Fátima constitui ainda o grande tabu nacional.
Inserida numa trilogia de origem incerta (se houver alguém que saiba, indique o autor) com o fado e o futebol, - mais popular do que a divisa de Afonso Pena (que foi presidente do Brasil e era maçon) adotada por Salazar («Deus, Pátria, Liberdade, Família») ou a síntese de Deus, Pátria, Autoridade, Família e Trabalho, no seu discurso do 28 de maio de 1936, em Braga - Fátima tornou-se, para os vigilantes da esquerda antirreligiosa e da direita ateia, o símbolo do mal e do atraso. As aparições de Nossa Senhora aos humildes pastorinhos, na Cova da Iria, no ano da revolução soviética, que trouxeram uma mensagem de paz, indicaram o fim da guerra, pediram oração para evitar uma outra mais sangrenta e preveniram o mundo sobre o perigo do comunismo, foram associadas, por uns e por outros, ao Estado Novo. Por identificação, que o regime anterior procurou (muito depois de 1917), e por oposição, com que os republicanos históricos e os marxistas reagiam à mensagem e profecia de Fátima: a Rússia «espalhará os seus erros pelo mundo» mas «por fim o meu Imaculado Coração triunfará.
Após a revolução do 25 de abril de 1974, Fátima era o núcleo e a imagem do Portugal católico, conservador e antimarxista, que importava destruir para que das cinzas desse incêndio ideológico explodisse um outro homem novo, absolutamente igual (para além da humanidade cristã, gravada, há cerca de dois mil anos nos corações angustiados, de não haver judeu nem grego, nem escravo, nem livre, nem homem nem mulher...), absolutamente escravo de centralistas democratas e elitistas maçons.
E Fátima resistiu. Resistiu na peregrinação de maio de 1975 com o record de 1,3 milhões de fiéis, ao cerco, justificado com a proteção dos peregrinos, dos carros de combate do Copcon, de que o reitor Luciano Guerra se queixou na basílica e que levou meu pai a ir no final da missa à sacristia disponibilizar-se para o que fosse preciso. Resistiu à maré vermelha do Alentejo e da degenerada Lisboa e à eliminação mediática de governos socialistas e editores maçons, ao opróbio mediático dos crentes, aos escândalos artificiais, ao arrogante desprezo de opinadores e à vergonha dos instruídos negarem a sua devoção. A tudo resistiu e a todos acolhe.
A paz de Fátima atrai. Um encontro entre homens e Deus, que, como acentuou hoje o prior na missa em que participei, começa, não por um pedido, mas pela pergunta da (mediaticamente martirizada) pastorinha Lúcia à «Senhora vestida de branco e mais brilhante que o Sol»: «que é que vossemecê me quer?». A disponibilidade em vez do egoísmo.
Quando parece ter acalmado, por conclusão do programa relativista, a revolta cultural dos anos 60 face aos valores tradicionais e a crise económica e social aflige as famílias, a praça moral de Fátima alarga-se como último reduto de salvação. E os portugueses acorrem, de carro ou a pé, e com cada vez mais gente experimentando o sacrifício e reflexão íntima da peregrinação que alguns media, vencidos, tentam transformar em caminhada profana ou passeio ateu. Fátima resistiu, e resistirá. Para lá do céu e da terra.
Mesmo que apenas fosse numa perspetiva neutral e não religiosa, Fátima e os seus peregrinos continuam a ser ignorados e negligenciados. Numa época em que são valorizados o bem-estar e as atrações turísticas, e em contradição com os vizinhos espanhóis que fazem da Semana Santa um evento mundial, e de Santiago um jubileu permanente, Fátima continua a ser ignorada em termos de potencial de desenvolvimento pelo poder político. Para o poder político, nesta terra de matriz e maioria católica, dominada pela maçonaria, Fátima não existe, não pode existir. E quando as imagens demonstram a sua força, o poder político finge que o fenómeno não existe, que Fátima não existe. E, quando existe, é para fenómenos como o ataque do presidente socialista da câmara municipal local, Paulo Fonseca, que parece pretende armar-se em novo «administrador de Ourém», tentando apossar a autarquia de terrenos do Santuário e profanar o espaço público e quadras religiosas com eventos comerciais concorrentes. Ou para o IC9 (Nazaré-Tomar), aberto, neste mês de maio de 2012, sem portagens (por enquanto...), mas sem acesso próprio a Fátima, nem próximo, nem previsto...
Os peregrinos continuam a marchar para Fátima, cada vez em maior número, sem corredores de proteção - apesar dos projetos do Centro Nacional de Cultura e de promessas -, sem sinalização, nem assistência sanitária e física oficial, por entre empresas fechadas e casas em ruínas, gastando no trajeto, em alimentação, compras e dormidas, nacionais e estrangeiros, os impostos que o Estado embolsa, em contraste com qualquer evento ou atividade profana que o poder político antirreligioso defenda e que tenha muito menor afluência, notoriedade intrínseca e receita. Enquanto o Estado e as autarquias fazem, e financiam, luxuosas passadeiras coloridas de lazer do tipo tartan para dezenas de peões e ciclistas, as centenas de milhar de peregrinos de Fátima nem sequer têm nas estradas nacionais corredores próprios com linhas-guia...
O povo continua a identificar Fátima com a Pátria, sua raiz celeste. E essa identidade ainda ganha mais fervor nesta época de crise económica, delírio social e corrupção de Estado. O Estado desta Nação Fidelíssima tornou-se numa loja maçónica e os cristãos não podem esperar mais deste poder. Resta-nos a fé e o combate moral.
Atualização: este poste foi atualizado e emendado às 23:35 de 14-5-2012.









