domingo, 17 de março de 2019

Memorando sobre o impacto do abuso sexual de menores na Igreja portuguesa

A propósito do abuso sexual de crianças por padres, que tem atingido a Igreja Católica e, nomeadamente a portuguesa, apresento neste blogue um «Memorando sobre o impacto do abuso sexual de menores na Igreja portuguesa», documento inédito que, com um amigo, elaborei e entreguei pessoalmente a quem devia, em 21 de fevereiro de 2014. Publico o texto porque continua atual - e em penitência de, erradamente, o ter mantido inédito.

«Memorando sobre o impacto do abuso sexual de menores na Igreja portuguesa
21-2-2014  
O assunto do abuso sexual de crianças sobre a Igreja portuguesa instalou-se como um tópico de tendência nos média portugueses, nos blogues e nas redes sociais, e suscita aflição social. Foi por causa disso que solicitámos em 7 de outubro de 2013 uma audiência [...].

Independentemente do trabalho interno de documentação, de repúdio, de prevenção e de resposta ao problema do abuso sexual de crianças, e da maior atenção e intervenções públicas que o tema tem merecido por parte da Santa Sé e do Episcopado português, a opinião pública que se formou, e que se mantém, relativamente à pedofilia e mesmo aos abusos sexuais de crianças por parte de clérigos, outras vocações consagradas, catequistas e demais membros dos movimentos eclesiais, desconfia da resposta da Igreja. Mais ainda, apesar dos estudos que concluíram pelo menor número e menor percentagem de abusos sexuais de crianças, e de pedofilia, na Igreja Católica face à sociedade em geral, e outras confissões religiosas, a ideia que perpassa na sociedade, numa organização inspirada por Deus mas governada por homens, é precisamente a contrária, uma convicção de generalização de abusos e de tendências pedófilas.

Cremos, portanto, que se justifica a apresentação [...] da nossa preocupação com o tema da pedofilia e do abuso sexual de crianças e com o impacto negativo do tema na avaliação da Igreja em Portugal por parte da sociedade e dos próprios cristãos. Assim, cremos que seria útil ponderar as seguintes ideias:

  1. Não negação do problema do abuso sexual de crianças na Igreja, ainda que raro.
  1. Divulgação dos procedimentos instituídos pela Igreja Portuguesa, em consonância com a Santa Sé (http://www.vatican.va/resources/index_po.htm) Santa Sé, sobre o abuso sexual de crianças por membros do clero, nomeadamente do documento da CEP, «Diretrizes referentes ao tratamento dos casos de abuso sexual de menores por parte de membros do clero ou praticados no âmbito da atividade de pessoas jurídicas canónicas», de 19-4-2012 (http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?&id=90586).
  1. Comunicação pública pela Igreja portuguesa do trabalho concreto de prevenção e de resposta ao problema do abuso sexual de menores por membros do clero; e de que serão remetidos para o Ministério Público todos os casos em que se apurem indícios do cometimento de abusos e que a colaboração com as autoridades civis no apuramento da verdade nestes casos é total.
  1. Adoção das melhores práticas de outras Igrejas no tratamento do problema, nomeadamente da mudança de atitude da Igreja norte-americana (http://www.usccb.org/issues-and-action/human-life-and-dignity/sexual-abuse-of-children/index.cfm).
  1. Maior ênfase ao apoio psicológico e social na prevenção e na resposta aos abusos, sem prejuízo do indispensável enquadramento do direito canónico aplicável.
  1. Realização de um simpósio nacional sobre o abuso sexual de crianças, com a participação de especialistas e participação da imprensa.
  1. Criação de um painel de especialistas – a exemplo do Centro de Proteção da Criança da Universidade Gregoriana (http://elearning-childprotection.com/) - que realize conferências e ações de formação sobre a realização de comunicações perante o episcopado, as Igrejas diocesanas e as ordens religiosas, e movimentos eclesiais, sobre a pedofilia e o abuso sexual de menores, a sua prevenção, resposta e tratamento, nomeadamente da questão da reincidência.
  1. Criação de uma comissão nacional, junto da Conferência Episcopal, e de comissões em cada diocese, para prevenção e análise preparatória de queixas de abusos sexuais de crianças. Essas comissões devem integrar clérigos, psicólogos/psiquiatras, juristas e assistentes sociais.
  1. Criação de grupos diocesanos de oração e apoio a vítimas de abusos, que sejam auxiliadas por psicólogos/psiquiatras e assistentes sociais.»

Cinco anos depois, na Igreja portuguesa estamos quase no mesmo ponto e, com exceção de algumas Igrejas locais (com destaque para a norte-americana, a irlandesa  e a alemã), muito pouco se avançou. Leia-se a comunicação da vaticanista mexicana Valentina Alazcari no Encontro «A proteção dos menores na Igreja», organizado pelo Papa Francisco, em 23-2-2019.

A política de silêncio é terrível e tem de ser mudada porque negligencia as vítimas, as crianças e as suas famílias, escandaliza e afasta os fiéis e justifica a indignação da comunidade. Importa reconhecer que até há pouco, a atitude padrão na Igreja era a transferência do padre pedófilo para outra paróquia, onde, por mais que prometesse ao superior, conter a sua tara, frequentemente voltava a abusar de crianças.

É necessário instituir, e executar, uma política de tolerância zero com os abusos, de transparência e  comunicação imediata às autoridades judiciais dos indícios de abuso sexual.  A César o que é de César e a Deus o que é de Deus: a Igreja não tem nem órgãos, nem gente preparada para investigação criminal dos abusos; e o processo canónico deve ser independente do processo da justiça do Estado a que nenhum clérigo ou colaborador da Igreja pode ser eximido quando incorrer num crime.

Mudar não é apenas necessário, mas urgente!

14 comentários:

Anónimo disse...

É uma vergonha o privilégio da padralhada da "inquisição" ou de outra qualquer crença. São todos fundamentalistas criminosos e deviam ser banidos da face da terra. Isto é tudo uma ofensa/afronta à inteligência humana, já nos bastam os merdosos e estúpidos políticos.

Anónimo disse...

Tinha que ser... A Inquisição tinha que vir à baila. Mas as Cruzadas apanharam falta...

Por pouca gente saber, escrevo que houve dois tipos de Inquisição: a da Igreja e a laica, criada e dirigida por reis, príncipes, duques, etc. A Inquisição laica existiu pois o homem sempre aproveitou uma religião para dar cabo de outros homens. Foi a Inquisição laica a que provocou maior número de desgraças, calculando-se entre 5 a 30 vezes mais do que a religiosa.
Acabou a Inquisição mas apareceram inúmeras organizações que a substituíram.

ABC escreve o que é lógico, o que é desejável. Pior que a Igreja que tem tapado o Sol com a peneira, tem sido este Estado que promove quem, de taras confirmadas, sofre e faz sofrer.

Anónimo disse...

Houve inquisições papais, reais e protestantes. A maior parte das práticas atribuídas às papais, para além de muita fantasia, foram praticadas pelas outras duas. Conflitos de interesses e falsas notícias muito contribuíram.
As primeiras inquisições surgiram em França, por causa dos cátaros que punham em causa a harmonia e segurança dos reinos, mas a mais falada é a espanhola.
A pena de morte pela fogueira foi criada pelo imperador alemão Frederico II e penso que nunca posta em prática pelo santo ofício.
Parece-me interessante saber quem criou as primeiras universidades...
Não terá a igreja católica ajudado para que hoje, em especial na península ibérica as mulheres não tenham de usar a burca? A evitar que as meninas assim que tenham a primeira menstruação estejam aptas a casar? Etc, etc, etc.
Pessoalmente acho que globalmente a inquisição foi necessária e útil.
Quando, não se acredita na existência de Deus, acredita-se na, não existência de Deus.
A natureza humana não permite o meio termo. A crença está lá, ou numa coisa ou noutra. Certo será, no fim, ou teremos a prova da existência de Deus, ou (ironia do destino) prova nenhuma, nada.
Carlos

Anónimo disse...

Consócio de 21 de Março de 2019 às 18:09. Veja o passado das Univesidades em:

https://cleofas.com.br/igreja-catolica-mae-das-universidades/

Anónimo disse...

Obrigado caro anónimo. Não conhecia este resumo em português.
Espero que mais pessoas o possam ler, e as ligações.

"A atual Universidade de Roma, La Sapienza – onde tristemente estudantes e professores impediram o Papa Bento XVI de proferir a aula inaugural em 2008 – foi fundada há sete séculos, em 1303, pelo Papa Bonifácio VIII (1294-1303), com o nome de “Studium Urbis”".

Acção lamentável e tudo aponta para que o futuro seja mais sombrio.

Há animais irracionais que não fazem isto... ou se tem ou não, e quando não se tem, não se tem a consciência de que não se tem... e não se pode ensinar (se é que se pode...).

Carlos

PS
O mito da inquisição espanhola
https://www.youtube.com/watch?v=npc5Fqml1ds
Procurei um livro que estava na net mas já não o consigo encontrar. Li-o há uns 10 anos, até a net está mais politicamente correcta...

Por Agora disse...

Claro que ao 'homem' sabe-lhe bem oprimir outros homens.
Foi sempre assim e assim será até à extinção da espécie.

Ao longo de milénios, apareceram uns poucos Homens que souberam interpretar a sua época: havia um vazio na censura!!!
Aconteceu agora com a internet e que não vai durar muito. Ficará para os bancos, seguradoras e governos. Os .gov

Vamos passando palavra, mesmo na clandestinidade.
Do artur que o cumprimenta.

Anónimo disse...

Ouvido pela TSF, António Marujo, especialista em assuntos religiosos, afirma que este pontificado vai ficar marcado pelos abusos sexuais na Igreja Católica.
"Há muitos crentes hoje dececionados com o que se passa. Há pouco tempo entrevistei o porta-voz do episcopado chileno que dizia que a grande maioria dos crentes perdeu a confiança absoluta na sua hierarquia. Isso para uma instituição que repousa, ou devia repousar, sobre a confiança, sobre as relações fraternas é muito trágico", sublinha o jornalista.

"Desde logo ao nível da politica e da economia, das injustiças que grassam pelo mundo fora, do problema do racismo, do crescimento da xenofobia, do aumento da intolerância em relação aos imigrantes e aos refugiados, a todo esse universo", disse António Marujo, acrescentando: "Portanto, há aqui obviamente uma estratégia da parte de muito gente, desde logo no interior da Igreja Católica, que o que quer é que se fale destas questões. Por um lado, ainda bem que elas são faladas, para ver se o papa consegue limpar a casa de vez, mas, por outro lado, têm esse objetivo de fazer esquecer as restantes preocupações do papa, que são muitas e que são muito importantes também."

Anónimo disse...

"...afirma que este pontificado vai ficar marcado pelos abusos sexuais na Igreja Católica."

Estranho... Foi pena não ter esclarecido que o se está a passar, e que passa despercebido com tanto ruído, é que estão a ser divulgados casos cometidos actualmente e outros que foram cometidos à 10, 20, 30 e 40 anos atrás. Tentando passar, maliciosamente, a ideia de que os representantes da igreja católica são, quiçá, maioritariamente pedófilos e/ou abusadores de crianças.
Pode ficar marcado pela, enorme divulgação de casos, mas só para alguns...

"Por um lado, ainda bem que elas são faladas, para ver se o papa consegue limpar a casa de vez,..."
lol também ouvi dizer que as alentejanas quando querem abortar, atiram pedras às cegonhas...
Haver pessoas assim faz parte da natureza humana! Seja na Igreja Católica ou noutro lado qualquer! Criam-se falsas esperanças para depois dizer que a Igreja não consegue livrar-se deste tipo de pessoas, que é um ninho, blá, blá, blá...

Embora a Igreja Católica não tenha de se reger pelo que as outras Igrejas façam ou deixem de fazer, acho interessante que não se ouve falar, pelo menos com tanta intensidade sobre os abusos sexuais e/ou actos de pedofilia praticados pelos representantes das outras religiões... pois, a Igreja Católica é o grande empecilho.

Penso que poucos conhecem - NAMBLA (North American Man/Boy Love Association) e IPCE (International Pedophile and Child Emancipation)
Aqui deixo uma lista dos que abertamente expuseram/expõem os seus intentos - https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_pedophile_activist_organizations
Disto praticamente não se fala, mas da Igreja Católica...

Carlos
PS
https://www.youtube.com/watch?v=spPeRpAegF0

Anónimo disse...

"... do problema do racismo, do crescimento da xenofobia, do aumento da intolerância em relação aos imigrantes e aos refugiados, a todo esse universo"."

Imigrantes e refugiados... hum... faltam aqui os migrantes... discriminação...
Quais são as razões para que isso aconteça, por exemplo? Será que as pessoas não ouvem nas notícias que determinado imigrante e/ou refugiado e/ou migrante cometeu este ou aquele crime e que afinal até já estava referenciado pela polícia... até houve "blogueres" que publicaram fotos de migrantes na europa e de... sósias(?) gémeos(?), na Síria armados e segurando a bandeira do estado islâmico... bom estou a ser má língua, os serviços de segurança europeus não detectaram nada de anormal... etc, etc.
E do problema do racismo, do crescimento da xenofobia do aumento da intolerância, da arrogância, do desrespeito, das violações, etc, em relação aos povos europeus que os acolhem?
Só em frança.
12 Igrejas em frança vandalizadas numa semana - 20-.3-2019 - https://www.breitbart.com/faith/2019/03/20/twelve-french-churches-attacked-vandalized-in-one-week/
"In 2018, the Ministry of the Interior recorded 541 anti-Semitic acts, 100 anti-Muslim acts, and 1063 anti-Christian acts."
A 22-03-2019 dois dias depois da notícia anterior:
"The Church of St. Sulpice in Paris, where the Da Vinci Code movie was filmed, was set on fire just after midday mass on Sunday, Le Parisien reports. Firefighters and police said the blaze was an arson attack."
https://www.rt.com/news/454472-arson-vandal-french-catholic-church/
O que foi noticiado em Portugal? Mas se fosse uma sinagoga ou uma mesquita...
Cadê os defensores dos multiculturalismos, das integrações, dos sos racismos, das liberdades de culto, etc, etc, etc... Pois é, mas vivendo à custa dos impostos... bom, não falemos sobre isso, não é politicamente correcto.
Infelizmente muitas das culpas recaem, não só em muitos "migrantes" mas também e em especial sobre os políticos europeus e nossos.
Eleições aproximam-se, continuemos a votar neles...
Carlos

Anónimo disse...

Numa entrevista, Francisco afirmou que o Vaticano é um Estado que não está a salvo dos pecados e das vergonhas.
O Papa Francisco defende que “é preciso ir limpando” o Vaticano porque é um Estado que não está a salvo dos pecados e vergonhas de outras sociedades, segundo o excerto de uma entrevista publicado este domingo.
No passado domingo, um grupo de padres católicos da Polónia decidiu queimar vários livros que são considerados uma ofensa e um sacrilégio para a Igreja Católica. Entre eles, estão diversos livros da saga Harry Potter, da escritora J. K. Rowling.
Tudo aconteceu em Gdansk, uma cidade situada no norte da Polónia. Depois da Eucaristia dominical, um padre pegou fogo a vários livros num dos pátios adjacentes à fundação SMS from Heaven (Mensagem do Céu).
Além dos livros, também outros objetos foram queimados, como por exemplo, estátuas de elefantes.

DOCTOR NO, NO, NO VIEGAS NO PLEASE- JUST SAY NO disse...

excessivo

Anónimo disse...

Mais interessante é a sua verificação que daí se seguiu a instalação, nos seminários, de uma cultura gay, motivada por gente influente e com o profundo objectivo deliberado de destruir a Igreja que existe. A culpa dos abusos não remonta à revolução sexual do Maio de 68, à exposição dos seminaristas de então à existência de cinemas que só passavam filmes pornográficos ou ao epifenómeno de Ratzinger ter chegado à sua cidade natal, numa bela Sexta-Feira Santa, e ter-se deparado com um cartaz alusivo a um filme com duas pessoas nuas.

Anónimo disse...

Papa Francisco: excluir gays é “não ter um coração humano”

Anónimo disse...

No próximo dia 1 de Julho chega às bancas o semanário Privado. Editado pela Vozes e Prosas, estrutura criada por José Leite (antigo director de O Crime), António Manuel Pinho (director do jornal Conversas de Café) e Mário Pontes, o título teve inicialmente lançamento previsto para 17 de Junho. Um adiamento que António Manuel Pinho, coordenador editorial do semanário, quando contactado pelo M&P, justifica com “problemas burocráticos na constituição da empresa”.Com direcção de José Leite, o semanário tem um preço de capa de 1 euro, 24 páginas e uma tiragem de 30 mil exemplares, posicionando-se como um título que visa ser uma “voz interventiva, única e independente”, nas palavras de António Manuel Pinho. Uma postura que, diz, justifica a escolha dos colunistas. António Balbino Caldeira, Zeferino Boal, Manuel Monteiro e Otelo Saraiva de Carvalho são alguns dos nomes que vão assinar opinião no Privado. “Há preocupações comuns que unem pessoas com perspectivas antagónicas”, comenta o coordenador editorial do jornal.