quarta-feira, 8 de junho de 2011

Ataque socialista preventivo



férrica Dra. Ana Gomes produziu, em 7-6-2011, uma declaração sobre o Dr. Paulo Portas, captada pela Lusa e veiculada pelo Público -
«“Penso que está em causa não obviamente a legitimidade política do seu partido, CDS-PP, como resultou das eleições, em governar, em integrar a coligação governamental, mas do dr. Paulo Portas pessoalmente, por a sua idoneidade pessoal e política estarem em causa em face do seu comportamento em anteriores responsabilidades governamentais”, disse, apontando “o caso dos submarinos e outros casos”.» (Realce meu)
No Económico, de 7-6-2011, vem ainda um registo mais completo com a menção de uma alegado:
«papel que teve a central de desinformação junto do então ministro Paulo Portas no tratamento que a imprensa deu ao caso Casa Pia» (sic

Esta declaração parece constituir a primeira sortida de um ataque preventivo contra o próximo Governo. O objectivo desse ataque é demover o Dr. Pedro Passos Coelho de realizar uma auditoria imediata às contas públicas e aos contratos públicos e de responsabilização e substituição de socialistas comprometidos na administração do Estado. Não creio que a manobra resulte. Mas, ao contrário, marcar oposição ao caminho da justiça, não é apenas anti-democrático, burro e inútil, mas também fazer o jogo do PS.


Nota dispicienda: A tese da cabala do caso Casa Pia é socialista e foi lançada sei muito bem por quem - e tenho registo de jornais que mencionam as primeiras referências à palavra «cabala» feitas por dirigentes socialistas no dia crítico, antes da imprensa lhes pegar no termo que filtraram e antes do sinónimo «urdidura» do actual ex-ex-candidato Costa («ex» em 2004 e «ex» em 2011). Nenhum meio para além dos socialisto-dependentes acreditou nesse absurdo. É patética a diversão de atribuírem a cabala a um colaborador de Paulo Portas, salvo erro, Pedro Guerra, responsável pela «vast right wing conspiracy», a montagem de um caso com cerca de 40 vítimas (fora as outras centenas que não conseguiram arranjar coragem para falar), 250 testemunhas só na fase inicial, dezenas de polícias, procuradores, juízes, dezenas de milhar de páginas e finalmente condenações na primeira instância de todos os pronunciados, e derrota nos processos de revanche. Mas a reinvocação agora, aparentemente a despropósito, da tese da cabala pela fustigada facção de serviço  explica-se pela culpabilização que Sócrates fez sobre os resultados eleitorais: Vieira da Silva já estava pré-apontado como culpado do desastre da campanha e a preparada sucessão de Sócrates pelo francês Ferro comprometida.
Desde logo chamam cabala ao espoletar de factos que, de modo geral, os tribunais confirmaram. Num comportamento que é típico, nem sequer lhes importava se os factos eram, como se apurou nos tribunais, verdadeiros ou não: importava quem bufou ou ampliou. Ora - cui bono? - a facção interna que deu gás ao caso efectivo parece ter sido a facção que lucrou com o desmantelamento da estrutura... Por isso, tratem da forra lá dentro: os outros não têm nada a ver com bufos e silêncios: só se preocupam com as vítimas, os factos, os resultados, o Estado, o País e a humanidade..


Limitação de responsabilidade (disclaimer): As personalidades e entidades mencionadas neste poste, baseado nas notícias dos media que comento, não são suspeitas de qualquer ilegalidade ou irrregularidade e, quando arguidas, têm direito à presunção de inocência até ao trânsito em julgado de sentença condenatória.

Jorge Miguéis, em 26-3-2011: «O recenseamento eleitoral reconheço que ele está empolado»

A resposta, através de comunicado público (!), do Director-Geral da Administração Interna ao Presidente da República, em 7-6-2011, constitui uma afronta institucional intolerável, mesmo que o Governo se encontre demissionário. O Dr. Jorge Miguéis é um funcionário público, com uma obrigação dupla de respeito pelo Chefe de Estado. As (des)considerações políticas públicas ao Presidente da República, feitas por um funcionário da administração pública não lhe cabem, mas somente a execução das competências técnicas estritas que lhe estão cometidas e o respeito, que não deve ser apenas pessoal, mas institucional, remetendo-se ao nível hierárquico que tem.

Acresce que o Presidente da República tem razão no que disse, em 6-6-2011:
«Os cadernos eleitorais actualmente têm cerca de nove milhões e quinhentos mil eleitores mas é muito difícil que existam em Portugal muito mais que oito milhões e meio de eleitores por isso seria altamente conveniente que se procedesse a uma clarificação dos cadernos eleitorais para termos uma ideia correcta, mais precisa do valor da abstenção.»
Escrevi neste blogue, em 26-1-2011, o poste «Uma democracia fantasma», onde calculei que, em 2009, último ano com valores disponíveis, o número de cidadãos nacionais a residir em Portugal com mais de 18 anos não seria superior a 8.319.105 eleitores. Se assim fosse, por exemplo nesta eleição, com 8.319.105 eleitores, a abstenção seria de 33,2%. E, tal como a  essa também não coloca em causa a legitimidade política dos vencedores, como quer quem perdeu e destaca uma extraordinária subida da abstenção de... 1,63% («Ó inclemência! Ó martírio!») numa «maioria social» curiosa que consiste na maioria... dos que estiverem em determinada rua na manifestação do dia X, à hora H do discurso. Ou na distribuição dos indecisos (os abstencionistas) que, por conveniência deles,  são contados todos para o seu lado, fazendo com que 42,7% dos votos (PC, Bloco, MRPP, PTP, POUS e PH) - e com a a extrema esquerda parlamentar (PC, Bloco e MRPP) com 10,4% do Parlamento e 14,3% dos votos -  mais os 4,03% de brancos e nulos que também abicham, signifiquem a maioria (46,7%...) contra 50,37% de maioria aritmética de votos de PSD e CDS (sem contarmos com a percentagem de outros partidos de direita). Porque para quem é totalitário, os deles significam sempre a totalidade - o resto não consta porque não é consciencializado e não é, portanto, humano.

O Dr. Jorge Miguéis é livre de ser socialista, mas enquanto funcionário do Estado, ainda por cima jurista, deve respeito e consideração ao Presidente da República. Na sua função de director-geral, tal como na de director do Secretariado Técnico para os Assuntos para o Processo Eleitoral(STAPE), em 2007, não representa o PS: serve o Estado de que Cavaco Silva é Chefe. Recordo que foi com muita dificuldade que a Comissão Nacional de Eleições (CNE) aprovou, em Fevereiro de 2011, mapa oficial dos resultados da eleição presidencial, na qual o então director-geral da Administração Eleitoral Jorge Miguéis, membro da Comissão em representação do Governo, finalmente se absteve, declarando-se «sensível à necessidade de, no momento, não causar quaisquer entraves à normal tomada de posse do candidato eleito» (sic).

Não pode contraditar o Presidente com objecções de natureza política, como terá escrito no seu «comunicado» de que o Jornal de Negócios, de 7-6-2011 publicou excertos:
«a legítima inscrição nos cadernos eleitorais dos portugueses residentes no estrangeiro constitui expressão da diáspora e resulta da adopção de políticas que fomentam a ligação dos portugueses espalhados pelo Mundo às suas origens, a qual envolve a possibilidade de indicar como residência oficial uma freguesia em território nacional, ainda que residam habitualmente no estrangeiro a maior parte do ano.»
As pretensas políticas de «ligação dos portugueses espalhados pelo mundo às suas origens» (que espantosamente compreenderiam a «legitimidade», já nem sequer legalidade, do voto nas freguesias do território nacional, em vez dos consulados, de cidadãos portugueses não-residentes, que este presume residirem apenas onze meses por ano no estrangeiro) não fazem parte das suas atribuições, nem na definição de políticas nem sequer na sua defesa ou promoção. Essa responsabilidade concerne a um nível político que este funcionário não tem, nem pode arrogar-se.

O Dr. Jorge Miguéis, em 23-2-2011, segundo a TVI24,  terá dito que não se deviam escolher os membros das mesas eleitorais  «porque "fulano é meu sobrinho"» e justificou que «nós sabemos que a escolha não é linear» -, imputando, na prática, nepotismo (aos Presidentes de Junta?) mas não cosnta que tenha apresentado queixa dessa escolha não-linear que detectou. Na sequência do escândalo de impedimento de voto de cerca de 270.785 eleitores na eleição presidencial de 23 de Janeiro de 2011 (conforme aqui calculei em poste de 4-2-2011) devido à falta de notificação dos eleitores que viram alterado o seu local de voto, o Dr. Jorge Miguéis apresentou demissão de director-geral da Administração Eleitoral, para logo ser promovido, pelo ministro Rui Pereira, a Director-Geral da Administração Interna... Pensei que se reduzisse ao silêncio, até atendendo às críticas que, neste blogue e noutros sítios, se fizeram ao Governo e à CNE, a propósito das duas eleições anteriores, e agora terem sido enviadas cartas aos eleitores e realizado a campanha nos media de promoção da eleição, como era hábito.

Porém, o Dr. Jorge Miguéis reincide. Puxa uns alegados 5 milhões de cidadãos portugueses no estrangeiro, para justificar os 9.429.024 eleitores inscritos no sufrágio de 5-6-2011. No insólito comunicado de 7-6-2011, o director-geral desmente o Presidente da República e a generalidade dos políticos e especialistas de sondagens, afirmando que «os cadernos eleitorais mostram-se credíveis e actualizados». Na verdade, contradiz-se a si próprio, pois, na Universidade Lusófona do Porto, em 26-3-2011, conforme registo audio da Visão, disse: «o recenseamento eleitoral reconheço que ele está empolado» - e repetiu, «eu reconheço que ele está empolado»... Não é melhor identificar as causas e sugerir emendas do que negar a evidência que ele próprio reconheceu e agora desmente?!...


* Imagem picada daqui.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Novo Governo: quotas e pastas

Na composição do novo Governo PSD-CDS existe o problema da quota ministerial e das pastas a atribuir ao CDS-PP.

Relativamente à quota. O CDS tem 18,2% dos deputados da nova maioria governamental (e 23,3% dos votos desse conjunto PSD-CDS). Portanto, não pode receber três pastas governamentais, se o Governo tiver dez ministérios; e só pode acalentar a esperança de receber três, se o Governo se alargar aos doze ministérios; sendo de esperar que, em qualquer caso, consiga um quinto dos secretários de Estado. E note-se que Passos Coelho ainda pretende a integração de independentes no Governo.

Sobre as pastas. O CDS poderia receber as seguintes pastas: Negócios Estrangeiros; Administração Interna (se separada da Justiça e sem serviços de informação); e Agricultura e Ambiente - o pretexto de que o CDS não tem ninguém para um sector de que se gaba de conhecer como nenhuma outra força partidária é ridículo. A pasta da Saúde e Segurança Social é um doce demasiado grande para o resultado obtido pelo CDS - tal como a Economia (onde Portas não quererá um possível sucessor, como António Pires de Lima). Isto é, o CDS não pode esperar que, na configuração do Parlamento, atento o seu poder negocial que advém da nova configuração do Parlamento e não da expectativa das sondagens urbanas, obtenha não só um quarto dos ministérios, mas também três dos mais relevantes...

E, mais  importante do que o número e do que as pastas, existe a questão de... quem serão os ministros. No PSD ou PS a questão de autonomia passada face ao PS deve ser decisiva na escolha. Não admitimos que o novo Governo sucumba - já! - ao erro de Durão Barroso em 2002, evitando as auditorias minuciosas aos ministérios e poupando os quadros socialistas, e tornando o executivo refém do PS que o cercaria imediatamente para o render ao fim de dois anos.


* Imagem picada daqui.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Dez comentários sobre a eleição de 5 de Junho de 2011

A eleição para a Assembleia da República de 5-6-2011, cujos resultados do território nacional copiamos abaixo, suscitam alguns comentários:
  1. O PSD obteve uma extraordinária vitória: meio milhão de votos a mais (mais 30% de votos) do que em 27-9-2009; 10,6% de vantagem sobre o PS e com um CDS com 11,7% (em vez dos desejados 15-18%), e muito provavelmente 108 deputados, o que lhe permite subalternizar o CDS no governo de coligação, que ainda juntará independentes como Passos Coelho afirmou no discurso de vitória. O PSD afirmou, através de Pedro Passos Coelho, uma linha jovem, justa, patriótica, aplicada, ideologicamente liberal num partido de matriz social-democrata (o que lhe ia custando a vitória significativa) e desassombrada. Contrapôs um discurso de verdade e de franqueza (salvé Eduardo Catroga!) à ruína e corrupção socialista e, finalmente, após o tango contra-natura, uma oposição clara face ao PS, sem bloco-centralismo nem governo unitário. Passos Coelho revelou, por exemplo no debate decisivo, ter muito mais carisma do que o menosprezo mediático-socialista lhe atribuía.  Na última fase da campanha, arriscou ao dizer que se não ganhasse a eleição, não governaria, ainda que alcançasse a maioria absoluta dos deputados com o CDS, e conteve o refúgio - ampliado pelos media controlados, e num círculo artificial vicioso de comentário político e sondagens que se inchavam mutuamente -,  de eleitores seus para o CDS, preocupados com o liberalismo clássico da nova linha PSD e atraídos pela viragem de Portas para um discurso a-liberal, com ênfase nos reformados e coitadinhos. Existe agora uma rara maioria absoluta aritmética de direita em Portugal: 50,4% dos votos e 57,4% dos deputados.
  2. O Partido Socialista sofreu uma derrota brutal que tombou Sócrates do poder do Estado e do partido. O PS conseguiu, até uma semana da eleição, quando as sondagens se entornaram, segurar durante bastante tempo a onda laranja o que atenuou a fuga de eleitores seus para a abstenção e para o PSD sob o bandwagon effect (a que chamo «efeito Bernardino» - «para onde votas Bernardino? Voto pela força!»): a amplificação das gaffes provocou o entopercimento dos eleitores, medido por sondagens inconclusivas na semana de ressaca do debate Sócrates-Passos, de 20-5-2011, na RTP. Mas era inevitável a punição do eleitorado à ruína financeira e económica do País e à corrupção do regime autoritário que os socialistas impuseram.
  3. O CDS de Portas prometeu muito com o seu conservadorismo neutro e cumpriu pouco: mais 10,2% de votos em valor relativo a 2009 (o crescimento de «dois dígitos» da hipérbole do líder centrista na noite eleitoral, o qual compara com um crescimento três vezes maior do PSD...), mas, atingindo 11,74% dos votos em 2011, regista apenas uma diferença positiva de 1,3% de percentagem absoluta face a 2009. Não obteve a posição de charneira, como os Lib-Dems britânicos de Nick Clegg em 2010, que ambicionava (e imprudentemente expressou, juntamente com outros dirigentes), com negociação com sociais-democratas e socialistas e negócio de Governo com quem desse mais, pois os 98 deputados de PS e CDS estão longe dos 116 deputados necessários para esse jogo de concessões do PSD: o CDS só pode coligar-se com o PSD e, assim, o seu poder negocial é bastante menor. Há cerca de um ano propôs um Governo PS-PSD-CDS e agora uma coligação pré-eleitoral com o PSD; porém, na campanha fez um desnecessário jogo duplo e cara feia, e arrogante, ao entendimento com o PSD, nomeadamente no debate televisivo com Passos Coelho que custará a esquecer. Paulo Portas é um homem muito inteligente e podia ser outro - mas é o que é, vítima de si próprio. Não me esqueço do seu discurso na Batalha, em 9-4-2002. Mas revirando-lhe as palavras cuidadas que escolheu nessa sua primeira intervenção pública como ministro da Defesa: Portas fala muito, persuade bastante, mas reforma pouco; e tem grande dificuldade em «conjugar o verbo "cumprir"».
  4. Bloco de Esquerda perdeu metade dos votos que tinha recebido na eleição de 2009 - os socialistas que retornaram à casa em perigo - e a oportunidade de consolidar o seu eleitorado. Para preservar o poder interno, o trotskista Louçã, sob o fogo radical da corrente comunista da salada russa que lidera, pré-aliou-se aos comunistas e alienou os votos, corroendo a base do eleitorado liberal do partido (eleitores mais liberais na economia do que os do CDS, segundo revelação de Pedro Magalhães, no i de 26-5-2011). Mas, fiel ao centralismo anti-democrático comunista, não se demite.
  5. O PC manteve o seu mumificado eleitorado - em rigor, teve menos 1,2% de votos (menos 5.322 votos) do que em 2009 -, mas conseguiu finalmente reduzir a ameaça do Bloco. O crescimento dos votos, e um deputado, em Faro não chega para a ocasião.
  6. E nos demais partidos, destacam-se: 1% de votos na ecologia neutra e suave do PAN-Partido pelos Animais e pela Natureza (qualquer dia ainda verei a criação do PAC-partido da Paz-Amor-e-Caridade...), o pequeno efeito da vozearia de Garcia Pereira e o fiasco de José Manuel Coelho no PTP. Esperava melhor votação no PPV-partido Portugal Pro-Vida, que, todavia, manteve a percentagem face a 2009, apesar da perseguição da ERC e do bloqueio informativo (e protecção do equívoco MEP - será que não se extingue com a demissão de Rui Marques?).
  7. A extrema esquerda parlamentar que se opõe ao Memorando de Entendimento do Estado português com a União Europeia (UE) e do FMI - Bloco e PC somados -, representa, somente 10,4% do Parlamento e 13,1% dos votos (14,3% se acrescentarmos 1,13% do MRPP). Existe, portanto, um consenso nacional para a aplicação e sustentação do acordo com a União Europeia e o FMI e das medidas de austeridade na despesa que implicam.
  8. A abstenção foi quase a mesma que em 2009: a subida de 39,5% para 41,1% parece dever-se ao empolamento dos eleitores inscritos. A eleição decorreu com regularidade no sufrágio - devido ao trabalho deste blogue, à indignação popular com o impedimento de votos de centenas de milhar de portugueses nas eleições anteriores e à prevenção do Presidente da República sobre a Comissão Nacional de Eleições e o Governo - mas ainda com uma imprensa controlada pelo poder socialista.
  9. O Presidente da República é um vencedor omisso desta eleição. Pela derrota do PS - se Sócrates ganhasse pediria a cabeça de Cavaco na bandeja dos media pela presumida irrresponsabilidade da dissolução do Parlamento - e pela mudança que comunicou ao País ser necessária. Conseguiu ainda o notável feito de passar incólume por uma campanha que Sócrates teve de desviar para o PSD, em vez de o fazer contra PSD-Cavaco, como desejava. Ri melhor quem ri por último: com paciência e persistência, Cavaco ganhou a guerra a Sócrates.
  10. A noite mediática teve episódios significativos. Passos Coelho sóbrio no estilo e no discurso, bem como sua mulher (vítima do racismo pê-éssico).  A habitual violência da segurança de Sócrates; a sua arrogância mal-disfarçada, um discurso fidelcástrico de justificação de derrota que aproveitou as dúvidas dos resultados do CDS e Bloco para ocupar o espaço televisivo com uma tentativa de manutenção de imunidade através de uma espécide de pré-inscrição nas presidenciais de 2016, que após, ter arriscado responder às perguntas dos media, correu muito mal a pergunta da corajosa jornalista Susana Martins da Rádio Renascença (4:40-6:00 deste video que o Paulo Guinote apanhou) -
    «Susana Martins (RR): Muito boa noite, senhor engenheiro, Rádio Renascença, Susana Martins. Eu gostava de saber se receia que este resultado eleitoral, esta derrota eleitoral, abra caminho a novos processos judiciais ou que acelere processos judiciais em curso? Sócrates: Processos judiciais?
    Susana Martins (RR): Estou-me a referir a eventuais novos processos em torno dos casos Face Oculta ou Freeport. (Apupos e assobios)
    Sócrates: (...) Por favor, eu compreendo a vossa surpresa, que é igual à minha, mas confesso que não entendi a pergunta. (...) Eu não consigo compreender essa pergunta pela simples razão de que a justiça nada tem a ver com a política e o que eu desejo é viver num País onde essa separação seja absolutamente, esteja absolutamente ao serviço do Estado de direito.»
    (Ler ainda o relato do José da Loja).

    Percebe-se que abriu a caça no PS às bruxas internas: o director da campanha, Vieira da Silva, que nem sequer apareceu ao lado do líder no palanque do discurso justificativo em que Sócrates nem sequer lhe agradeceu, será apontado como culpado da derrota, e, por consequência, o ferrismo - Sócrates escapuliu-se ao abraço de Ferro Rodrigues, que tinha voltado de Paris para lhe suceder... O episódio  da candidatura que era-para-ser-mas-ainda-não à saída prevenida do elevador de António José (pouco) Seguro; o riso de António Costa, mal composto quando sentia as câmaras virarem e o seu desprezo pelas outras candidaturas; o silêncio/desaparecimento de Francisco Assis. Afogados na derrota, os dirigentes socialistas fogem desconjuntados deste desastre de Berezina, só conseguindo reagrupar mais tarde; por agora, tentam salvar os anéis, enquanto não lhes puxam os dedos...




PSD                            38,63%    2.145.452 votos   105 deputados
PS                               28,05%    1.557.864 votos     73 deputados
CDS-PP                       11,74%      652.194 votos      24 deputados
PCP-PEV (CDU)            7,94%      440.850 votos      16 deputados
Bloco de Esquerda        5,19%      288.076 votos        8 deputados
PCTP/MRPP                  1,13%        62.491 votos
PAN                               1,04%        57.634 votos
MPT                               0,41%        22.494 votos
MEP                               0,39%        21.748 votos
PNR                               0,32%        17.620 votos
PTP                                0,30%        16.722 votos
PPM                               0,27%        14.978 votos
PND                               0,21%        11.671 votos
PPV                               0,15%           8.210 votos
POUS                            0,08%           4.601 votos
PDA                               0,08%           4.531 votos
P.H.                                0,06%          3.528 votos

Brancos                         2,67%       148.058 votos
Nulos                             1,36%         75.280 votos

Faltam ainda os votos do estrangeiro (cerca de 25 mil votos) mas não mudarão significativamente os resultados. O PS não descerá abaixo dos 28% nosresultados globais, sendo previsível, no círculo eleitoral do estrangeiro, a distribuição de 3 deputados para o PSD e 1 deputado para o PS.


Actualização: este poste foi actualizado às 15:31 e 15:56 de 6-6-2011.

domingo, 5 de junho de 2011

A noite dos suspiros


Em Veneza, depois da sentença ditada no Palazzo Ducale, o condenado transitava para a Prigione Nuova, através da Ponte dei Sospiri, de onde lhe era concedido um último relance da algazarra da vida do mundo, na Riva dei Schiavone, antes de recolher sozinho à masmorra negra, fria e húmida.

Na linha de outro José - López Portillo - , Sócrates, nesta noite cálida, depois da declaração da circunstância iniludível, já despida a pele de algoz de seis anos e três meses e sob a capa da pele de cordeiro dos últimos quinze dias, quando enxugar os suores frios do medo e lhe subir a ansiedade pela operação de trituração de documentos e de formatação de discos rígidos, aflito com o pavor das buscas e dos lacres, e cruzar Lisboa em direcção a sua casa, entre a grade do carro de Estado divise os rostos de desprezo, suspire pela vida de poder total que teve e sinta a prisão nova onde cairá ou o exílio onde se refugie durante anos largos e visitas semi-clandestinas ao País que arruinou.

Da crueldade do regime autoritário que estabeleceu com os instrumentos, agentes e métodos, anti-democráticos denunciados, do domínio vergonhoso da cúpula do poder judicial, da subalternização do Parlamento, da afronta ao Presidente da República, do controlo directo e indirecto de quase todos os media, da perseguição a todos os adversários, grupos e cidadãos, que não se vergaram à promiscuidade, vê-se despojado do poder do Estado e da liderança do Partido, sem expectativa de cargo de topo no estrangeiro - por causa do seu currículo político... e académico -, à míngua de um passaporte internacional que lhe sirva de salvo-conduto e aflito pela segurança do património que juntou.

O poder é efémero. O socratismo foi uma ferida que infectou e cuja cura demorará. Mas, doravante, o povo sabe o que não pode suportar. E quem assume o poder sabe o limite que não pode transpor. Nesse sentido, há um efeito de vacina no cancro do socratismo.

Aqui não pretendemos vingança, mas justiça e desenvolvimento. A barrela geral do Estado e a responsabilização judicial pedagógica do regime socratino, dos seus dirigentes e agentes, que as auditorias indiquem e o poder judiciário determine. O Estado tem de ser limpo e a nova administração tem de ser sóbria, poupada, zelosa e prudente, no respeito da lei, na garantia da liberdade e da democracia e no serviço da Pátria.


Limitação de responsabilidade (disclaimer): As personalidades e entidades referidas nas notícias dos media, que comento, não são arguidas ou suspeitas do cometimento de qualquer ilegalidade ou irregularidade.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A oportunidade da IV República

À beira do período de reflexão eleitoral que aqui sempre se respeitou, reafirmo  que o compromisso de serviço à Pátria não termina com a esperada vitória de uma campanha constante de seis anos e três meses. A luta patriótica pela dignidade do Estado de direito, autonomia do poder judicial, liberdade e democracia, continua para lá do veredicto de domingo, 5 de Junho de 2011.

O socratismo não cederá o poder facilmente: defender-se-á ministério a ministério e repartição a repartição. A reposição da legalidade no Estado exigirá a responsabilização de quem tenha prevaricado, ou servido os interesses do grupo em vez do povo, e a sua substituição imediata. A tarefa de reorganização do Estado vai ser tremenda. Mas não se pode sucumbir antecipadamente, como em 2002-2004, nem transferir o alvo para quem resistiu à avalanche rosa. Para construir com solidez é preciso limpar bem o terreno.

Mais: aqui, depois desta eleição, como antes com o poder socialista, não haverá qualquer tolerância pela corrupção, lavagem da responsabilidade na ruína do País, promiscuidade com os interesses contrários ao povo ou ofensa à liberdade. A esperança, que não deixo evanescer, é sempre a de criação da IV República.

Eu recomendo o voto no PSD.

Offshores

«Bermudas, ilhas Caimã, Panamá, Bogotá e África... - Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais fez 13 viagens em 18 meses para assinar acordos»: notável trabalho do jornalista João Ramos de Almeida, no Público, de 3-6-2011 (via Make it Better, em comentário no poste «O que se sabe», da Educação do Meu Umbigo, de 3-6-2011, sobre «O robô e a máquina de propaganda», de José António Saraiva, no Sol, de 30-5-2011.

Sobra a dúvida: o que foi o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais do Governo socialista fazer exactamente aos offshores?

A emergência da justiça



Os ataques ao juiz Carlos Alexandre, a propósito da prisão preventiva, que determinou, sobre dois alegados agressores, em Maio de 2011, de uma adolescente de 13 anos (outra foi internada por decisão do Tribunal de Família e Menores de Loures) parecem politicamente motivados. Nem o video, que chocou o País, onde se vê a adolescente a ser arrastada pelos cabelos e, quando já tinha sido derrubada, a sua cabeça a ser pontapeada 18 vezes pelas duas raparigas que a agrediram, chegou para instilar bom senso, aonde existe o ódio à independência do juiz Carlos Alexandre, presidente do Tribunal Central de Instrução Criminal de Lisboa.

Nas críticas destacou-se o habitual Dr. Marinho e Pinto (estas agressões serão diferentes da outra?) e até tem contaminado sectores da própria magistratura judicial, que o José critica. O caso da prisão dos jovens agressores da adolescente de 13 anos é um pretexto - mas falhado.

O sistema não perdoa ao juiz Carlos Alexandre a sua independência e rigor. O sistema preferia que não tivesse visto a Face Oculta, nem agora avistasse os submarinos «Caso dos Submarinos: Superjuiz aponta suspeitas de crime - Informação de offshores obriga a novas rogatórias», CM, 2-6-2011), que se atemorizasse com pressões políticas e ameaças, que demorasse diligências por causa do momento político, e que arquivasse este caso por falta de provas e desmerecimento dos indícios, angariando, por vista grossa, a consequente promoção com que a irmandade o recompensaria depois.  Para um político nenhum momento é oportuno para procedimentos judiciais. Mas a função de juiz, e o povo que serve, pedem zelo e coragem na procura persistente da verdade.


Limitação de responsabilidade (disclaimer): As personalidades e entidades referidas nas notícias dos media, que comento, não são arguidas ou suspeitas do cometimento de qualquer ilegalidade ou irregularidade.

O fedor mediático do PS

Em 2009, segundo se referiu no processo Face Oculta, o primeiro Governo Sócrates terá alegadamente planeado, organizado e executado um «plano governamental para controlo dos meios de comunicação social», que, envolvia a tomada socialista dos restantes media independentes - TVI, Correio da Manhã e Público - e, assim, na prática, a subversão do Estado de direito. O resultado do plano foi o controlo da TVI e a neutralização do Público - só o Correio da Manhã resistiu porque, alegadamente, não houve acordo no preço  pedido.

Porém, os efeitos da tentação totalitária continuaram a acontecer. Um facto silencioso foi o desaparecimento dos écrans de televisão da crítica implacável (a licenciatura marada, a liberdade de expressão e outrosdos Gato Fedorento, desde 2009, seduzidos por um contrato milionário... da PT, que os reduz aos anúncios do MEO.

Mesmo sem a bala de prata dos nexos de causalidade persistentemente desmentidos pela vozearia sistémica, os media rosearam: na imprensa, na televisão e na rádio. Na TSF, tradicionalmente enviesada para a esquerda, foi nomeado director, em 2008, o Dr. Paulo Baldaia, alegadamente ex-funcionário do PS, assessor de imprensa do secretário de Estado António José Seguro no primeiro governo Guterres e do candidato oficial do Partido Socialista ao Parlamento Europeu Mário Soares. Como costumo, ontem, 2-6-2011, às 10:36, coloquei a pergunta ao Dr. Paulo Baldaia, mas até ao momento em que publico este poste não obtive confirmação ou desmentido (se vier, o desmentido será aqui publicado).


Limitação de responsabilidade (disclaimer): As personalidades e entidades referidas nas notícias dos media, que comento, não são arguidas ou suspeitas do cometimento de qualquer ilegalidade ou irregularidade.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Day after

A vantagem crescente do PSD face ao PS nas últimas sondagens desta semana (8,4 na Marktest, 5% na Universidade Católica e 4,4% na Eurosondagem) explicam a opção socratina de refrear a campanha negra nos media de confiança sobre Passos Coelho e dirigentes do PSD. Sócrates sabe que já perdeu e quer ganhar alguma boa vontade para o fatídico 6 de Junho de 2011 e seguintes. Mas não é certo que não arrisque uma jogada de última hora - para lá dos dossiês negros do blogue do sistema profissional de O Verdadeiro Lápis Azul, para fornecimento dos media de confiança, que vistas as primeiras páginas desta manhã de 2-6-2011, já se distanciam do serviço obediente do partido Socialista.

A informação sobre as sondagens pode ser consultada no blogue Margens de Erro, de Pedro Magalhães, que tem feito um notável serviço de registo e explicação técnica. Transcrevo os dados dessas sondagens (e a comparação entre parênteses com a sondagem anterior da mesma empresa) do Margens de Erro e indico os linques originais:

Marktest, 28-31 Maio, Amostra=1208, telefónica

PSD: 38,5%  (-0,8%)
PS: 30,1%  (-3,3%)
CDS/PP: 9,7%  (+0,7%)
CDU: 8,5%  (+2,0%)
BE: 4,5%  (-0,3%)

Eurosondagem, 30-31 Maio, Amostra=1025, telefónica

PSD: 35,6%  (+0,8%)
PS: 31,2%  (-0,9%)
CDS/PP: 13,6%  (+1,0%)
CDU: 7,9%  (+0,3%)
BE: 5,8%  (-0,7%)

CESOP/Católica, 28-29 Maio, Amostra=3963, presencial

PSD: 36%  (=)
PS: 31%  (-5%)
CDS/PP: 11%  (+1%)
CDU: 8%  (-1%)
BE: 7%  (+1%)

Merece um destaque especial a sondagem da Universidade Católica, com recolha de dados entre 29 e 30 de Maio de 2011) feita com uma amostra de 3.963 pessoas e uma margem de erro de 1,6% (muito baixa) para um intervalo de confiança de 95%. Isto é, de acordo com essa sondagem, só existe 5% de probabilidade de os resultados (se apurado em 28-29 de Maio) se encontrarem para lá da margem de erro de 1,6%. Portanto, com 95% de confiança, o PSD pode ter de 34,4% a 37,6% e o PS de 29,4% a 32,6% (se a votação decorresse nesses dias). A vantagem não parece ser resolúvel para o PS.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Vitória do PS => bancarrota do Estado => bancarrota das famílias e das empresas

O País precisa de que lhe digam - para que finalmente oiça - que é muito difícil evitar a bancarrota do Estado, que a bancarrota do Estado português implica a bancarrota de uma grande parte das famílias portuguesas e das empresas e que votar Sócrates provocará a bancarrota do Estado em menos de dois anos. O registo financeiro dos dois governos Sócrates permite concluir que a vitória do PS terá essa consequência.

Portanto, de uma forma simples (e muito complicado para os portugueses...): vitória do PS de Sócrates nas eleições de 2011 = bancarrota do Estado = bancarrota das famílias e das empresas (o Blogger não me deixa substitui o símbolo de «igual» por «implica»).

A contingência da bancarrota não tem sido explicada aos portugueses, em nome de um presumido sentido de Estado - aquilo que, supostamente, têm de mostrar os candidatos para agradar ao eleitorado e que consiste, grosso modo, em não atacar o Governo... Mas quem sabe do perigo faria melhor informar e prevenir os portugueses para o desastre nacional de uma vitória do PS nas eleições de 5 de Junho de 2011.

Explico:
  1. Por baixo que ainda seja o serviço da dívida (juros e amortizações), tende a crescer aceleradamente;
  2. Não é possível sustentar juros de 11,85% (taxa de juro das obrigações do Estado português a três anos, na tarde de 30-5-2011) com taxas de crescimento do PIB negativas, ou de 1% como na última década.
  3. A dívida é muito maior do que o Governo socialista admite e crescerá exponencialmente com a incorporação das parcerias público-privadas das novas auto-estradas e TGV, que a esperança média de vida de um governo socialista previa que fossem os outros a pagar.
  4. Tal como a Grécia em apenas 12 meses, podemos ver-nos em cerca de ano e meio na contingência de termos já dispendido o equivalente ao pacote financeiro da União Europeia/FMI para três anos.
  5. A Alemanha e a França já admitem a bancarrota do Estado grego - seja por dilatação dos prazos de pagamento dos empréstimos junto dos investidores privados, seja por redução dos montantes a pagar (o chamado haircut - «corte de cabelo») - e parecem pouco disponíveis para novo empréstimo. Da mesma forma, nessa circunstância, admitirão a bancarrota do Estado português.
  6. A bancarrota do Estado português - seja por moratória nos pagamentos, dilacção dos pagamentos ou corte de cabelo mais ou menos à escovinha - implica a supressão de crédito privado do Estado,  a um programa draconiano do FMI (ainda mais duro) e obriga o País a uma competitividade imediata dos seus produtos.
  7. Sem crédito e sem tempo, a competitividade do País só se alcançará com a desvalorização imediata da moeda, o que implica a saída do euro.
  8. A saída do euro e o retorno à moeda nacional implicará que o novo escudo se desvalorizará e depreciará em 50% do valor numa semana (como na Argentina, depois da dolarização).
  9. A flutuação, e depreciação, da moeda face ao euro provoca o aumento para o dobro das dívidas então em escudos das famílias e das empresas, para lá dos bancos.
  10. A recuperação, num País em que a agricultura vale 2% do PIB, em que 3/4 dos solos têm uma aptidão exclusivamente florestal, que é deficitário em quase todos os produtos alimentares (salvo o vinho...), que tem um rácio de cobertura das importações pelas exportações de 65% (em 2010), será extremamente penosa e muito longa.

Não será melhor ao eleitor não votar PS e, assim, ter uma oportunidade de evitar a própria ruína financeira?!...

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O CDS, o aborto e o casamento homossexual

Pedro Passos Coelho deu uma entrevista na Rádio Renascença, em 26-5-2011, onde disse que a lei do aborto «pode ter ido um pouco longe demais» e que importa fazer uma «reavaliação» da lei. Disse ainda mais (mas não tanto, quanto veicularam...):
«Não veria como impossível que se voltasse a realizar um referendo sobre essa matéria, mas já agora gostava que esse referendo ocorresse depois de fazer a avaliação do que foi o desenvolvimento e a aplicação prática da última lei que o Parlamento aprovou».

Ainda nesse dia, Sócrates manifestou-se «chocado» (sic) com estas declarações de Passos Coelho e acusou Passos de adaptar «as convicções às conveniências» (sic)...

E Paulo Portas respondeu, também em 26-5-2011, que não faz sentido reabrir a hipótese de novo referendo antes de passarem, pelo menos, dez anos sobre o anterior.

Contudo, a maior incoerência está no CDS, partido que se se tem apresentado como campeão dos valores tradicionais e que, afinal, tem um registo de votos e de posições de destacados dirigentes, favorável à legalização do aborto e ao casamento homossexual, como é demonstrado na carta-aberta do Presidente do Partido Portugal Pro-Vida (PPV), Prof. Luís Botelho Ribeiro, ao Dr. Paulo Portas, presidente do CDS, de 29-5-2011:

«Ex.mº Senhor Presidente do CDS-PP,
Ex.mº Dr. Paulo Portas,

Saudações democráticas.

Por demasiadas vezes, tem o PPV vindo a ser, por pessoas ligadas ao CDS-PP, acusado de "dispersar votos" e, mais concretamente, de dispersar votos cristãos. Penso que não se pode continuar a alimentar um tal equívoco entre uma franja significativa de cidadãos, potenciais votantes num dos nossos partidos. E para que tal equívoco termine, penso que a melhor coisa a fazer será um debate entre nós, com carácter de urgência democrática.

Com toda a lealdade, desde já lhe manifesto o essencial dos pontos que aí me proponho defender, na esperança de que nem por isso se furtará ao desafio! Nós pretendemos demonstrar exactamente o contrário do que se tem dito - quem dispersa o voto cristão é o CDS-PP, ao "meter na gaveta" uma parte essencial dos seus valores originários, defraudando assim as expectativas de uma parte muito significativa da sociedade portuguesa. O PPV, pelo contrário, congrega e apela ao voto cristão (e não só), o voto de milhares de cidadãos cansados de votar num "mal menor" ou naqueles que deixaram de se comprometer com os valores fundamentais e inegociáveis da Vida e da Família.

Em 2007, 243.132 eleitores de Lisboa votaram "não" no referendo do aborto. No Porto foram 294.586 e em Braga 189.102. Em todo o país 1.539.566 cidadãos afirmaram a sua posição pela Vida - representando mais de 40% da sociedade portuguesa, apesar de todas as manipulações tentadas pelo governo Sócrates, cujo "modernismo" levou os portugueses até à boca do lobo, deixando-nos completamente à mercê do FMI.

É sabido que a esmagadora maioria dos votantes no CDS-PP é pro-Vida. Apesar disso, o CDS-PP apresenta como cabeça de lista alguém que é declaradamente pro aborto e pro "casamento" gay - Teresa Caeiro. Como se tal não (a)basta(rda)sse, o partido apresenta em terceiro lugar João Rebelo, que se depreende só ter votado contra o casamento gay para simular uma "posição homogénea" do CDS, tal como também terão feito Teresa Caeiro e Assunção Cristas, assumindo declaração de voto. Também o sexto candidato, apresentado num "posto do crescimento", já que o CDS-PP tem 5 eleitos por Lisboa, o jurista Adolfo Mesquita Nunes, assume-se favorável ao "casamento" gay. Significa isto que, se o PP crescesse em Lisboa, isso representaria apenas a eleição de mais um deputado anti-família.

Como é de conhecimento público, após a legalização do casamento gay, teoricamente sem direito de "adopção de crianças", o governo fez passar por "baixo da porta" uma lei do "apadrinhamento civil" que, como se viu, silenciou o clamor do "lobby gay" a favor da adopção. E a razão deste silenciamento é apenas uma: o apadrinhamento civil dá-lhes na prática o direito de adopção que tanto reclamavam. Não temos ilusões - votando em quem aprova o casamento gay, votamos igualmente em quem abre de facto a porta à adopção gay de crianças (podem um dia ser os seus filhos!)

Podem os cristãos de Lisboa que votam habitualmente CDS-PP contribuir com o seu voto para eleger dois ou três deputados pro-"casamento gay" e alguns pro-aborto no próximo parlamento? Poder, podem - mas, em consciência, não devem. Porém, podem com o seu voto no PPV dar ao CDS-PP um sinal eloquente da necessidade de clarificação das suas posições, de mudança de rumo para voltar a representar fielmente a sua "base social de apoio", transportando para o Parlamento os valores sociais cristãos que tanta falta ali fazem e que, desta vez, só poderão lá entrar, sem equívocos, através do voto no PPV.

O CDS não está só na sua apreensão face ao crescimento potencial do PPV em face do milhão e meio de votos no "não". Também o PSD percebe o perigo quando ainda esta semana, falando com a Rádio Renascença(!), o seu líder alvitrou a possibilidade de talvez, eventualmente, reavaliar a lei do aborto, ou de não bloquear uma qualquer iniciativa de cidadãos no sentido de um novo referendo... Do PS ao BE, todos entenderam e denunciaram o calculismo da manobra, vindo de quem em 2007 foi favorável ao "sim" à liberalização do aborto e em 2008 se mostrou favorável a uma proposta de "contrato civil semelhante ao casamento".

Por tudo isto, conforme manifestado acima e em nome do direito à "decisão informada" de milhares de cidadãos portugueses, hesitando entre o CDS-PP, o PSD, o PS e o PPV, venho desafiar V. Ex.ª para a realização de um debate em dia, hora e local à escolha de vossa escelência, antes do termos da presente campanha eleitoral.

Melhores cumprimentos,
Luís Botelho

(responsável-geral do PPV)

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+ info:


"Teresa Caeiro, João Rebelo e Assunção Cristas apresentaram declarações de voto, justificando o voto contra pela vinculação ao partido e pela manutenção de uma “posição homogénea” do grupo" http://ww2.publico.pt/Media/revolta-em-surdina-no-ps-no-dia-do-sim-ao-casamento-gay_1416948?p=1

Nos lugares que classifica como “postos de crescimento”, Paulo Portas propôs novos nomes: o jurista e `bloguer´ Adolfo Mesquita Nunes no sexto lugar em Lisboa,

http://www.ionline.pt/conteudo/116722--cds-pp-mantem-cabecas-lista-e-aposta-em-novas-caras-em-lugares-eleicao-possivel-
http://www.observatoriodoalgarve.com/cna/noticias_ver.asp?noticia=44196
http://www.ionline.pt/interior/index.php?p=news-print&idNota=116722»


* Imagem picada daqui.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Governo encomenda noventa BMW?


Será verdade que o Governo encomendou noventa BMWs de séries altas para entrega depois das eleições de 5-6-2011?

Não acredito.


* Imagem editada daqui.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Rui Costa Pinto vence um processo socratino

Rui Costa Pinto venceu em tribunal o socratismo das informações, que lhe havia movido um processo por um artigo escrito em Fevereiro de 2006 (!) na revista Visão, segundo revela o jornal i, de hoje, 26-5-2011, e me confirmou o próprio. Esta notícia tem o maior relevo político e actualidade porque atinge o segredo do poder do socratismo: as informações.

As bofetadas do poder (SLAPP) doem e moem, calam e custam, mas finalmente os homens de bem triunfam. E quando ganham, depois do calvário familiar, profissional e social, recomenda-se que, com os seus juristas estudem os processos, para verificar se existe fundamento para interpor queixa por denúncia caluniosa e pedido de indemnização cível, dando o troco democrático do veneno que foram forçados a beber. A facilidade da resposta técnica de instaurar processos tem como consequência iniludível o silêncio do opositor constituído arguido - e mandado calar pelo tribunal (por vezes de forma redundante face ao próprio estatuto de arguido, como a mim já me aconteceu no Dossiê Sócrates) - e a pedagogia do medo que, justa e democraticamente, face aos cidadãos que têm direito de escrutínio público e de expressão. Mas o poder tem um prazo, findo o qual a deferência política se esgota e pode originar o ricochete, da maçada e do custo de ser agora arguido. Por causa disso, é conveniente, que todos os processos injustos de bofetadas do poder tenham o troco democrático devido. Se assim continuarmos a proceder, o poder que é sempre temporário na sua força e imunidade, pensará que é, afinal, custoso e perigoso, processar os cidadãos pelo direito sagrado de expressão.

Transcrevo a notícia do i, esperando que o Rui publique a sentença na íntegra logo que seja possível.

«Sentença judicial arrasa argumentos de Sócrates sobre espiões de São Bento
por Augusto Freitas de Sousa, Publicado em 26 de Maio de 2011

O caso diz respeito a uma queixa-crime contra um jornalista que denunciou a utilização das secretas pelo primeiro-ministro. O tribunal decidiu que a notícia não era difamatória, mas sim um trabalho jornalístico fundamentado sobre um assunto de interesse público.
A notícia de caiu como uma bomba em Fevereiro de 2006. o jornalista Rui Costa Pinto escrevia, na "Visão", que "o primeiro-ministro está a criar um novo núcleo de serviços de informação, não previsto na lei e sem controlo do parlamento", que estaria sob a sua dependência directa.
O texto viria a merecer uma queixa por difamação de José Sócrates e do então secretário-geral do Serviço de Informações da República Portuguesa (SIRP), Júlio Pereira, contra o jornalista e o director da revista "Visão", Pedro Camacho.
A decisão da juíza Graça Pissarra, dos juízos criminais de Lisboa, dá como provados, entre outros pontos, que "os despachos de nomeação dos membros do gabinete do secretário-geral do SIRP não foram publicados no Diário da República", que "à data da reportagem, já havia decorrido mais de um ano desde a publicação da lei orgânica n.o 4/2004, sem que, no entanto, tivesse sido elaborada e publicada a respectiva regulamentação", que "nos cinco meses anteriores à publicação, num processo de renovação dos serviços de informações, os directores do SIS e do SIED, bem como o director da DIMIL, foram substituídos", que a experiência dos directores escolhidos na área dos serviços secretos, "nomeadamente no que diz respeito a questões operacionais, não era relevante" e ainda que, quando o artigo saiu, o chefe de gabinete do secretário-geral do SIRP e principal assessor político do primeiro-ministro eram quadros provenientes do SIS". Tudo "falso" Além do primeiro-ministro e de Júlio Pereira, os directores do SIS e do SIED, Antero Luís e Silva Carvalho, disseram ao tribunal, respectivamente, que a notícia era "pura invenção" e que o texto era "mau, infame e completamente falso". Jorge Bacelar Gouveia, que fazia parte do conselho de fiscalização das secretas, classificou a prosa como "falsa", o chefe de gabinete de Sócrates nessa altura, Luís Patrão, disse que "a capa da revista dava a ideia de que se iria criar uma polícia política que fazia lembrar a antiga PIDE", classificando a notícia como "falsa". Augusto Santos Silva testemunhou por escrito, "reputando como falsas as imputações constantes do texto". Alberto Martins referiu que o texto em apreço imputando a Sócrates a criação de uma nova secreta é "falso, atentatório da honra do visado" e, por último, Pedro Silva Pereira garantiu que "a notícia em causa é completa e grosseiramente falsa".
Apesar dos testemunhos de "peso", a juíza considerou que "não se afigura que as expressões do texto [...] atinjam a honra e consideração dos assistentes" (Sócrates e Júlio Pereira). Além de voltar a referir que a lei orgânica do SIRP "não se encontrava efectivamente regulamentada, Graça Pissara salienta que se mostrou pacífico que "o SIRP respondia directa e politicamente perante o primeiro- -ministro e funcionava na presidência do Conselho de Ministros e que destacadas personalidades, como sejam deputados da Assembleia da República, manifestavam, à época, reservas quanto à actividade fiscalizadora do conselho de fiscalização". Concluía que o próprio Bacelar Gouveia reconheceu a falta de experiência dos membros.
O advogado de defesa, Rui Patrício, disse ao i que a sentença é importante para a liberdade de imprensa e conclui que "num Estado de direito, todas as matérias, mesmo as secretas, são escrutináveis".»


* Imagem picada daqui.

Limitação de responsabilidade (disclaimer): As entidades referidas nas notícias dos media, que comento, não são suspeitas ou arguidas do cometimento de qualquer ilegalidade ou irregularidade.

O comportamento dos eleitores e dos partidos

Pedro Magalhães deu hoje, 26-5-2011, uma entrevista ao i, que merece leitura atenta. Tenho chamado a atenção para aquilo que tem escrito acerca dos eleitores e dos partidos portugueses por que me parece a análise mais funda e produtiva feita no País.

Posso não concordar com a sua perspectiva política, e com algumas conclusões e justificações como ontem indiquei, e até com a sua acumulação, no passado do papel de árbitro (quando era, até ao final de 2009, director de centro de sondagens da Universidade Católica) e de comentador político ocasional - o que, noutro plano, também vale para Rui Oliveira e Costa. Não varro a realidade para debaixo do tapete. E não ponho em causa a sua honestidade científica e profissional, nem o relevo do seu estudo. Mais, porque não adianta brigar com os números, venho recomendando contra as teorias da conspiração, que se aproveitem os resultados das intenções de voto e as tendências, mesmo contraditórias que emergem, em vez de os contestar - e isso vale para todos (embora já não para a oportunidade e perguntas das sondagens, decidida pelos media que as encomendam). Desprezar e negligenciar os resultados da medição de intenções de voto conduz ao desastre, pois não permite a emenda dos erros e a exploração de vantagens.

Na entrevista, Pedro Magalhães salienta alguns factos e tendências que deveriam ser aprendidos:
  1. As campanhas reforçam decisões íntimas: mobilizam apoiantes dos presumidos vencedores e trazem abstencionistas; e desmobilizam os apoiantes dos perdedores (os que não querem ir ao estádio ver a sua equipa perder). É por isso que as sondagens são importantes: aumentam os «Bernardinos» (os que «votam para a força!», que são em maior número que os «coitadinhos» (que votam nas vítimas).
  2. Uma eleição não é só uma avaliação da prestação passada, mas também do desempenho futuro. Digo eu que num clima económico e laboral de medo, muitos eleitores, apesar do registo de ruína do País, acoitam-se no partido que lhes pareça dar maior protecção social no curto e médio-prazo.
  3. Metade dos eleitores vota sempre no mesmo partido - e o PC tem eleitorado cristalizado - que só a esperança de vida atinge...
  4. Há uma importância maior das transferências de votos de um partido para a abstenção, e vice-versa, do que  da transferência inter-partidária de votos. 
  5. A tendência, evidente nas sondagens até agora publicadas sobre esta eleição de Junho, de transferência de votos do Bloco de Esquerda para o PS (cerca de um terço dos votos do Bloco em 2009) e do PSD para o CDS (cerca de um quarto de votos a mais face às legislativas de 2009).
  6. O PS é o «partido nacional com mais simpatizantes» e ocupou o centro ideológico; o PSD deslizou para a direita, estando ideologicamente em cima do CDS. Mais do que a deriva do eleitorado para a esquerda, devido à crise, houve um opção conservadora de Ferreira Leite e, agora, com Passos Coelho uma opção liberal na economia - enauanto o CDS adoptou uma política neutra em termos ideológicos... mais a protecção dos reformados.
  7. O carácter urbano-burguês dos eleitores do Bloco: votam no Bloco (ou no PS de Sócrates...) pela agenda radical nos costumes, mas são ainda mais liberais na economia do que o CDS. Aliás, digo eu, o CDS de Portas chegou a ensaiar o liberalismo de costumes (!), mas emendou rapidamente, pois perdia o eleitorado tradicional e não ganhava, porque tem uma imagem marcada de direita conservadora, o eleitorado radical nos costumes. Mais ainda: creio que Louçã guinou para a esquerda por pressão militante interna dos radicais trotskistas, para evitar a desunião do partido, mas a salada russa americana do liberalismo e comunismo do Bloco deslassará, mais tarde ou mais cedo, como a maionese discursiva utópica que a envolve. O segredo ideológico de Sócrates, em evidente contraste com o socialismo clássico de Soares, foi essa síntese: liberalismo radical nos costumes (aborto, casamento homossexual, anti-religião) e capitalismo burguês, temperado com o assistencialismo para os desvalidos.
  8. «Se não houvesse o apelo do voto útil, não haveria razão para o CDS não ter quase tantos votos como o PSD». Não concordo e percebo a justificação.

Pedro Magalhães não fala da diminuição do patriotismo e do altruísmo no comportamento do eleitor - embora se perceba dos motivos do voto que aponta centrados no interesse - , nem ainda de outros segmentos de mercado além da velha tetralogia sociológica do sexo, idade, classe social e grau de instrução. Um novo segmento de mercado muito crítico é a volatilidade de voto dos reformados dourados e dos funcionários públicos não-professores

E no comportamento do eleitor, falta ainda abordar a questão tabu da corrupção. A verdade é que o eleitor europeu moderno resolve a dissonância cognitiva do voto no corrupto que lhe dá jeito, com a revisão da sua percepção, auto-justificando-se de que ele não é corrupto em vez de, em consciência, modificar o voto. Vivemos tempos de aflição e egoísmo: mas não de liberalismo. O único liberalismo em que o eleitor acredita não é «cada um por si», mas «cada outro por si»: para ele a máxima protecção do Estado e os menores impostos; para os outros a menor protecção e carga fiscal punitiva.