A
fusão da Portugal Telecom (PT) com a brasileira Oi, em 2-10-2013, justifica grande indignação patriótica. Por isso, comento o negócio. E publico, através de
fac-simile, uma inesquecível história, e inédita deste lado de cá do mar, de uma reportagem da revista
Veja, de 28-8-2013, sobre a Oi, que os média portugueses, certamente por ignorância da notícia não referiram. Ficam, como sempre, para memória, os documentos.
A PT perdeu em 2010 um ativo económico muito importante (na poderosa
Vivo); e agora, nesta fusão fria, a PT tem de mobilizar recursos (
cerca de 2,33 mil milhões de euros?!...), para acudir a uma empresa dita falida (a
Oi), além da posterior subscrição pública. A manchete da primeira página do Estado de São Paulo, de 3-10-2013, é clara: «
Endividada, supertele nacional se une a portugueses»; e a manchete da Folha de São Paulo, do mesmo dia, também, «
Em meio a dívidas, Oi se funde à Portugal Telecom - brasileira receberá até R$ 14 bi». Veja-se também a notícia desenvolvida da Folha de São Paulo e a coluna de
Vinicius Torres Freire, na Folha, em 3-10-2013, que enquadra historica e politicamente a circunstância da Oi. É que a génese da Oi, sucessora da Telemar, deve ser compreendida no
trânsito de poder e de dinheiro ente o poder partidário do PT e os políticos-empresários que gravitavam em redor do presidente Lula - veja-se, por exemplo, o
escândalo do investimento da Telemar na empresa Gamecorp do Lulinha (como é conhecido no Brasil o filho do ex-presidente Lula) por 5,2 milhões de reais.
Na anunciada fusão, os acionistas da PT vão ter «
38,1% da nova empresa» (apesar da entrada fresca de dinheiro na empresa podre). Como se lê na notícia acima da
primeira página do Estado de São Paulo, de 3-10-2013,
o Governo brasileiro «chancelou a operação para a criação da multinacional». Em troca,
a sede da nova empresa, provisoriamente CorpCo, vai para o Brasil - e lá ficará, por mais que se desminta, a correspondente maioria da riqueza e rendimento, emprego, contratos, subsídios e impostos... Em compensação, acordou-se
um conselho de administração de tutti quanti, até com os ressuscitados
ongoings Nuno Vasconcellos (
da loja Mozart da GLLP) e o
agente operativo Rafael Mora.
Zeinal Bava será o CEO.
Percebe-se também agora que um talvez o principal objetivo da visita da presidenta Dilma a Portugal, em 9 e 10 de junho de 2013, que
aqui tratei. E não creio que a preocupação derivasse da «
enorme dívida que a holding Telemar Participações», da banda de Lula, «tem com o BNDES»
do Governo brasileiro por causa do BNDES, mas da situação financeira dessa
holding e eventualmente de outras sociedades que participam no
capital social da Oi.
O
chairman da PT, Henrique Granadeiro, disse no 2-10-2013, que uma «
companhia multinacional como a que acabamos de criar não é uma companhia de bandeira». Pois eu acho que é uma companhia de bandeira... brasileira. Um festim em que Portugal contribui com a carne e o lulismo brasileiro entrega ossos roídos, mediante uma taxa e a casa.
A revista
Veja, de 28-8-2013, trouxe, da página 56 à 60 e com chamada na primeira página, sem qualquer eco nos média lusitanos, uma reportagem intitulada
«Proposta indecente», sobre uma alegada tentativa de compra, em agosto de 2013, através de «honorários» (a «propina»), pelo deputado federal Vicente Cândido, do Partido dos Trabalhadores (outra sigla PT...) de São Paulo do conselheiro Marcelo Bechara da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para que este intercedesse a favor do perdão de multas e da diminuição de encargos da Oi, uma empresa que a
Veja diz que o ex-presidente Lula teme a «bancarrota» (multas de 10 mil milhões de reais, ou cerca de 3,3 mil milhões de euros ao câmbio de hoje, para cerca de 8 mil milhões de reais, ou 2,7 milhões de euros, de valor de mercado estimado da companhia, e que segundo a Folha de São Paulo, de 2-10-2013, tem uma dívida equivalente a 9,98 milhões de euros, à taxa de câmbio de hoje) - além de festas em mansões com um diretor da Oi, lobistas e o presidente da dita Anatel.
Note-se que
Zeinal Bava terá sido empossado «
em 4 de junho de 2013» no cargo de «
presidente executivo do Grupo Oi» (ainda que a Folha de São Paulo, diga que Zeinal «
assumiu a Oi em abril» de 2013), acumulando com o mesmo cargo na PT Portugal. Estes alegados factos passam-se em agosto de 2013. Contudo, na mesma reportagem da
Veja, «a Oi nega que Vicente Cândido esteja oficialmente autorizado a defender os interesses da companhia».
Recordo que em julho de 2010, a Portugal Telecom vendeu à sua sócia espanhola Telefónica (
na Brasilcel), da brasileira Vivo de telefonia móvel, na qual a PT detinha 30% e a empresa espanhola a mesma quota, no culminar de um
muito estranho negócio ao qual
o Governo de José Sócrates se opôs, com a utilização da «golden share», em 25 de junho de 2013 por motivo do invocado «interesse estratégico do País», e apenas
cerca de um mês depois, em 28 de julho de 2013, aceita essa mesma venda, com a justificação da compra, com metade do dinheiro do negócio
(3,75 milhões de euros, sendo a outra metade distribuída pelos acionistas da PT, como o grupo Espírito Santo), de uma operadora de telecomunicações, descapitalizada e cheia de problemas, de telefonia fixa, de que se queria desfazer a banda de Lula que a tinha conglomerado a partir de empresas regionais.
Uma pipa de massa e um gato faminto em troca de uma lebre gorda. Mas todos felizes, especialmente os principais protagonistas: Ricardo Salgado (e a sua testa de ferro Ongoing), Sócrates e Lula.
Sobre este assunto
do Governo Passos, «apropriadamente avisado», não se ouviu ai, nem ui... Se a corte de D. João VI foi para o Brasil em 1807, e se o
almirante Sarmento Rodrigues, em 1962 (eventualmente na linha de
Vicente Ferreira, que mudou o nome de Huambo, do general Norton de Matos, para Nova Lisboa) chegou a sonhar com a capital portuguesa em Angola ou Moçambique, por que não há-de a economia nacional funcionar como uma espécie de império exógeno, em que os portugueses são governados de fora, as suas empresas detidas por estrangeiros e a sua riqueza alienada aos forasteiros?!... Há-de ser um altruísmo moderno, mesmo se parece a evidência de uma cobiça antiga...
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