escrevo e com base nas notícias e dados conhecidos, suspeita do cometimento de qualquer ilegalidade e irregularidade, nestes casos.

«Jesus disse-lhes: "Tende fé em Deus"»


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«Estive com Deus e com o Diabo. Lutaram e Deus ganhou-me. Agarrei-me à melhor mão e em nenhum momento tive medo que Deus não me livrasse disto».

Mário Sepúlveda, segundo mineiro resgatado da mina de Copiapó, 13-10-2010 (Tradução minha)

Estão hoje, 13-10-2010, a sair do fundo da mina chilena de Copiapó, os 33 mineiros soterrados em 5-8-2010, a cerca de 622 metros de profundidade. Os homens, com a ajuda de Deus, ainda conseguem realizar milagres.


«Em verdade vos digo, se alguém disser a este monte: ‘Tira-te daí e lança-te ao mar’, e não vacilar em seu coração, mas acreditar que o que diz se vai realizar, tudo o que disser será feito.» (Marcos 11: 23)

* Título do poste: Marcos 11: 22.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A escolha do novo Patriarca de Lisboa e a autonomia da Igreja portuguesa

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Com a próxima resignação canónica de D. José Policarpo, que completa, em 26 de Fevereiro de 2011, os 75 anos de idade, e deferido o usual pedido do próprio pelo Papa Bento XVI, abre-se o processo de nomeação do novo Patricarca de Lisboa e futuro cardeal (no consistório seguinte).

É um momento crítico para os próximos anos da Igreja portuguesa e do País. A nomeação é uma oportunidade do Patriarcado de Lisboa recuperar a autonomia face ao poder político. É ainda uma ocasião de recuperação do País, não só no plano espiritual, mas também no plano temporal, pois, para lá da voz e da direcção diocesana, o Patriarcado de Lisboa controla a Rádio Renascença e a Universidade Católica de Lisboa, instituições com grande influência social e política. E, tal como o próprio Patriarcado, a Rádio Renascença (onde o gabinete do primeiro-ministro socialista foi contratar colaboradores precoces...) e a Universidade Católica (onde o Governo recrutou inquisidores e instalou antenas...) precisam de restabelecer a independência face a um Estado em clara deriva ditatorial e radicalização de costumes - em vez de se dobrarem a veicular a mensagem do poder e as suas campanhas e perspectiva, como se fossem órgãos oficiosos do Governo de agenda liberal nos costumes e posição anti-clerical. O Patriarca de Lisboa é o chefe da diocese de Lisboa e não o superior hierárquico dos outros bispos portugueses, como muita gente pensa, nem sequer o presidente da Conferência Episcopal; todavia, essa impressão e o facto da sede da diocese ser também a cidade capital política, económica, cultural e de maior concentração populacional, do País, para lá do referido controlo das instituições de poder referidas, torna o Patriarca de Lisboa, o bispo com maior importância da Igreja portuguesa. Isto é, tem um relevo social e projecção directa que se ergue acima do seu cargo.

Assim sendo, a escolha do novo Patriarca de Lisboa, pela importância da função e pelo momento do País, é ainda mais delicada do que costuma. Estão passados 36 anos desde a Revolução de Abril de 1974 e estamos novamente em época de turbulência económica, social e política. Não existe agora um perigo de perseguição dos crentes: há é uma necessidade de reevangelização, de independência da Igreja e de ressurgimento moral.

No período prévio à mudança de regime, importou ao Vaticano, que temia que a Igreja portuguesa viesse a ser forçada à quase clandestinidade após uma tomada do País pela ideologia marxista anti-religiosa, um prudente aggiornamento político, através da nomeação para o episcopado português de clérigos conotados com a esquerda e que pudessem estabelecer pontes com os sectores laicos, que garantissem a sobrevivência da Igreja. Essa transição de uma Igreja conservadora  identificada com o regime salazarista para uma Igreja de pendor social esquerdista cumpriu as tarefas de protecção da Igreja dos abusos revolucionários, um relacionamento muito estreito com o novo poder político, a desejável aplicação mais rápida do Concílio Vaticano II e a reforma da imagem conservadora pretérita. O apoio de Mário Soares a esta nova atitude da Igreja foi uma espécie de confirmação profana do novo relacionamento e consistiu num salvo-conduto socialista (no dia do cerco ao Patriarcado, em 18 de Junho de 1975) após o levantamento social do centro e do norte do país, com epicentro na palavra do Arcebispo de Braga, D. Francisco Maria da Silva, que foi muito mais decisivo para a consolidação da democracia do que a lenda lisboeta bem-pensante do comício socialista da Fonte Luminosa, em 19 de Julho de 1975, organizado por António Guterres.

Esse posicionamento à esquerda não ficou, todavia, pela medida e tempo previstos, nem podia, pois a escolha dos bispos é uma decisão que tem efeitos durante décadas, não só por via dos titulares, mas também dos bispos auxiliares que lhes sucederam. Por exemplo, em Lisboa, ao Patriarca D. António Ribeiro, entronizado em Maio de 1971, sucedeu, em 1998, o seu coadjutor D. José Policarpo, que já era auxiliar de Lisboa desde 1978. Assim, essa contiguidade com o poder maioritariamente socialista - tão frequente e abundante que dispensa linques e embaraça os críticos do relacionamento entre Salazar e o cardeal Cerejeira -, de certo modo, cristalizou a Igreja lisboeta num posicionamento profano e numa relação de fraternidade subserviente com o socialismo maçónico ateu e anti-clerical. Uma relação íntima que, com o radicalismo dos costumes introduzida no Estado pelo primeiro-ministro José Sócrates, em 2005, se tornou ainda mais estranha na Igreja universal e para lá do que a posição oficial da Igreja, católica, apostólica e romana, consente:

«Permanece portanto imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçónicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas. Os fiéis que pertencem às associações maçónicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão.»
Declaração sobre a Maçonaria da Congregação para Doutrina da Sé, de 26 de Novembro de 1983, assinada pelo prefeito cardeal Joseph Ratzinger (actual Papa) e pelo secretário, D. Jérôme Hamer, e aprovada pelo Sumo Pontífice João Paulo II.
Veja-se ainda a este respeito, o artigo «
Reflections a year after Declaration of Congregation for the Doctrine of the Faith: Irreconcilability between Christian faith and Freemasonry», do Osservatore Romano,  de 11 de Março de 1985.

Assim, no mundo e também em Portugal, é inadmissível a pertença à Maçonaria de padres e bispos - mais surpreeendente nalgum grau de Venerável (!) -, mesmo que da Maçonaria regular, bem como a participação de padres e bispos em eventos da Maçonaria, como ágapes destas organizações. Ora, parte dominante da Igreja portuguesa, por meio destas ligações e relações espúrias, enfeudou-se à Maçonaria; e assim continuou, paradoxalmente, quando o Partido Socialista mudou da caridade gutérrica, supervisionada pelo meta-sistema maçónico, para o radicalismo anti-clerical de Sócrates, que manteve, aliás, o apoio desse meta-sistema político maçónico. E não há nenhum pajem cursilhista, nem qualquer intermediação maçónica do meta-sistema, que atenue a promiscuidade com esta radicalização anti-religiosa, a perseguição da influência moral da Igreja e o seu banimento progressivo do espaço público. Nem há qualquer declaração nuancée dos próprios clérigos envolvidos que elimine a natureza contra natura dessa pertença e dessa participação, que o povo não conhece, mas que agora ressuma e repugna. Porém, engana-se quem pensa que a presença e participação na Maçonaria sejam desconhecidas do próprio Vaticano, muito atento à realidade da Igreja portuguesa.

Portanto, a Igreja portuguesa precisa que a autonomia face ao poder político, que tem emergido na conferência episcopal neste dois últimos mandatos, por contraste com a abstenção e favorecimento em anos anteriores do poder político anti-clerical e radical, se consolide na escolha do novo Patriarca de Lisboa. Para isso, é fundamental escolher para Patriarca de Lisboa alguém que tenha dado provas de preferência espiritual, de autonomia pastoral face ao poder político, de sabedoria, moderação e prudência, seja insusceptível de promiscuidade com a Maçonaria ou de abstenção perante a deriva radical do Estado, e constitua, no País, uma referência moral com prestígio para recuperar a função da Igreja a partir da sua capital. D. Manuel Clemente, actual bispo do Porto, é o homem certo para esta hora decisiva. Padre, homem bom, ponderado, sensato e prudente, diplomata, com evidente capacidade de diálogo mas firme na decisão, modesto e concentrado na missão da Igreja, com boa figura nos media mas sem concessão nos princípios e resoluções, académico e humano, historiador e moderno, intelectual e organizador, líder pela prédica, escrita e saber, D. Manuel Clemente é a melhor escolha - digo, nesta altura, a única... - para conduzir a Igreja da capital para a função e lugar autónomo que lhe cabem na sociedade nacional. Como noutros casos se diz, e nestes com mais razão, é mesmo por não procurar o novo cargo que é a pessoa indicada para o desempenhar.

Sucessor natural de D. José Policarpo, pelo prestígio intelectual e pastoral que granjeou, o bispo auxiliar de Lisboa (desde 1999) D. Manuel Clemente,  natural de Torres Vedras, foi enviado para o Porto, em 2007, creio que por vontade alheia; mas aceitou com resignação e alegria o novo encargo e fez, em três anos, no estilo colegial que aprendeu cedo na sua vida, do Porto, sem ofensa para as demais, a diocese portuguesa mais dinâmica, com enorme projecção pastoral, participação em eventos e crescimento espiritual, construindo pontes com a sociedade civil e alcançando até em sectores ateus, uma atenção, consideração e reconhecimento, excepcionais, sem transigir na sua mensagem católica, e conteúdo cultural, o que lhe valeu a distinção do Prémio Pessoa, em 2009. Vir (retornar) um bispo do Porto para Lisboa, como neste momento gravíssimo, nem sequer será uma decisão inédita: D. Tomás de Almeida, que foi o primeiro com o título de Patriarca de Lisboa, foi bispo do Porto, em 1709, antes de ser nomeado titular da diocese de Lisboa, em 1716. No Porto, D. Manuel Clemente deixará saudades, mas sobrará nos fiéis a consolação da ventura que foi o seu apostolado, a presença tranquila e activa nestes anos de dádiva e o orgulho da humildade do seu pastor para novo encargo. Paradoxalmente, poderá ser, em Lisboa, ainda mais útil aos católicos do Porto, pela centralidade e meios disponíveis. Para os católicos do País, e os portugueses em geral, será uma bênção de esperança.


Actualização: este poste foi emendado às 17:42 de 9-9-2010, às 9:15 de 10-9-2010; e emendado e actualizado às 8:08 de 13-9-2010 e 1:33 de 14-9-2010..


* Fotografia de Mário Fróis, Salinas Naturais de Rio Maior II, 2008.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Acabou!

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Disse, a Dra. Catalina Pestana, à saída do tribunal, em 3-9-2010, após a leitura do acórdão do Processo Casa Pia: «para nós, acabou hoje». Lembraremos para sempre os abusos sexuais das crianças, a nossa luta e o proteccionismo do sistema, mas o caso acabou. O veredicto é a sentença que a verdade esperava, que a dor das vítimas precisava e de que o povo envergonhado carecia. O resto a que, surpreendidos com a desfaçatez e falta de vergonha, assistimos, é culpa: cinismo, canto, gozo, desprezo, inumanidade pedófila, sobrepostos aos factos.

Siga a música celestial dos anjos da morte em vida, a mentira sobre os factos, os berros e os insultos contra a justiça, a difamação, a calúnia, a desobediência e o desrespeito da lei e pela justiça, o esmagamento das trinta e duas vítimas a apenas duas e a redução das dezenas de denunciadores, polícias, procuradores e juízes, deste processo e dos outros conexos, onde o resultado foi similar, a apenas uma juíza, que nós, todos, não entraremos no alçapão do julgamento do julgamento. A sentença condenatória da primeira instância foi produzida e, para nós, chega. Agora, é tempo das vítimas refazerem e consolidarem as vidas e o povo ultrapassar o trauma.

As esperadas saídas em ombros, as voltas ao estádio, as luzes da ribalta e os foguetes estrondosos, não aconteceram - e quando, inconsequentes, vierem serão instáveis, vazias, fugazes e chochos. Agora, é tempo de se resignarem perante o facto deste veredicto não poder ser eliminado de quem o viu, ouviu e vai ler, recorrerem no processo como têm direito, e perante eventuais promessas de aggiustamento do processo incumpridas, começarem, como os canários pálidos zangados com a gaiola, a cantar contra os incógnitos e os desentalados, com os eufemismos crípticos do género «hoje vai chover», as «castanhas» e a «família veneranda» (!), ou as referências explícitas numa sequela «Muito Mentiroso/GOVD - Parte II», lançada com a mesma impunidade e maior circulação. O PS falhou e as suas operações negras - um dia, os juízes, procuradores e polícias, além das vítimas, hão-de contar o que sofreram - não alcançaram o resultado prometido de absolvição; portanto, é tempo dos canários cantarem.

Daqui por ano e meio, quando começarem a sair os acórdãos da meia centena de recursos interpostos pelas defesas, há-de haver algum que reduza ou anule as penas dos arguidos ou mande repetir o julgamento, com base na virginal boa-fé sistémica da dúvida razoável  ou em argumentos sólidos do género :
  1. é inaceitável que se tenha podido dar azo a que alguém, mal intencionado, ponha em causa a reputação imaculada de personalidades acima de qualquer igualdade constitucional ou que conclua que a alegada protecção dos abusadores das crianças fosse o produto dos trabalhos da tríade dos laços políticos, fraternos e filantrópicos  (eufemismo de Cadi Fernandes, no DN, de 6 de Outubro de 2003, mais adocicado, em ponto de rebuçado, do que utilizar as palavras cruas Socialismo-Maçonaria-Casa Pia);
  2. a morte em vida de duas crianças não vale sete anos de prisão (que, aliás, se viessem a ser cumpridos, seriam condensados em alguns meses de cárcere dourado e mais alguns com perneira domiciliária);
  3. está provado cientificamente algures que as crianças vítimas de abuso sexual até gostam da retribuição de terem sido violentadas por famosos, além da glória masoquista dos esfíncteres rasgados, da pancada e da coca;
  4. não foi ouvida a testemunha número 129, apresentada pelo arguido A (testemunha número 991 do processo);
  5. é impossível alguém com bom-senso crer que, num período de dois anos, tenha havido tempo para pintar portas de apartamentos de outra cor ou realizar obras internas que mudassem a estrutura de uma casa, para confundir as vítimas nos reconhecimentos;
  6. a menção antiga, em processo judicial (!), de alegados abusos por dois dos arguidos é a prova provada de que há imputações falsas repetidas que só podem derivar de perseguição invejosa e de falta de imaginação;
  7. tem de afirmar-se, como no famigerado caso Wartergate, a perplexidade sobre o facto destes crimes, naquela dimensão, não serem praticados sobre as mesmas vítimas, em alegre confraternização, por políticos de vários partidos, pois é um pressuposto inquestionável que a taxa de sobre-representação pedófila nos directórios partidários é estatisticamente igual;
  8. nunca se soube de fotografias dos abusos com aqueles alegados abusadores, com excepção daquelas da caixa de sapatos, mais as outras do salvo conduto do cofre, sem chave, da Dra. Teresa Costa Macedo, nem videos comprometedores que envolvam outros abusadores mais poderosos, nem sequer aqueles levados pelo raid da rapaziada dos serviços, do ateliê ribeirinho, na reprise com crianças surdas-mudas (muito menos qualquer filme luandense com jovens...);
  9. não pode deixar de classificar-se como circunstancial e irrelevante o parágrafo 3 da página 1.879, com remissão para o documento X do Apenso Z, ínsito a folhas 71.745, do acórdão da 1.ª instância, porque um arguido que estava, na sua omnipresença selectiva (qualidade de arguidos poderosos), em quatro sítios ao mesmo tempo - conforme se comprova pelos registos dos quatro identificadores de Via Verde da sua empresa, dos cinco cartões multibanco e dos seis telemóveis, e pelas declarações de sete testemunhas -, não podia estar, nesse mesmo dia e hora, num quinto lugar a abusar de crianças;
  10. a verdadeira inocência geral já foi toda provada, em directo, no programa oficial socialista «Pròs e Pròs», da inolvidável D. Fátima Campos Ferreira (o ícone máximo do socialismo televisivo português), com o título «A sentença» (sic!...), do dia 6-9-2010, na RTP (televisão do Estado, que não pode ser denonimada  Radio-Televisão dos Pedófilos), dedicado ao julgamento do julgamento, mesmo antes de conhecido todo o texto do acórdão - veja-se o post do José da Porta da Loja sobre o programa -,  um programa que consistiu no tipo de neutralidade e respeito integral pela lei e pela deontologia de que a ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) gosta.
Uf... a justificação possível vai longa, mas podia ser mais curta: «não pode ser... e pronto!!».

E, nesse dia, que chegará tão certo e tão negro, quanto a eficácia do sistema putínico em pleno vigor nesta terra que teve, e tem, nome Portugal - «nome de macho, se queres», como dizia o sapateiro António Gonçalves Annes Bandarra -, nós não estaremos aí. Já não nos importa. Isso faz parte do sistema e não temos condições para o mudar no curto prazo. Como não estamos no julgamento do julgamento: estivemos nestes oito anos de saga da justiça em prol da verdade material, até à produção da sentença moral. Porque, para nós, que não estamos interessados nas peripécias processuais e na tecnicalidade jurídica, não buscamos a condenação última, nem temos a motivação da vingança, o caso terminou na data do acórdão da 1.ª instância, o inesquecível 3 de Setembro de 2010. E esta sentença ninguém tira às vítimas, nem aos arguidos, nem ao povo, nem ao Estado de direito, à autonomia judicial e à separação de poderes. Para nós, todos, acabou.


Actualização: este poste foi actualizado às 16:02, 18:44 e 22:52 de 7-9-2010 e actualizado e emendado às 8:45 de 8-9-2010.


* Imagem picada daqui.


Limitação de responsabilidade (disclaimer): As personalidades e entidades, objecto de notícias dos media, que comento, quando arguidas ou mesmo condenadas em primeira instância, gozam do direito constitucional à presunção de inocência até ao trânsito em julgado de sentença condenatória.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O passado triste

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«Reconheço as Instituições que o Povo reconhecer. Mas se a opinião do Povo não for unânime, isto é, se o Norte não concordar com o Sul, estarei até ao fim ao lado dos fiéis à tradição. E se acaso se desse uma intervenção estrangeira para sustentar a Monarquia, então passar-me-ia para o lado da República.»
Henrique de Paiva Couceiro, em 6 de Outubro de 1910, em Cascais,
em resposta a um enviado do governo provisório republicano,
segundo relato do próprio ao jornal Correio da Manhã, citado por
COSTA PIMENTA, O Relato Secreto da Implantação da República
Feito por Maçons e Carbonários, Lisboa, Guerra e Paz, 2010, p. 236.






O artigo «Manuel Alegre. Passado militar persegue candidato» de Ana Sá Lopes e de Adriano Nobre, no i, de 28-7-2010, justifica um comentário.

Manuel Alegre não foi um desertor. Não obstante, o artigo omite o periodo em que esteve conscrito nas fileiras e os factos por que foi decretada a sua passagem compulsiva à disponibilidade - factos que para lá da sua descrição vaga da «tentativa pioneira de revolta militar»), não foram aclarados na sua informação sobre o serviço miltar que publicou no seu sítio, mas que noutro lado são descritos com mais detalhe e encómios. Porém, esta omissão deliberada (por quem descobriu 9600 entradas no Google) e a anterior ameaça de bofetada judicial relativamente a textos assinados (e não «anónimos»...) não elimina o conhecimento, nem rasura a memória. Nem vale a habitual invocação de que é tabu político a questão do serviço militar durante a guerra colonial. O que parece incompatível é conseguir as duas coisas: o louvor das esquerdas pela sua oposição à guerra e a admiração das direitas pelo seu serviço militar impecável... 

Manuel Alegre torna-se locutor e director da rádio Voz da Liberdade, em Argel, protagonizando, durante anos, emissões em que, segundo vários relatos jamais desmentidos, se repudiavam as forças militares portuguesas que lutavam em África e se apoiavam os movimentos de guerrilha que combatiam aquelas que eram, na altura, as Nossas Tropas. Essas emissões, como a sua pertença ao chamado «Bando de Argel», não eram inocentes, nem inócuas. Mais uma vez, não se pode agradar aos dois sectores: ao internacionalismo socialista anti-colonial e ao nacionalismo militar e colonial. À distância é mais fácil justificar as atitudes que se tomaram durante a guerra; mas em 1962, ainda estava fresco o sangue dos massacres do Norte de Angola. E antes do Nambuangongo de Manuel Alegre tinha havido outro. A guerra é uma calamidade de face dupla.

Nós, os portugueses, fomos todos: não se deve apagar a história, mas revelá-la e estudá-la para aprendermos as suas lições. Os regimes passam e a Pátria fica, sobre as fezes do reduto e as cinzas do império. É quase unânime no País a convicção, que também defendo, de que cada povo tem direito à independência e ao auto-governo, nomeadamente as antigas colónias portuguesas. Hoje, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor são independentes, Goa foi anexada pela União Indiana, e cicatrizaram muitas das feridas que a colonização e a guerra abriram, como frutificaram as sementes da inculturação.  Não há, então, motivo para se branquear a memória desse «tempo longo longo».

Suponho que ainda deve haver por aí registos audio, e transcrições, das emissões da Rádio Voz da Liberdade, de Argel, com a inconfundível voz de Manuel Alegre. Seria um serviço à historiografia nacional, e uma oportunidade de eliminação de especulações, pôr em linha essas emissões e transcrições.


Actualizações: Este poste foi emendado às 7: 25 de 5-8-2010.

* Imagem picada daqui.

sábado, 31 de julho de 2010

Veritas liberabit vos

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Recomendo a leitura da indignação da imprensa sobre a conclusão do inquérito Freeport:

Entendo que os procuradores Vítor Magalhães e Paes de Faria fizeram, neste inquérito, o que nesta circunstância política e profissional lhes foi possível. Mas, independentemente das instituições e dos homens, o desfecho deste caso é uma questão de tempo.

Para memória e segurança, e pela relevância política das notícias, transcrevo o seu conteúdo, passado o hiato da praxe:


«O Freeport nunca existiu?
Felícia Cabrita
Sol, pp. 1-4, sexta-feira, 30 de Julho de 2010

Processo foi interrompido a meio. Ordem para parar foi dada pelo vice-PGR, que está em situação ilegal.

Ficou quase tudo por apurar: não foi possível seguir o rasto do dinheiro nem sequer saber a quem pertenciam nomes de código como Pinocchio ou Gordo.

Vice-PGR impede inquirição de Sócrates

Os magistrados do DCIAP queriam ouvir Sócrates no inquérito ao caso Freeport, mas não tiveram tempo. Receberam ordem para encerrar o caso até 25 de Julho.

A Decisão, tomada a 4 de Junho pelo vice-procurador-geral da República, Mário Dias Gomes, de ordenar o encerramento do inquérito ao caso Freeport até 25 de Julho comprometeu, segundo os magistrados Vítor Magalhães e Paes Faria, o apuramento cabal de todos os indícios e dúvidas em torno do licenciamento do centro comercial de Alcochete.
A ordem do vice-PGR - que terá tido em conta o facto de o segredo de justiça sobre o inquérito terminar a 27 de Julho - impediu que chegasse, em tempo útil, a resposta às cartas rogatórias enviadas para paraísos fiscais, sobre informação de várias contas bancárias. Mas sobretudo, impossibilitou a inquirição de José Sócrates, que à data dos factos era ministro do Ambiente, e de Rui Gonçalves, seu ex-secretário de Estado.
Os magistrados do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), responsáveis por quatro anos nas mãos da Policia Judiciária de Setúbal sem avançar), fizeram mesmo questão de, no despacho de acusação proferido esta semana, elencar as 27 questões que pretendiam colocar ao primeiro-ministro sobre o caso. E que revelam que, para o Ministério Público (MP), Sócrates tinha muito para esclarecer.
Entre essas questões, os dois titulares do inquérito queriam que o PM, além de explicar o seu conhecimento sobre todo o processo de aprovação do Freeport, confirmasse, por exemplo, « a recepção, na sua residência de uma carta que lhe terá sido dirigida pelo arguido Manuel Pedro, tratando-o por `Caro amigo’ ». E explicasse «o teor das declarações prestadas por Hugo Monteiro» (seu primo), que afirmou ter ido a sua rasa, em 2004, pedir a autorização de Sócrates para criar um endereço eletrónico com o seu nome, de forma a conseguir um contrato com o Freeport.
A verdade é que a leitura do despacho final deste inquérito, com quase 300 páginas, permite perceber que, entre a convicção dos magistrados sobre os responsáveis de todo o caso e a sua decisão de acusar apenas dois arguidos e absolver outros cinco - nos quais nunca esteve incluído Sócrates, nem o seu antigo secretário de Estado -, vai uma grande distância.
Curiosamente, o nome do PM só é mesmo referido, como `alvo’ das dúvidas dos investigadores, neste despacho do MP Porque o relatório final da Judiciária, que Vítor Magalhães e Paes Faria salientam ser «inconclusivo», não faz qualquer referência à necessidade de questionar Sócrates ou Rui Gonçalves sobre o licenciamento do Freeport.

Sempre presente
O desfecho deste inquérito não permite, por isso, dizer que o caso foi concluído e que tudo se esclareceu - como pretendeu o PM, nas declarações feitas esta semana, depois de saber da decisão do DCIAP
Ao longo do despacho de acusação, multiplicam-se as contradições entre os depoimentos de suspeitos e testemunhas, não se explica a maior parte dos movimentos de milhões de euros em numerário e nem sequer se consegue esclarecer quem eram «Pinochio», o «Gordo» ou «Bernarda» -nomes de código várias vezes referidos na correspondência electrónica trocada entre arguidos, quando falavam de subornos para desimpedir os entraves criados ao licenciamento do outlet.
Em contrapartida, os magistrados registam, por exemplo, que, entre 8 e 24 de Janeiro de 2002 - dois meses antes da aprovação do projecto - realizaram-se diversas reuniões no Ministério do Ambiente, designadamente com a presença do ministro, secretário de Estado, presidente do Instituto da Conservação da Natureza (…) e José Dias Inocêncio (então presidente, eleito pelo PS, de Alcochete), além dos arguidos Charles Smith e Manuel Pedro» e de dois representantes da empresa inglesa. Descrevem o facto de o tio de Sócrates, Júlio Monteiro, ter declarado que recebera, em Dezembro de 2001, um contacto telefónico de Charles Smith, «referindo que um gabinete de advogados lhe estava a pedir `quatro milhões’ para aprovação do projecto Freeport e que, na sequência desse contacto telefonou ao seu sobrinho e ele, imediatamente, se disponibilizou a receber Smith no seu Ministério». E citam uma intercepção telefónica de uma conversa de José Manuel Marques, à época responsável do ICN (constituído arguido no inquérito e agora ilibado), ocorrida em Fevereiro de 2005, onde este afirma: «A investigar isto, vai é bater à porta do Sócrates, foi quem aprovou o Freeport, em tempo recorde em três meses e sei que o gajo pediu três milhões de contos e que lhe pagaram quinhentos mil». Aliás, o despacho do MP que nunca assumiu ao longo desta investigação que o primeiro-ministro era suspeito - faz até questão de incluir uma referência a «diversos» depoimentos (pelo menos onze estão identificados) que afirmam «ter tido conhecimento, por ouvir dizer, que diversos titulares de cargos públicos portugueses, entre os quais o então ministro do Ambiente, bem como diversos partidos políticos, haviam recebido dinheiro, no âmbito do processo de licenciamento do Freeport.

Extorsão e fraude fiscal
Manuel Pedro e Charles Smith, que representaram a Freeport no processo de apresentação e licenciamento do projecto, são, então, os únicos acusados neste inquérito. O MP imputa-lhes a prática do crime de extorsão, por terem exigido à empresa inglesa a entrega de elevadas quantias em dinheiro, sob pena de o Freeport não conseguir ver o seu projecto aprovado pelas autoridades nacionais. O MP entende ainda haver fortes indícios da prática de vários crimes de fraude fiscal por parte dez pessoas envolvidas no caso - entre eles, os ex-presidente e vice-presidente do ICN, Carlos Guerra e José Manuel Marques, o arquitecto Capinha Lopes, o ex-autarca de Alcochete, José Dias Inocêncio, e o tio de Sócrates, Júlio Monteiro. Ficaram sem resposta os pedidos de informação do DCIAP sobre contas em paraísos fiscais».




«Financiamento ilegal ficou por investigar
Felícia Cabrita
Sol, p. 5, sexta-Feira, 30 de Julho de 2010

MP não informou Entidade das Contas sobre indícios de financiamentos partidários ilegais

A Entidade das Contas, criada no seio do Tribunal Constitucional para fiscalizar as contas dos partidos, não foi informada dos indícios existentes no inquérito ao caso Freeport da eventual prática de crimes de financiamento ilegal de partidos políticos - apesar de a investigação do Ministério Público (MP) a este tipo de crime depender de apresentação de queixa por parte da Entidade das Contas.
De acordo com o despacho de acusação proferido esta semana pelo DCIAP, «não foi apresentada queixa pela entidade competente», pelo que os magistrados Vítor Magalhães e Paes Faria, titulares do inquérito, determinaram o arquivamento dos autos na parte relacionada com esses indícios - dos quais há referências ao longo de todo o inquérito, relacionadas quer com as eleições autárquicas de 2001 quer com as legislativas de 2005.
Em resposta às questões do SOL, o porta-voz daquele organismo disse «que os factos (relativos a 2001) são anteriores quer à existência da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos quer à criação do crime de financiamento partidário ilícito, pelo que a sua eventual verificação ficaria sempre fora do âmbito de competência» desta entidade.
Já quanto aos factos relacionados comas legislativas de 2005, a Entidade das Contas não prestou esclarecimentos -até porque não recebeu qualquer pedido de intervenção nessa matéria do DCIAP «As contas de 2005 dos partidos foram analisados e estão fechadas», lembrou, a este propósito, uma fonte desta entidade.

‘Mensagem pessoal’
Acontece que as referências aos indícios de financiamento ilegal atravessam todo o inquérito.
A campanha eleitoral para as legislativas de 2005 surge, por exemplo, no caso do email com propaganda do PS, enviado para Charles Smith - um dos dois acusados no processo Freeport.
Este email, com o título «mensagem pessoal» para Smith e proveniente do endereço electrónico josesocrates@ps.pt, foi apanhado nas buscas desencadeadas pela PJ, em 2005.
Sócrates disse várias vezes publicamente não conhecer o inglês nem qualquer dos promotores do outlet de Alcochete. Mas este era um dos casos sobre o qual os magistrados do DCIAP queriam esclarecimentos do primeiro-ministro. Daí terem preparado duas perguntas para lhe fazer. A primeira, se no âmbito das suas funções partidárias tinha utilizado o dito endereço electrónico; e a segunda, em caso afirmativo, por que dirigira uma mensagem de propaganda eleitoral a Charles Smith, sendo certo que o mesmo é de nacionalidade estrangeira e não está inscrito nos respectivos cadernos eleitorais».
Para os magistrados, afinal, a explicação do caso que foi prestada pelo secretário-geral adjunto do PS, Nuno Figueiredo, não o esclarecia totalmente.
Figueiredo foi aos autos dizer que a ideia de que a campanha eleitoral deveria passar pela comunicação via internet fora da sua autoria. Além disso, convicto de que a mensagem política passaria melhor se fosse personalizada, adiantou, terá criado «uma caixa de correio electrónico» com o nome de José Sócrates.
Mas o secretário-geral-adjunto do PS já não conseguiu explicar como apareceu o endereço de Smith: «Aquele destinatário terá sido um dos muitos por si recebidos, através de listas remetidas pelas estruturas do PS, ou então poderá ter sido o próprio Smith a inscrever-se voluntariamente», declarou, conforme se lê no despacho do MP.

“Não uso cartões”As principais suspeitas de financiamento ilegal do PS dizem, de qualquer modo, respeito às autárquicas de 2001, tendo a campanha para a Câmara de Alcochete - que nesse ano foi ganha pelo socialista José Dias Inocêncio - sido escrutinada ao pormenor pelos investigadores.
Um dos episódios relatados no despacho conta que, em véspera dessas eleições, Smith fez chegar à sede do Freeport, em Londres, a informação de que havia sido abordado pelos quatro partidos concorrentes a Alcochete. Nesse email, indicava os valores pedidos e recomendava que, a bem do licenciamento do outlet, fosse dada «uma contribuição superior ao PS, que estava no poder e podia fazer as aprovações».
No grupo de perguntas com que queriam confrontar o PM, os magistrados do DCIAP pretendiam saber se Sócrates tinha «conhecimento de algum pedido de dinheiro (3.000.000) pelo PS ao arguido Charles Smith por ocasião das eleições autárquicas e, em caso afirmativo, se tal pedido foi satisfeito».
Já Inocêncio, em cujas contas bancárias os investigadores descobriram levantamentos e depósitos em numerário no valor de cerca de 350 mil euros cuja origem não se conseguiu apurar, justificou: «Sendo empresário, costumava utilizar dinheiro vivo, nunca recorrendo a cartões de débito ou crédito».




«Investigação do Freeport perdeu o rasto a milhões de euros
José António Cerejo/N.S./J.A.C.
Público, pp. 1, 10-11, Sexta-Feira, 30 de Julho de 2010

Justiça - Despacho final lança dúvidas sobre várias transferências de dinheiro
Investigação do Freeport perdeu o rasto a milhões de euros

O despacho final do Ministério Público no inquérito ao licenciamento do Freeport não detectou a existência de crimes de corrupção e de tráfico de influências, mas deixa claro que não se sabe qual foi o destino de verbas num valor indeterminado que pelo menos ultrapassará os sete milhões de euros. Entretanto, o procurador-geral da República reagiu à notícia de ontem do PÚBLICO e ordenou um inquérito às “questões de índole processual ou deontológica” do caso.

Não houve acusação de corrupção, mas não se apurou o destino do dinheiro. Se houve crime, prescreveu.

Se dúvidas havia, dúvidas há. O despacho final do Ministério Público no inquérito ao licenciamento do Freeport manda arquivar os autos no que toca a eventuais crimes de corrupção e tráfico de influência, mas deixa claro que não foi encontrado o destino de avultadas verbas que passaram pelas mãos de alguns arguidos.
A única acusação proferida respeita à alegada tentativa de extorsão praticada por Manuel Pedro e Charles Smith, donos da consultora Smith & Pedro (S&P) junto do grupo Freeport, e tem por base sucessivos pedidos de dinheiro que aqueles fizeram para pagar subornos e que não terão sido satisfeitos. Outra coisa são os pagamentos feitos à S&P e a vários arguidos pelo grupo Freeport e outras empresas ligadas ao projecto, cujo destino final não foi esclarecido e que poderiam estar relacionados com pagamentos ilegais a que há abundantes referências em documentos e testemunhos constantes dos autos.
No primeiro caso destacam-se os pedidos transmitidos por Smith a responsáveis do Freeport, em Setembro de 2001, para, ao que afirmava, pagar ao PS 3.000.000 (sem referir a moeda de que falava) e 300.000 a cada um dos outros partidos concorrentes às autárquicas de 2001 em Alcochete (CDU, PSD e CDS). Três meses depois terá pedido também dois milhões de libras (perto de 2,4 milhões de euros) para conseguir a aprovação ambiental do projecto. Já antes, em Abril de 2000, terá pedido 22 mil contos (110 mil euros) para pagar ao lobby. E mais tarde, em Maio de 2002, foi a vez de pedir 80 mil libras para entregar a alguém referido como “Pinóquio”, através de um tal “Bernardo”. vindo logo no mês seguinte a solicitar mais 50 mil. De acordo com as perícias financeiras, não foi encontrada prova de que o essencial destes pedidos tenha sido satisfeito, razão pela qual a acusação de extorsão se limita à “forma tentada”.
Já no que respeita aos fluxos financeiros de que foram encontradas provas nas contas bancárias no período de 2000 a 2005 e em relação aos quais o despacho diz que se mantêm dúvidas” quanto ao seu destino, avultam os cerca de 1,8 milhões de euros que o grupo Freeport transferiu para as contas da S&P. O mesmo acontece com 945 mil euros que saíram desta empresa para as contas de Smith e com os 936 mil que seguiram para as de Manuel Pedro. Sem finalidade conhecida há também metade dos 1,5 milhões que o consórcio Somague/ Edifer (que fez a obra do Freeport) pagou à S&P e ainda 473 mil que foram levantados em numerário das contas da S&P. Dúvidas persistem igualmente quanto a 181 mil euros em numerário e a uma transferência de 247 mil euros (em libras inglesas) que entraram nas contas de Smith, e a 209 mil em numerário depositados em nome de Manuel Pedro, além de uma transferência de 120 mil euros de Smith para Pedro.
Por conhecer, entre outras verbas menores, ficou também a origem e o destino de parte dos sete milhões de euros que foram transferidos para o arquitecto Eduardo Capinha Lopes (que assumiu o controlo do projecto do Freeport no final de 2001), a partir de contas sedeadas em paraísos fiscais e com titulares não identificados. Pouco claras mostraram-se ainda, pelo menos em parte, os depósitos em numerário de 150 mil euros e de 111 mil euros feitos, respectivamente, em nome de Carlos Guerra (ex-presidente do Instituto da Conservação da Natureza) e de José Inocêncio (ex-presidente socialista da Câmara de Alcochete), ambos com intervenção determinante em diferentes fases do licenciamento do Freeport.
Na impossibilidade de apurar o destino efectivo destes valores, não restava ao Ministério Público outra hipótese que não fosse a de arquivar o processo no tocante a eventuais práticas de corrupção e outros crimes económicos.
Mas, como as perícias urbanística e ambiental efectuadas no final de 2007 e em 2008 concluíram que o licenciamento do Freeport não envolve a prática de actos ilícitos, mesmo que se encontrassem eventuais corruptos, o crime já estaria prescrito desde Março de 2007. Isto porque os crimes para a prática de actos lícitos prescrevem ao fim de cinco anos.

Procuradoria vai ordenar inquérito
A Procuradoria-Geral da República (PGR) vai ordenar “a curto prazo” um inquérito para “o integral” esclarecimento de todas as “questões de índole processual ou deontológica” que o “processo possa suscitar”. 0 comunicado de Pinto Monteiro foi divulgado à hora dos telejornais, e o procurador-geral garantiu ter recebido “com surpresa” a notícia do PÚBLICO de que os procuradores do caso quiseram ouvir José Sócrates e que só o não fizeram por falta de tempo, com o fim do prazo de inquérito.
A PGR escreve, num comunicado de nove pontos, que “nunca o procurador-geral da República colocou qualquer limitação” aos procuradores do processo que “procederam à investigação, com completa autonomia, inquirindo as pessoas que julgaram necessárias”.
No despacho final do Ministério Público, os procuradores explicam que o vice-procurador-geral da República proferiu um despacho, a 4 de Junho, em que fixou o dia 25 de Julho como o fim do prazo para o encerramento do inquérito. 0 que impediu
a inquirição de Sócrates, alegaram os procuradores.
No comunicado, a procuradoria garantiu que foi a directora do DCIAP, Cândida Almeida, a propor a data de 25 de Julho para o fim a fase de inquérito, “pedido que foi deferido”. Só não diz que foi o vice-procurador. Garante é que nem Cândida Almeida, nem os magistrados titulares do processo pediram a “prorrogação do prazo ou invocaram a necessidade de qualquer diligência’.

Arquitecto contratado antes da viabilização
Eduardo Capinha Lopes aparece como peça-chave

O arquitecto Capinha Lopes - a quem o Ministério Público não atribuiu a prática de qualquer crime - surge no despacho final e no relatório da Polícia Judiciária como um elemento central da trama que rodeou a viabilização ambiental do Freeport, em Março de 2002.
Numerosos documentos e testemunhos reunidos nos autos dão corpo à ideia de que os consultores Manuel Pedro e Charles Smith convenceram os ingleses, logo após o segundo chumbo da avaliação ambiental, em 6 de Dezembro de 2001, de que a contratação de Capinha Lopes era fundamental para resolver o problema, dadas as suas alegadas ligações ao Partido Socialista e ao Ministério do Ambiente. O despacho dá como provado que foi José Inocêncio, então candidato do PS à presidência da Câmara de Alcochete (para a qual foi eleito em 16 de Dezembro), quem, a 11 de Dezembro, aconselhou Pedro e Smith a recomendar Capinha aos ingleses. E diz que o arquitecto tinha trabalhado gratuitamente na campanha do PS não só para as câmaras de Alcochete (à qual ofereceu o projecto de um centro cultural), mas também para as da Moita, Barreiro, Crândola e Santiago do Cacém.’
Numa carta dirigida a um dos administradores ingleses logo a 13 de Dezembro Smith garante que Capinha Lopes foi recomendado “pelas autoridades envolvidas na aprovação”, acrescentando que ele e o seu gabinete de arquitectos “estão muito próximos do ministro do Ambiente, assegurando uma aprovação adequada no interesse de todas as partes envolvidas”, sendo também certo que “não são arquitectos baratos”.
Nessa altura a avaliação ambiental acabara de ser reprovada, apesar de todos os membros da comissão responsável, à excepção do presidente do ICN, Carlos Guerra, entenderem que ela devia ser aprovada com condicionantes. Até então os arquitectos encarregues do projecto pertenciam à empresa Promontório, tendo os promotores ingleses sido convencidos, através de várias cartas e em sucessivas reuniões, de que a sua substituição por Capinha Lopes era uma condição da aprovação da nova avaliação ambiental, iniciada a 18 de Janeiro e que não resolveu muitas das razões do chumbo anterior, limitando-se a satisfazer algumas das condicionantes apontadas no parecer desfavorável anterior.
Apesar disso foi aprovada menos de dois meses depois, a 14 de Março, no termo de um processo cuja celeridade e outras circunstâncias, embora “não usuais”, os peritos contratados pelo Ministério Público consideraram não conter irregularidades ou ilegalidades.
De acordo com a PJ, citando o testemunho de Capinha Lopes, logo após a sua posse, mas em data indeterminada, José Inocêncio e o novo arquitecto do projecto reuniram-se, a sós, com o ministro do Ambiente, José Sócrates.
Segundo as perícias foram detectados nas contas de Capinha Lopes depósitos do grupo Freeport, entre 2002 e 2004, no total de 1,7 milhões de euros. Os peritos concluíram também que entraram nas contas do arquitecto e das suas empresas sete transferências no valor de 7 milhões de euros, provenientes de contas em paraísos fiscais com titulares desconhecidos e que tiveram como destino de diversas empresas e o Banco Insular.
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«Polémica: Em Abril, procuradores não quiseram ouvir primeiro-ministro
Sócrates imune à investigação

31 Julho 2010
Por:Eduardo Dâmaso/Tânia Laranjo/T.M.

Na reunião de Haia, com as autoridades inglesas, foi recusada a possibilidade de a investigação visar o primeiro-ministro. Equipas mistas rejeitadas.

A reunião em Haia, na sede da Eurojust, em Fevereiro de 2009, marcou o rumo da investigação do caso Freeport. Várias fontes contactadas pelo CM garantem que nesse encontro ficou claro que a investigação ao licenciamento do ‘outlet’ de Alcochete não atingiria José Sócrates. Cândida Almeida, directora do DCIAP, ter-se-á mesmo indignado quando os ingleses sugeriram equipas mistas e mostraram interesse em investigar o actual primeiro-ministro português. A hipótese foi liminarmente recusada e o DCIAP manteve o rumo da investigação: determinar se houve subornos, mas sem que alguma vez se tentasse apurar se foram feitos efectivos pagamentos a membros do Governo.
Ainda segundo o CM apurou, na mesma reunião – realizada por proposta dos ingleses – foi igualmente equacionada a hipótese de as contas bancárias de José Sócrates serem alvo de análise. Mais uma vez, tal possibilidade foi liminarmente recusada.
Além de Lopes da Mota – então director da Eurojust – estiveram na mesma reunião Vítor Magalhães e Pais Faria, os procuradores do processo, bem como Moreira da Silva e Pedro do Carmo, directores adjuntos da PJ. Maria Alice, coordenadora superior, a quem a investigação estava entregue, acompanhou igualmente o encontro.
Depois disso, foram muitas as diligências efectuadas. Mas em nenhuma por alguma vez foi admitida a inquirição ou interrogatório de José Sócrates.
O último plano de diligências que consta no processo – elaborado pela responsável da PJ de Setúbal – é datado de Abril deste ano e enumera uma série de audições e pedido de informação bancária que ainda deve ser efectuada. Maria Alice, responsável da PJ, não incluiu Sócrates no rol de pessoas a ouvir – mas teve o cuidado de sugerir que as mesmas 'poderiam ser complementadas com diligências determinadas pelos magistrados'. Vítor Magalhães e Pais Faria emitiram um despacho onde diziam que 'concordavam integralmente' com o que havia sido sugerido.
Cândida Almeida esteve ontem incontactável. O gabinete da PGR disse ao CM que Pinto Monteiro nunca deu qualquer instrução no processo Freeport, nem na reunião de Haia, 'tendo a directora e os procuradores actuado com total autonomia'.

Juiz podia ter prorrogado prazo do segredo de justiça
O prazo dado à investigação não tinha a ver com a realização de diligências mas sim com o levantamento do segredo de justiça, que terminava a 27 de Julho. No entanto, segundo o CM apurou, não foi pedida qualquer prorrogação do prazo ao juiz Carlos Alexandre, a quem o processo está distribuído. O magistrado poderia alargá-lo pelo menos por mais um mês – como, aliás, tem feito noutros processos do género.
A mesma posição foi anteontem defendida por Pinto Monteiro em comunicado. 'Nem a Directora do DCIAP, nem os magistrados titulares do processo requereram qualquer prorrogação de prazo ou invocaram a necessidade da realização de qualquer diligência', afirmou.

Despacho gera desentendimento
A inclusão, no despacho final do caso Freeport, das perguntas que deveriam ser feitas a José Sócrates causou um diferendo de entendimento no DCIAP. Cândida Almeida não concordou com a inclusão das 27 perguntas, da responsabilidade de Pais Faria e Vítor Magalhães, e terá feito saber aos procuradores qual era a sua opinião. Face à aparente impossibilidade de chegarem a acordo e porque também não queria avocar o processo – o que a obrigaria a que fosse ela a elaborar o despacho final –, Cândida Almeida optou por deixar claro que caso as mesmas se realizassem o despacho não seria alterado. 'Das respostas eventualmente obtidas não resultariam alterações de fundo aos juízos indiciários, próprios desta fase, que subjazem ao despacho de arquivamento e de acusação deduzidos', lê-se também no mesmo documento.
Cândida Almeida deixou, no entanto, no ar a possibilidade de o processo ser reaberto. 'Foi levada a cabo uma cuidada e profunda análise da prova produzida e de diligências encetadas ainda sem resposta, por dependerem da cooperação internacional em matéria penal. Uma vez recebidas e caso determinem a alteração da decisão ora tomada, reabrir-se-á os autos', diz.

Equipa especial do DCIAP
O processo Freeport foi avocado pelo DCIAP em 2008 ao Tribunal do Montijo. Manteve-se a delegação de competências na PJ de Setúbal mas, há quase um ano, um despacho do procurador-geral da República determinava a criação de uma equipa especial. A mesma equipa, constituída por vários elementos da PJ, entre eles a responsável pelo departamento de Setúbal, foi trabalhar para a sede do DCIAP, na Alexandre Herculano. Trabalharam directamente sob as ordens dos procuradores, e foi com alguma surpresa que foi recebida a determinação de que deveria ser a PJ a elaborar o relatório final.»


* Imagem picada daqui.


Limitação de responsabilidade (disclaimer): As personalidades e entidades, objecto de notícias dos media, que comento, como José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, não são suspeitas ou arguidas do cometimento de qualquer irregularidade ou ilegalidade, e quando arguidas, como foram Manuel Pedro e Charles Smith, Eduardo Capinha Lopes, Carlos Guerra, João Cabral, José Manuel Marques e José Dias Inocêncio, ou acusadas, como acabaram por ser Manuel Pedro e Charles Smith, gozam do direito constitucional à presunção de inocência até ao trânsito em julgado de eventual sentença condenatória.

sábado, 26 de junho de 2010

O problema Carlos Santos e a «malta da pesada»

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A série de postes que o Carlos Santos vinha publicando no Corta-Fitas sobre a central de informações do Governo, mais as notícias no Correio da Manhã, «Campanha com meios públicos»), de 17-2-2010, e no Público, «Economista acusa Governo de ter utilizado recursos do Estado na campanha do PS », de 18-2-2010, com base nessas denúncias, provocaram uma ferocíssima reacção orquestrada do poder socialista e das suas ubíquas antenas.

Porquê?

Por causa do estrago que fez, num momento crítico actual, na base do poder socratino - as informações - e para controlo dos prejuízos sofridos.

Começo por uma explicação sumária do socratismo. O socratismo consiste num sistema político de poder análogo àquele que vigora na Rússia: é um putinismo brando. A sua versão socratina tem um esquema teórico-prático simples: uma super-estrutura política, um nível intermédio da Maçonaria, dos media, da finança e das cúpulas judiciais, e uma infra-estrutura de informações. A superestrutura tem um círculo interior, ramificações de fidelidade e lóbi, e convivas aliados nos agrupamentos adversários (CDS-PP, PSD, Bloco de Esquerda e PC). A Maçonaria (a irregular e a regular) no seu culto do poder, comércio de favores e agenda radical, providencia uma rede subterrânea de protecção e atenuação de tensões. Os media são controlados directa e indirectamente, através de financiamento, administradores e editores de confiança. A finança troca o seu patrocínio e dependência política pelo saque. E das cúpulas judiciais espera-se que contenham ataques e exerçam a acção punitiva sobre os adversários. Mas na base do poder socratino estão as informações. É este o segredo do socratismo, que se procura esconder com o máximo esforço e cuidado, «por questões de segurança» : as informações são a força de suporte e projecção do seu feixe de poder.

As revelações factuais e documentais do professor Carlos Santos puseram a descoberto o comando do poder socratino; a central de informações do Governo, a  ordem de batalha e os processos desta central.

No comando do poder socratino está José Almeida Ribeiromaster spyéminence grise da imminence rose, actual secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro e ex-chefe de gabinete do primeiro-ministro no mandato anterior.

Mas vamos analisar com minúcia a central de informações do Governo.

A ordem de batalha - «identificação, estrutura de comando, força, disposição de pessoal, equipamento e unidades da força armada durante as operações no terreno» - da central de informações do Governo, integra múltiplos comissários e colaboradores, que o Carlos Santos identificou, integrados em diversas unidades, cuja referência também foi publicada. As armas da central são as informações. Uma das unidades da central de informações é a secção de blogues. A secção de blogues não pode ser reduzida ao procedimento já clássico dos blogues institucionais sistémicos (de que a Câmara Corporativa é apenas um): chamo-lhe a táctica do Manuelinho: usa-se um tolo (ou mais), a quem se promete deferência e compensação, como  uomo de paglia de uma hidra de comissários com poder de edição e de uma vasta série de intermediários de informação e agentes políticos (com eventual recurso a técnicos administrativos para preparação de dossiês temáticos), para marcação, identificação, sinalização, recolha de informação e pressão mais ou menos subtil, mais ou menos clara. A secção de blogues é uma rede de informação. Pois bem, com as revelações do Carlos Santos e a participação de comentadores que exploraram o que publicou, a ordem de batalha da secção de blogues da Central - com  funções de aquisição de colaboradores, organização e logística, distribuição de informação, contra-informação e desinformação em blogues e caixa de comentários e recolha de informação - foi identificada e publicada. Está, assim, neutralizada. Quando a estrutura e os agentes de um serviço são identificados, esses agentes ficam neutralizados e têm de ser reciclados, pois já não podem ser usados em operações clandestinas, e a estrutura fica queimada, já que a sua existência e o seu funcionamento ficam expostos.

A parte soft dos métodos da secção de blogues da central de informações também foi desmontada, pelo Carlos Santos no Corta-Fitas. Para lá do limiar destes métodos ditos suaves da secção de blogues, ficam as outras secções com as negras operações activas daqueles que os próprios socialistas chamam a «malta da pesada»... Estas operações são a componente dura do sistema e são elas que asseguram os resultados extraordinários nos casos mais difíceis. O mando é único e a estrutura interdependente. Não há componente suave sem componente dura. Não há socratismo sem a componente dura. Nem inocentes.

Como as revelações do Carlos Santos eram factuais e tinham bastantes documentos de suporte, contagiaram outras pessoas a descobrir antigos insultadores sem nome, alguns com pseudónimos reciclados ou duradouros, que finalmente perderam o chinó que lhes cobria a careca suja, e o momento actual de translacção do poder é delicadíssimo, importava minorar os danos e cortar a infecção. Para tanto, utilizou-se a clássica técnica estalinista: isolar o alvo através de uma campanha de insultos e acusações. Os insultos e acusações provêm do próprio campo sistémico e também, com maior eficácia, pois enganam inocentes, do suposto campo adversário. No campo sistémico, trata-se de acusar de pidesca a denúncia de... uma nova Pide, rasgando as túnicas, manchadas pelos métodos que já tinham usado com aplauso frenético (publicação de mails e relato de conversas...), e sugerindo que o tresmalhe de Carlos Santos, ex-colaborador do blogue Simplex, se deveu a descontentamento por falta de recompensa - que este provou ter-lhe sido oferecida, mediante a nomeação como assessor de um secretário de Estado e como «conselheiro especial» de um ministro e de as ter recusado. E nos supostos campos adversários - afinal, parceiros! -, estranhos e violentíssimos insultos e acusações, através de colaboradores activados e induzidos por agentes do sistema e do serviço, arranhando a cara de vergonha pelos ataques pessoais do Carlos, que pouco depois também usam em caso próprio com ainda maior violência... Aliás, chega-se até à finura de despertar colaboradores no sector resistente, para que estes tomem a iniciativa de insultos e ofensas duríssimas, de inédita  e pseudo-espontânea indignação. Dir-se-á que é suave, pois alguns apenas acusam o denunciante de doido e não chegam ao cúmulo estalinista do internamento compulsivo em clínica siberiana do elemento nocivo. Mas suave é para quem não lhes sofre os métodos.

O caso chegou à patética ameaça de processo (a última coisa que o sistema deseja é discutir em tribunal o comando, a ordem de batalha, os meios e os métodos, que utiliza...) seguida da consequente expulsão do Carlos Santos do Corta-Fitas, em 24-6-2010, o seu denegrimento simultâneo em blogues aparentemente insuspeitos, e tenta prosseguir com a habitual táctica de sugestão de despedimento. Mas, tal como em Itália, na eliminação física, o isolamento do alvo era indispensável e o ataque decisivo só era feito depois desse trabalho preparatório estar feito, em Portugal a eliminação cívica pelo sistema, carece da imposição do ostracismo político. Se não for conseguido o ostracismo político do alvo, não é possível a sua eliminação cívica.

O objectivo da campanha orquestrada, que envolveu, como soe, e soa, outros meios, é conter a propagação da mensagem, através da pedagógica perseguição e punição dos difusores, e isolar e neutralizar o mensageiro, já que a factualidade e documentação da mensagem torna impossível a sua contestação. Contida a mensagem pela desacreditação do autor e punição dos difusores, a actividade manter-se-ia mais ou menos incólume e os seus fins prosseguiriam com o sucesso rotineiro que faz os ingénuos crerem que o êxito socratino é a consequência fatídica da conjunção estelar ou o caótico efeito em cadeia (salvos sejam!) do esvoaçar errante das borboletas na China. Em vez de um sistema cruel de administração do poder baseado nas informações.

Tudo isto resultaria assim, se o sistema, moribundo, não viesse a ser assado. Carlos Santos não está sozinho.


* Imagem picada daqui.


Limitação de responsabilidade (disclaimer): As entidades e personalidades referidas nas notícias dos media que aqui comento não são, que eu saiba, suspeitas ou arguidas do cometimento de qualquer ilegalidade ou irregularidade.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Barrela geral do socratismo negro

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«If you're going to bury the truth, make sure it stays buried.»

Citação do cartaz do filme «I know what you did last summer», de Jim Gillespie, 1998


A blogosfera inteira rejubila com a possibilidade de expor, em tribunal, perante procuradores e juízes, a imprensa e bloguistas (com relato detalhado dos testemunhos e dos documentos apresentados), a ordem de batalha, com todos os nomes, ligações e aliados, e os métodos pidescos da central de informações do Governo, requerendo extracção de certidões para inquéritos-crime autónomos de todos os factos, documentos e testemunhos aí denunciados. Uma barrela geral, além do que já se publicou (ver também este outro post do Carlos Santos no Corta-Fitas, de 23-6-2010). Tal como aconteceria, segundo previne o José, com as abafadas escutas do caso do «plano governamental para controlo dos meios de comunicação social», com o ameaçado processo de Rui Pedro Soares a José Pacheco Pereira.

Os sistémicos insultam e ameaçam muito. Cumprem pouco. Os tribunais assustam-nos: fogem da visibilidade como as toupeiras da luz. A Central não quer publicidade: anseia pelo silêncio. No fundo, são tão fracos como sinistra é a nova Pide, onde colaboram na Secção de Blogues siamesa das negras operações activas da «malta da pesada». O socratismo está nas últimas. Serão responsabilizados: caso a caso, um a um.

Nós sabemos o que vocês fizeram no Verão passado. E estão a fazer neste Verão.


Actualizações: este post foi emendado e actualizado às 15:28 e 17:09 de 23-6-2010.


* Imagem picada daqui.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A denúncia da nova Pide é pidesca?!...

A revelação dos meandros da secção bloguística da central de informações do Governo e a referência ao todo-poderoso master spy Secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro, José Almeida Ribeiro, pelo Carlos Santos (no post «Os assessores propagandísticos do governo na web: Abrantes, outros que tais, e algumas identidades», no Corta-Fitas, de 2-6-2010), que os conheceu por dentro gerou a reacção violenta sobre o carácter do autor. Sobre os maus costumes relatados - os métodos pidescos e a utilização dos meios públicos - nem uma palavra. E, no entanto, o que interessa não é a desilusão socialista sobre o mensageiro (o Carlos Santos), como bem indica o Paulo Pinto de Mascarenhas, mas os factos que ele refere e fundamenta.

Leia-se sobre esta escaramuça os seguintes postes e os comentários (aparece até uma sentida «Mariana P» que recomenda a Carlos Santos métodos que, com certeza, conhece onde trabalha: «intercepções de e-mails, utilização de meios de videovigilância, espionagem via redes sociais...»):

Os factos revelados pelo Carlos Santos não são verdade? Devem ser verdade, pois não foram desmentidos e o autor indica os linques do que alega. E para quem ataca o autor, por este se sentir despeitado por os socialistas não lhe terem oferecido tacho, após ter colaborado no Simplex, Carlos Santos explica:

«Por isso esclareço publicamente, aquilo de que tenho provas. Foram-me feitas duas ofertas. Uma pela Guilherme Oliveira Martins, jr., para assessorar Sérgio Vasques, Secretário de Estado de Teixeira dos Santos. Outra, pelo próprio Ministro Vieira da Silva, para ser seu conselheiro especial, acumulando esse vencimento com as minhas aulas no Porto. Se o Fernando Moreira de Sá quiser a minha troca de correspondência com o chefe de gabinete do Ministro em Novembro, eu disponibilizo. Envie-me um mail, deixe aqui um comentário, eu sei lá!»
Convite para «conselheiro especial» (sic) do ministro Vieira da Silva; mais a revelação de outro «jr.» (o filho do presidente do Tribunal de Contas, o independente Guilherme de Oliveira Martins)...

Desmascarados, conviria calarem-se após a exposição da vergonha dos seus métodos. Mas não. Sem desmentirem os factos, atacam nos outros o que eles próprios fazem - além, repito, de outros meios usados pelas outras secções da central (e que não desconhecem porque trabalham com informações aí obtidas). O curioso da argumentação socialista é queixarem-se de comportamentos pidescos dos adversários os que usam os recursos públicos para recolha, análise e distribuição de informação, sobre adversários, e desinformação e contra-informação, como um verdadeiro serviço de informações, de intelligence. A denúncia da nova Pide é pidesca?!... Pidesco é o trabalho nesses serviços de informações!

O leitor, mais alertado agora, fará o seu juízo. Mas já percebeu que se atingiu o nervo ciático do sistema: as informações que constituem a sua principal força de conquista, manutenção e execução do poder socratino. E quando se lhes toca no nervo, gritam, tentam ostracizar e atacam com violência inusitada, mesmo para quem usa a crueldade como método político principal.

E nesse sentido, avulta uma pergunta: por que se tomam no campo de Pedro Passos Coelho as dores do adversário (Sócrates), atacando Carlos Santos, que fez a denúncia de uma parte (a bloguística) do sistema socratino de informações?!...