Neste quadro, publicado pelos próprios C. Reinhart e Kenneth Rogoff, pode ver-se a principal diferença: en
quanto C. Reinhart e Rogoff indicaram que a média da taxa de crescimento anual do PIB de um País com dívida pública acima de 90% do seu PIB (entre 1945 e 2009) era de -0,1%, Herndon, Ash e Pollin corrigem esse valor para 2,2%!... Assim, há realmente uma diferença na taxa média de crescimento anual do PIB nos casos, ou anos, em que um País está mais endividado, mas a diferença que Reinhart e Rogoff calcularam é muito atenuada, no estudo de Herndon
et alii, no escalão de dívidas acima de 90% do PIB, sendo a diferença aceitável face ao escalão de 60% de endividamento (2,2% de crescimento em contraponto com 3,2%). Essa relação não se modifica substancialmente com taxas de endividamento superiores a 120% perante as quais a taxa de crescimento desce aos 1,6%. Só no escalão de 0 a 30% de dívida pública se verifica uma diminuição significativa da taxa de crescimento real do PIB.
De acordo, com o gráfico de dispersão abaixo do artigo de Herndon, Ash e Pollin, é só próximo dos 225% de dívida pública que um Estado passa a ter crescimento negativo, mas nestes níveis de endividamento mais altos os dados são menores e mais dispersos. Deve ainda notar-se como se ilustra no
plotting dos valores que a variação do crescimento económico entre os países dentro de cada escalão é assinalável.
Relação entre taxa anual de crescimento do PIB face à dívida do Estado 1946-2009
A outra questão que desta polémica decorre é a determinação da causa desta relação:
o grande endividamento de um Estado é a causa de redução do seu crescimento económico, nomeadamente depois do limiar dos 90% de dívida pública face ao PIB? C. Reinhart e Rogoff defendem-se, afirmando que no seu contestado
paper não falam queda no crescimento por
causa do endividamento, mas em
associação entre endividamento e redução do crescimento económico.
Paul Krugman aproveitou imediatamente, em 16-4-2013, o balanço deste artigo Herndon, Ash e Pollin, para insistir na sua tese de que o nexo de causalidade tem sentido contrário: é o baixo crescimento económico que provoca grande endividamento, isto é, uma consequência de despesa extraordinária do Estado para fazer face à crise e de queda da receita fiscal pela diminuição do consumo e falência de empresas. A determinação da causa nas ciências humanas é muito difícil, mesmo para lá do cuidado dos intervalos de confiança e das margens de erro: uma
correlação elevada não significa nexo de causalidade.
Note-se ainda, a propósito, que
C. Reinhart e Rogoff não tinham encontrado relação entre endividamento e inflação nas economias dos países desenvolvidos (em grupo, com excepção dos EUA), mas apenas nas economias dos países menos desenvolvidos.
O artigo de C. Reinhart e Rogoff foi usado como justificador da austeridade orçamental, inclusivé nos EUA, conforme
referem Herndon et alii, sobre o chamado «Paul Ryan Budget». de 2012. Em Portugal também,
por Vítor Gaspar e Carlos Costa. O FMI tradicional defensor do equilíbrio orçamental nos processos de intervenção - desde logo para ressarcimento dos credores... - e as instituições da União Europeia também se aproveitaram do artigo para justificar a receita de austeridade que impuseram aos países, como Portugal, mais afetados pela depressão provocada internamente pelo acumular da corrupção de Estado e externamente pela crise das dívidas soberanas.
Se a
esquerda norte-americana passou da crítica do supply-side economics (de Reagan) para a defesa do equilíbrio orçamental na era Clinton, rapidamente agarrou a bandeira do velho keynesianismo - que não era monopólio seu -,
aplicado lá, como na Europa, aos «programas sociais», isto é, assistencialismo. Portanto, a ideia keynesiana do incremento significativo da procura agregada através do lançamento de grandes obras públicas que provocariam aumento do consumo e do investimento, é passada agora para uma espécie de
ponzi scheme social, no qual, no plano monetário, o Estado faz dinheiro, como a
administração do socialista Obama (que Paul Krugman vai louvando como «
quase resolvido problema do défice»...) aliada à Reserva Federal do monetarista Bernanke, para pagar artificialmente os títulos do tesouro que emite para cobrir o défice orçamental (o
quantitative easing manhoso...), e para aumentar as exportações através de depreciação competitiva, e, no plano dito social, o lança através de
helicóptero (
Milton Friedman, Money mischief, 1994, p. 29) para programas corruptos de transferências para bancos e oligopólios, para
subvenções e para
incentivos à preguiça. Esta
política socialisto-monetarista considerada milagrosa - o Estado não precisaria de equilibrar as contas, já que lhe basta emitir títulos de dívida que paga no mercado secundário com a criação eletrónica de moeda... -, tem sido possível, até agora, devido ao endividamento das famílias aos bancos e à exportação da inflação para os países credores (os compradores estrangeiros de títulos do tesouro norte-americano). Mas é uma política moralmente errada no seu fim - a corrupção - e ruinosa no médio-prazo. No fim, alguém tem de pagar a conta da preguiça da
espiral recessiva. E o emprego, nos EUA, ainda que substancialmente menor do que na Europa, não recuperou ainda cabalmente nos EUA. Ora, tem de ser a recuperação do emprego privado o máximo objetivo de uma política patriótica.
O problema ideológico é que, no habitual comodismo, cansada do esforço da criação de receita e fustigada ideologicamente pela pressão da esquerda para distribuir dinheiro pelos programas socia(listas),
a direita deixou-se cercar na trincheira da austeridade desigual com medo do helicóptero monetaristo-socialista. E é dessa trincheira lamacenta e fétida da austeridade desigual - aquela que pune a maioria do povo e poupa os setores corruptos - que a direita tem de ousar saltar para o combate ideológico sustentado na doutrina e no trabalho, com vista a alcançar uma verdadeira recuperação dos países. A finança - até a do Estado... - é um atoleiro.
A prioridade tem de ser o combate à corrupção e o desenvolvimento da economia, não o Estado nem os bancos. Não se pode considerar um êxito sequer o louvado exemplo da
Letónia... A política germânica da moeda forte tem de ser derrotada; a política de juros altos cobrados pelo Banco Central Europeu aos Estados carentes tem de ser emendada, as nepotistas políticas seletivas de subvenção substituídas por impostos mais baixos sobre o trabalho e as empresas. Se falhar a ânsia dos povos europeus - todos! - voltarem a controlar a moeda e a fronteira da União, a outra alternativa à mendicidade é a saída do euro, a qual será muito traumática.
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Todavia, o artigo de C. Reinhart e Rogoff, datado de 2010, não pode pagar as favas do
königskuchen, cujas fatias já vinham a ser devoradas há muito pelos alemães, mesmo antes desta nova grande depressão económica, que emergiu em dezembro de 2007..
O principal motivo da política germânica de austeridade orçamental é a defesa de uma moeda forte que permita elevado nível de bens estar aos assalariados e pensionistas alemães. A
staasträson imposta pelo poder de
matriz prussiana aos povos do sul da Europa implica austeridade não por causa do artigo de C. Reinhart e Rogoff, mas pela necessidade de pagar aos bancos alemães os créditos concedidos para financiar grandes obras públicas portuguesas, motivadas pela corrupção de Estado, e refinanciamentos bancários. Como tenho dito, é mais barato e fácil ao governo alemão obrigar Portugal a pagar esses créditos aos bancos alemães do que proporcionar recursos do próprio Estado alemão aos bancos alemães com volumes preocupantes de crédito mal-parado... Como dizem os críticos (veja-se este
artigo de Charles Hugh Smith, de 18-3-2013, sobre Chipre), prevalece um diretório promíscuo com os bancos que explora os cidadãos, a economia e os Estados mais débeis.
A política germânica de euro forte só é possível pela aceleração das exportações alemães, cuja economia amorteceu rapidamente o efeito da
Longa Recessão setentrional de 2007-?, devido à
competitividade natural e ao efeito da
concertação laboral de Gerhard Schröder, mesmo num quadro de euro forte. E para essa aceleração notabilíssima das exportações alemães, num quadro de salários elevados pagos aos trabalhadores da indústria, concorre também uma política aduaneira complacente da União Europeia face às exportações asiáticas de produtos em que assente a economia do sul da Europa e mais rija, através de normas técnicas, em relação aos produtos sofisticados em que se baseia a sua economia. Esta política aduaneira é apoiada pela França e por outros países do Norte e do Centro da Europa.
Em troca da adesão germânica ao euro, a Alemanha ganhou, na prática, a preponderância sobre a política monetária da Zona Euro; e em troca dos fundos comunitários para o desenvolvimento regional dos países do sul da Europa, mais pobres, ganhou, com aliados do norte e do centro, o controlo da política aduaneira, que lhe permite aceder livremente aos mercados da China, Índia e países do sudeste asiático, enquanto abre as fronteiras do continente às exportações asiáticas de bens de mais baixa tecnologia. Toma lá, dá cá...
Sem o instrumento monetário (que permitia a desvalorização competitiva), sem instrumento aduaneiro (que protegesse a produção nacional), com o instrumento orçamental controlado pela União Europeia e pelo FMI, sujeitos à tutela ideológica do Estado Social(ista) e ao pacto nacional e internacional de corrupção, resta, neste quadro político atual, ao nosso País, como aos outros povos do sul da Europa, na posição passiva em que a resignação do conforto deixa o resquício da nossa vontade coletiva, o calvário da subida do desemprego, da queda dos salários, das pensões e dos subsídios, pois a competividade real (melhores produtos, mais baratos) só é possível de corrigir em décadas. A expectativa de alteração da política alemâ por
redução do ritmo de crescimento económico nestes meados de 2013, seja
com ou sem chanceler Merkel - ou de uma invrsão da política sarko-hollandista de submissão aos interesses alemães em troca da esmola de juros baixos - e de uma consequente mudança da política europeia para moeda mais baixa do que o dólar e obrigações europeias, é somente uma esperança. Mas tem de ser provocada pela revolta eleitoral dos povos europeus, que a nível interno tem de
substituir a política estatal corrupta e preguiçosa pela política honesta da cidadania do trabalho.