sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Descida dos preços e das remunerações

(Atualizado)


A depressão económica provoca antecipação de expectativas de trabalhadores e empresários, com retração e adiamento de consumo e investimento. Quem se aprestava para comprar adia e quem ia investir resguarda-se. O processo decorre num círculo vicioso que implica um agravamento dessas decisões e da situação económica geral.

Todavia, a proteção social do desemprego, e do rendimento social, permite alguma folga na decisão de aceitar trabalho, qualquer trabalho. Aquilo a que chamo o desemprego seletivo: os trabalhadores não aceitarem emprego que considerem incompatível com as suas habilitações académicas, formação, experiência profissional e categoria laboral. Quando se aproxima o final do prazo de proteção social de desemprego, intensifica-se a oferta de trabalho pelos trabalhadores, no País e no estrangeiro. A emigração é vista por muitos como um recurso inevitável, apesar de a maioria se agarrar à terra onde nasceu e vive, às famílias e aos amigos. Para a grande maioria dos jovens, dos desempregados e subempregados, é a única luz que vêem neste túnel negro de depressão económica provocada por corrupção e por delírio ideológico.

Notes-se que, se bem interpreto a informação da Segurança Social, em Portugal, na situação de desemprego ocorrida antes de 1-4-2012, o subsídio de desemprego começa nos 9 meses, para beneficiários menores de 30 anos e com tempo de desconto inferior a cinco anos, e pode chegar em beneficiários de mais de 45 anos (e 25 anos de trabalho) aos 40 meses de subsídio de desemprego (e mais outros 40 meses de subsídio social de desemprego, que, em montante, desce para metade do valor anteriormente auferido), isto é, ao todo, no máximo, 6 anos e 8 meses de proteção; e nas situações de desemprego ocorridas depois de 1-4-2012, parte dos 5 meses, para beneficiários menores de 30 anos e com tempo de desconto inferior a cinco anos, e pode chegar em beneficiários de mais de 45 anos (e 25 anos de trabalho) aos 28 meses de subsídio de desemprego (e mais outros 28 meses de subsídio social de desemprego, que, em montante, cai para metade do valor anteriormente auferido), ou seja, no máximo, 4 anos e 8 meses de proteção. Além do benefício, a partir dos 55 anos, dos programas de pré-reforma e de reforma antecipada (com penalização de 6%, no setor privado, e de 6,5%, no setor público, por cada ano de antecipação até aos 65 anos. Estes são os valores atuais, mas irão agravar-se, depois das novas medidas de austeridade sobre os impostos, sobre as pensões, sobre os salários da função pública e sobre os empregos públicos eventuais.

Em qualquer caso, desde os que procuram imediatamente emprego, no País e, por força da ruína nacional, também no estrangeiro, às pessoas com menos iniciativa e contactos, que demoram a encontrar alternativas, a situação de  desemprego não é apenas uma tragédia social, mas é também e antes do mais, uma tragédia pessoal.

Além do desemprego também existe a descida de preço do trabalho, dos bens e serviços que esse esforço produz, tanto para os que trabalham por conta própria como para aqueles que trabalham por conta de outrém. Retraindo-se a procura de bens e serviços, a oferta desce o seu preço de contratação. Porém, tem-se notado uma maior rigidez nos escalões mais baixos de remuneração, de trabalho manual e indiferenciado, do que nos preços cobrados por hora nos preços dos trabalhadores mais qualificados e nos quadros. A maior proteção relativa no desemprego é dada - como é justo - aos trabalhadores de mais baixa remuneração, que aceitam menos descidas nos preços do seu trabalho dos que os quadros que, por via de menor procura dos seus serviços, são forçados a trabalhar por bastante menos dinheiro. Os jovens licenciados incluem-se também nesta descida de remuneração, sendo muitos usados em programas de estágio não remunerados para lá dos aceitáveis três meses e os demais jovens são afetados pelo fecho das empresas e instituições à contratação, forçando-os a abandonar a sua família, sociedade, terra.

Para lá dos programas e esquemas legais e para-legais - com abuso da proteção de desemprego, de pré-reforma, de reforma antecipada e de rendimento social, por pessoas que estão efetivamente a trabalhar -, existe a economia paralela, com gente que vive, trabalha e negoceia, completamente à margem do fisco e da segurança social. Esta economia paralela está em crescimento devido à corrupção de Estado, que leva os cidadãos a desconfiar do rigor do Estado na utilização do dinheiro dos impostos. Assim, há muita gente que sempre teve uma atividade ou negócio à margem do fisco - e só à margem do fisco e das contribbuições da segurança social sobrevive. Existem outros que beneficiam dos esquemas de proteção social, mas mantém uma atividade ou biscate. E existem muitos que tendo perdido o guarda-chuva da proteção social no desemprego arranjam trabalho na economia paralela manual e não só, desde a mulher-a-dias, ao canalizador, ao eletricista, ao pedreiro, ao contabilista, ao economista.

A descida de preços dos bens e serviços não é uniforme. As matérias-primas procuradas por economias em crescimento - petróleo. minério, produtos agrícolas - aumentam de preço, enquanto outros produtos e serviços diminuem de preço. Surge uma espécie de deflação... seletiva, que afeta setores económicos internos, desprotegidos dos monópolios que os governos asseguram mancomunados com as grandes empresas de bens não transacionáveis (ex. telecomunicações e energia).

O setor da publicidade que em Portugal, conforme me dizia uma amiga, «implodiu» é um dos mais afetados pela descida dos preços. Leia-se, no Dinheiro Vivo, de 25-1-2013, o texto cru do publicitário Pedro Bidarra, «Alda, Elvira, Liliana e Nádia».


* Imagem picada daqui.


Atualização: este poste foi atualizado às 11:26 de 26-1-2013.


8 comentários:

  1. Muito bom blog. Sempre com informação atual e interessante

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  2. DoPortugalProfundo alerta há muito, sobre o afundamento à vista. Mas, DoPortugalProfundo é como São João Baptista. Fala. Fala. Fala. Ninguém ouve. Dizem até que é maluco. Está perdido. Como São João Baptista.

    Nada do que aqui se escreve nes post é novidade. Mas, o que aqui diz o empregado mais bem pago da VW em Portugal, tem toda a verdade, também:

    António de Melo Pires, director da VW Autoeuropa, defendeu hoje que “Portugal só se pode culpar a si próprio por esta situação”.

    O director da maior fábrica de automóveis portuguesa referiu, no I Forum Portugal-Alemanha, que "ao longo dos últimos 20 anos houve vários movimentos geoestratégicos que colocaram Portugal num a posição difícil, mas também e verdade que ninguém soube ler os sinais globais".

    Hoje, Portugal está numa "situação muito difícil com incapacidade de competir a nível mundial, mas por culpa nossa", sublinhou António de Melo Pires.

    O director acredita que uma das grandes problemáticas em Portugal é o ensino. "Não temos um sistema de ensino que nos permita formar quadros intermédios para a indústria, tal como existe na Alemanha com o Sistema DUAL". Para o responsável os quadros médios portugueses são "mal formados, sem capacidade tecnológica e não conseguem competir com outros", como o que se faz na Alemanha.

    http://economico.sapo.pt/noticias/portugal-so-se-pode-culpar-a-si-proprio-por-esta-situacao_161145.html

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  3. Pois é, para que serve o Ensino? O que sabem fazer as pessoas produzidas no sistema de ensino nos últimos 30 anos? O que produziram os lentes universitários? Os países mais competitivos do mundo, a Suíça, a Holanda, a Noruega, o Canadá, a Austrália, têm um sistema de ensino que produz profissionais de qualidade. Portugal não produz técnicos especializados no sistema de ensino, sendo muitas empresas a substituir o sistema de ensino. Portugal produz muitos sociólogos, licenciados em ciencias da educação, gestores da treta e licenciados em Marinho e Pinto. Todos eles integrar-se-ão no sistema empresarial angolano, brasileiro, suíço e afins, muito rápidamente, nem que seja a trabalhar na hotelaria do desenrasque.

    É a vida! Como dizia um dos Pais da Falência e apaixonado da educação, António Guterres.

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  4. Ahahaha!
    Mordaz,mas verdadeiro.

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  5. Telenovelas de um PS de cabeça perdida.

    http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/nacional/atualidade/encontro-entre-costa-e-portas-alarma-seguro-e-passos

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  6. Paulo Morais, como sempre, a expor as razões da crise, todos sabemos que é a corrupção político-partidária -> https://www.youtube.com/user/A25Abril/videos?view=0

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  7. nesta república soviética só os touros podem investir

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  8. Ai Salazar, Salazar, que fazes cá tanta falta!

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